O que é epilepsia?

Epilepsia é uma doença crónica neurológica em que o cérebro é capaz de gerar circuitos elétricos patológicos. De acordo com a idade da criança, o local do cérebro onde as crises se iniciam e para onde se propagam, podemos ter diferentes tipos de crises. Uma crise isolada não é epilepsia, da mesma forma que uma crise provocada por febre, desidratação, traumatismo também não é epilepsia. Epilepsia implica crises epilépticas recorrentes, sem fator desencadeantes, separadas por um intervalo superior a 24h, de forma imprevisível e súbita. Mas a epilepsia não é só isso! Epilepsia é também as consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais das crises epilépticas. Ou seja, as implicações que a epilepsia determina na criança, família, escola, sociedade fazem parte do diagnóstico, e devem também ser discutidas nas consultas com os pais.

É frequente nas crianças?

A epilepsia é uma das doenças crónicas mais frequentes na criança. Pode iniciar-se no recém-nascido, na infância, na idade escolar ou na adolescência. Em Portugal existirão cerca de 100 000 pessoas com epilepsia, admitindo uma incidência semelhante aos outros países europeus de 1/1000 habitantes. Muitas estarão por diagnosticar, outras situações estarão erradamente diagnosticadas como epilepsia. É frequente o excesso de diagnóstico e o subdiagnóstico. Globalmente, cerca de metade das epilepsias inicia-se na idade pediátrica, outra metade na vida adulta.

Quais as causas de epilepsia?

Na criança, existe um predomínio de causas genéticas, ou seja, certos genes transmitidos de geração em geração na mesma família determinam uma predisposição para desenvolver epilepsia. Uma outra causa frequente na criança são lesões cerebrais congénitas (por exemplo uma malformação cerebral) ou adquiridas (um traumatismo crânio-encefálico, uma infecção, um tumor ou um AVC). Podem ocorrer situações em que não encontramos nem uma lesão cerebral nem nenhum familiar conhecido com epilepsia.

Não existe uma única forma de epilepsia, talvez o mais correto seja referir “as epilepsias”, uma vez que é um grupo tão heterogéneo e diverso nas suas causas e história natural. Certas formas de epilepsia podem ser doenças para toda a vida, outras podem ocorrer apenas durante um período limitado da vida da criança.

Quais são os sinais de uma crise epiléptica?

Mais uma vez os sinais de uma crise epiléptica podem ser muito variados, de acordo com a sua origem em determinada área do cérebro, a maturação da criança, a sua propagação por diferentes estruturas do cérebro. Por exemplo, o revirar dos olhos, a perda de consciência, uma postura em contração de um braço e uma flexão do braço oposto podem ser manifestações de uma crise epiléptica e o médico, pela descrição que os pais fazem da crise consegue definir se foi realmente uma crise epiléptica  e em que localização cerebral a crise se iniciou. Uma paragem muito breve de segundos, com interrupção da consciência e pestanejo, seguida de rápida recuperação, pode ser outra manifestação de uma crise de epilepsia. Uma queda súbita, seguida de tremor dos 4 membros, mordedura de língua, salivação, perda de urina, pode ainda ser outro sinal de uma crise epiléptica. Um gosto estranho, um cheiro súbito e limitado, uma sensação visual súbita e autolimitada, podem também ser manifestações de uma crise epiléptica. A descrição rigorosa do que se passou e o registo em vídeo da crise podem ajudar o médico a identificar se foi realmente uma crise epiléptica, a definir e classificar o tipo de crise e a área do cérebro onde a crise se iniciou. Quanto melhor a história, melhor o diagnóstico.

O que fazer durante a crise?

O aspeto fundamental é manter a calma e não entrar em pânico. Deite a criança de lado, afaste-a de objetos que a possam magoar,  proteja a cabeça com uma peça de roupa dobrada. Observe a crise para a poder descrever mais tarde, olhe para o relógio e registe a hora em que se iniciou e a hora em que terminou. Vai ficar surpreendido, as crises parecem durar horas e na realidade duram apenas alguns segundos ou poucos minutos. Habitualmente a criança fica sonolenta após a crise e não se recorda do que se passou, converse calmamente com ela até recuperar.

O que não deve fazer? Introduzir dedos ou objetos na boca da criança, contrariar a convulsão usando a força, deslocar a criança de um lado para o outro durante a crise, dar-lhe de comer ou beber. A maioria das crises passa espontaneamente sem qualquer intervenção. Em certos casos, que o seu médico lhe irá explicar, pode ser necessário administrar alguma medicação para terminar a crise.

