Não é apenas na sala de aula que as crianças aprendem, mas também nos parques infantis e durante momentos de lazer, revela a Academia Americana de Pediatria (AAP) num novo relatório onde  reforça "a importância da aprendizagem lúdica.

De acordo com este relatório clínico da AAP, divulgado a 20 de agosto, a brincadeira infantil não deve ser descurada. Pelo contrário, brincar representa um desenvolvimento saudável da criança, uma chave para as habilidades das funções executivas e um amortecedor contra os impactos negativos do stresse. Além disso, a brincadeira constrói o vínculo entre pai e filho.

"Estamos a recomendar que os pediatras prescrevam uma receita para brincadeiras, pois é muito importante", afirmou o pediatra Michael Yogman, principal autor do relatório da AAP.

"Brincar com os pais e amigos é fundamental para o desenvolvimento de um conjunto de habilidades do século XXI, incluindo habilidades sociais, emocionais, linguísticas e cognitivas, todas necessárias para a próxima geração num mundo economicamente competitivo que requer colaboração e inovação. Os benefícios da brincadeira não podem ser desvalorizados em termos de atenuar o stresse, melhorar as habilidades académicas e ajudar a construir relações seguras, estáveis e estimulantes que protegem contra o stresse tóxico e aumentam a resiliência socioemocional", acrescenta ainda o pediatra.

Diversas pesquisas nos EUA forneceram inúmeros exemplos da importância da brincadeira para o desenvolvimento da criança. Num estudo com crianças entre os 3 e os 4 anos, ansiosas por entrar na pré-primária, ficaram duas vezes menos stressadas quando lhes foi permitido brincar com os professores ou colegas durante 15 minutos, comparadas com outros colegas que ficaram a ouvir o professor a contar uma história.

Outras pesquisas também descobriram que crianças em idade pré-escolar com comportamentos disruptivos eram menos stressadas e menos perturbadoras quando o professor brincava com elas regularmente ao longo de um ano, em comparação com colegas que tinham interações de rotina.

No entanto, e apesar dos benefícios visíveis da brincadeira, esta tem sido "ameaçada" aos longo dos últimos anos devido, principalmente, a mudanças sociais.

Tendo por base a realidade americana, uma pesquisa publicada na Advances in Life Course Research entre 1981 e 1997, o tempo para brincar diminuiu 25%, e 30% das crianças no jardim de infância viram o recreio ser substituído por aulas académicas. Outra pesquisa realizada a nível nacional nos EUA com 8.950 crianças em idade pré escolar demonstrou que apenas 51% das crianças saíam para passear ou brincar uma vez por dia com os pais. Os pais também revelam um maior receio em deixar as crianças brincar na rua, por questões de segurança.

No entanto, há outros elementos de distração hoje em dia e que afastam as crianças da brincadeira, como explica o pediatra Jeffrey Hutchinson, co-autor do relatório. "O uso de aparelhos eletrónicos, como a televisão, consolas, telemóveis e tablets está a distrair cada vez mais as crianças. É preocupante quando o digital retira tempo de brincadeira, seja ao ar livre ou em espaços fechados".

A AAP recomenda, por isso, que a brincadeira seja incentivada, promovendo a vontade natural da criança em brincar e não através de motivações externas, como boas notas nos testes, e deixa recomendações para pais, professores e pediatras.

- Assim como os pediatras apoiam programas que incentivam a leitura, os médicos devem também incentivar a aprendizagem lúdica para pais e bebés, prescrevendo uma "receita para brincadeiras" ao longo dos primeiros dois anos de vida da criança.

- A brincadeira deve começar desde cedo e continuar através do desenvolvimento de uma criança. Os pais devem observar e responder ao comportamento não-verbal dos bebés durante os primeiros meses de vida. Por exemplo, quando um bebé sorri para si, sorria de volta.

- Educadores, pediatras e famílias devem defender e proteger a brincadeira e a aprendizagem lúdica no pré-escolar e escola devido aos seus inúmeros benefícios.

- Os professores devem incentivar mais a aprendizagem lúdica, deixando que as crianças assumam a liderança e sigam a sua própria curiosidade.

- Promover o recreio e a atividade física todos os dias.

A AAP publicará o relatório "The Power of Play: A Pediatric Role in Enhancing Development in Young Children" na revista Pediatrics de setembro 2018.

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