Em entrevista à agência Lusa, o professor catedrático, aposentado, da Universidade do Porto, especialista em filosofia da Educação, adverte que a atual situação terá consequências na formação dos jovens.

“A formação para os valores faz-se não através de modelos teóricos, mas da vivência real, em que se tomam as atenções e os cuidados com os outros que importa ter”, refere, apontando que os projetos de voluntariado entre os mais novos são sobretudo desenvolvidos a partir das escolas, atualmente a funcionarem em regime não presencial.

O académico considera que a formação cívica e a consciência política dos jovens poderão ficar comprometidas pela interrupção do normal curso de uma formação que vai já no segundo ano de períodos de confinamento, decretados pelo Governo para travar os contágios de SARS- CoV2.

“Na evolução de uma criança ou um jovem, meio ano, um ano, são fundamentais, são muito importantes. Não voltam a repetir-se”, atesta.

De acordo com Adalberto Dias de Carvalho cada vez mais os jovens têm de ser formados através das chamadas competências transversais, que são basicamente as competências relacionais consideradas fundamentais para “o seu exercício profissional futuro, para a sua convivência atual” e também para a formação “enquanto pessoas solidárias”, especifica.

“Sabemos muito bem que numa criança ou num jovem de 13, 14, 15 anos, o desenvolvimento está em fases que são irrepetíveis, que são diferentes umas das outras e que têm uma sequência muito próprias. Se eles ficam impedidos de viver os seus 13 anos ou os 14 e 15 ou os nove e 10 normalmente, isto obviamente que vai criar hiatos na sua formação, lacunas, que vão ter consequências!”, assume o académico, com várias obras publicadas na área da educação, entre as quais “Educação Social” (Porto Editora).

Por outro lado, os jovens estão neste momento retidos em casa, privados de uma convivência normal com os colegas e os amigos e das experiências de vida comuns nesta fase das suas vidas, o que os empurra ainda mais para o circulo das redes virtuais, que não substituem as relações pessoais, presenciais, frisa o professor.

“Não substitui em termos da sua relação afetiva, mas também não substitui em termos de enfrentar os riscos, os perigos que lhe são colocados ou que ele próprio gera, o que é próprio desta idade, mas que ele [jovem] vai aprendendo a gerir”, constata.

A vida, diz, é feita desses afetos e também dos riscos com que os jovens se confrontam, venham do exterior ou sejam gerados pelos próprios: “Estão privados disto. Se não estão totalmente privados, pelo menos tem estado muito atenuada a possibilidade deste tipo de vivências”.

A alternativa é “prevaricar”, através de encontros interditos, para os quais se sentem impelidos, o que “também não é positivo em termos formativos”, admite o investigador, que atualmente leciona no Instituto Superior de Ciências Empresariais e Turismo (ISCET), onde coordena o Observatório da Solidão.

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