Que exames são fundamentais para o diagnóstico?

O aspeto mais importante é transmitir ao médico uma descrição detalhada da crise, idealmente pela pessoa que assistiu, se possível complementada com um registo vídeo feito por exemplo por um telemóvel. Por vezes podem ser necessários exames complementares, que são isso mesmo: complementam a hipótese diagnóstica que o médico já colocou ao conjugar a descrição da crise, a idade da criança, o seu exame físico e neurológico, a sua história familiar e pessoal.

O eletroencefalograma é um registo elétrico da atividade cerebral (“o ECG cerebral”). Consiste em colocar uma touca com um conjunto de elétrodos que registam a atividade elétrica do cérebro em vigília, durante o adormecer e o sono, durante a hiperventilação e a estimulação elétrica intermitente.

Pode ser necessário um exame de imagem (“a fotografia do cérebro”) como a Tomografia de Axial Computorizada (TAC) ou a Ressonância Magnética Nuclear (RMN). Em casos particulares podem ainda ser necessários outros exames. 

Como tratar?

Não há regras universais para a decisão de iniciar um tratamento. Certas formas de epilepsia podem ser tão ligeiras, com crises tão raras e breves, apenas durante o sono, com remissão espontânea pelo que o médico não inicia o tratamento. A decisão de iniciar a terapêutica requer analisar um conjunto de fatores: a idade da criança, o tipo de epilepsia, a sua causa subjacente, a história natural do síndrome epiléptico.

Na maior parte das epilepsias pediátricas só iniciamos a terapêutica após duas crises, mas mais uma vez, a decisão é individual e tomada caso a caso. Cada criança é única! É muito importante explicar aos pais que o tratamento apenas reduz a probabilidade de recorrência das crises, mas que não estamos a tratar a causa subjacente da epilepsia, seja ela genética ou estrutural.

A medicação antiepiléptica, como qualquer outra medicação, pode ter efeitos secundários, variáveis de criança para criança, pelo que é fundamental encontrar um equilíbrio entre a eficácia e os efeitos secundários, que, regra geral, surgem no início do tratamento e depois reduzem gradualmente. O que os pais notam habitualmente é a sonolência, o aumento de apetite, por vezes mais raramente dor abdominal ou vómitos ou manchas na pele.

Atualmente é possível controlar cerca de 70-80 % das epilepsias, e após um período variável de criança para criança, é possível reduzir gradualmente a medicação até a suspender. Infelizmente, algumas crianças têm uma forma de epilepsia que é resistente a sucessivas medicações, pelo que devem ser explicadas aos pais as alternativas que existem, nomeadamente a dieta cetogénica, a cirurgia da epilepsia ou o estimulador do vago. 

Desafios?

O principal desafio que a epilepsia coloca aos pais é o de assegurar que o seu filho não seja tratado de forma diferente, evitando atitudes de superproteção, promovendo a sua autonomia, proporcionando-lhe experiências de vida saudáveis, que assegurem um crescimento e desenvolvimento adequado. A natação, desde que sob supervisão de um adulto, não está contraindicada. A criança pode andar de bicicleta, como qualquer criança ou adulto, com capacete. A exposição a ecrãs de computador, consolas, televisões apenas desencadeia crises numa percentagem reduzida de epilepsias fotossensíveis e nesse caso o seu médico irá informá-lo. A epilepsia ocupa uma parte reduzida da vida do seu filho. Não deixe que ela tome conta dele! Uma criança ativa e ocupada tem menos crises.

Podem coexistir com a epilepsia outras situações, como por exemplo dificuldades específicas de aprendizagem, ansiedade, depressão, défice de atenção, perturbações do espectro do autismo. Muitas vezes são elas que definem o prognóstico, e precisam de uma orientação adequada e individualizada. É por isso que o tratamento de epilepsia pressupõe uma equipa multidisciplinar (médico, enfermeira, psicóloga, técnicos de imagem, EEG) e reuniões frequentes entre os pais, a criança, a escola.

Apesar da pandemia, é fundamental procurar ajuda médica, manter as consultas, os exames e tratamentos, para orientar esta doença crónica. A saúde das crianças com epilepsia não deve ser adiada, as equipas que acompanham esta doença retomaram a atividade, garantindo consultas, exames complementares e tratamentos com segurança.

Um artigo do médico José Paulo Monteiro, Neurologista Pediátrico na Clínica CUF Almada e no Hospital Garcia de Orta.

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