“Isto é curioso. Dois terços das direções de escolas avaliam positivamente a aplicação do regime [da educação inclusiva] e dois terços dos professores individualmente considerados, temos 1.192 respostas, ou seja 10,8% dos professores, consideram o regime globalmente negativo”, afirmou hoje o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira.

Numa conferência de imprensa em Évora, o responsável da Fenprof, acompanhado por outros dirigentes da federação e do Sindicato dos Professores da Zona Sul, apresentou a síntese de resultados deste inquérito.

O inquérito, que visou analisar no terreno a forma como está a ser implementado o novo regime jurídico de educação inclusiva, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 54/2018, foi submetido a 92 escolas e agrupamentos escolares do continente, de norte a sul, o que é “ligeiramente superior” a 10% do total (801 escolas e agrupamentos), explicou.

Segundo Mário Nogueira, “a conclusão é extraordinária”, atendendo às respostas “diametralmente opostas”, como se pode ler no estudo, da parte das direções e da parte dos professores.

“Pedimos àqueles que, estando à frente das escolas não são propriamente os que estão nas salas com as crianças”, mas “levaram as lavagens ao cérebro da parte do Ministério [da Educação] e do secretário de Estado João Costa sobre os enormes benefícios deste novo regime, e aos professores, que são aqueles que, no dia-a-dia, dentro da sala de aula, o estão a aplicar”, frisou.

O secretário-geral da Fenprof insistiu que “é curioso como, dentro da mesma escola, quem tem que mandar aplicar acha bem e quem tem que fazer e percebe as dificuldades acha mal”.

Segundo Mário Nogueira, “provavelmente” a “diferença entre a resposta” de uns e de outros é porque “os senhores diretores, ou porque não estão a aplicar mas apenas a mandar fazer ou porque se calhar fica sempre bem a quem está à frente de uma escola e é diretor agradar ao poder e o poder quer que se diga bem da coisa”, enquanto os docentes são os que “sentem as dificuldades” na sala e aulas.

Os resultados do estudo, consultados pela agência Lusa, indicam que 63% das direções das escolas “consideram que a resposta aos alunos com necessidades educativas especiais melhorou e 18,5% consideram que não melhorou”.

“Já em relação aos docentes, a opinião inverte-se, com apenas 15,6% a afirmar que a resposta melhorou e 67,8% a considerarem que não melhorou, dos quais quase metade afirma mesmo que piorou”, pode ler-se no estudo, que refere ainda que “18,5% das direções” não respondeu ou não manifestou opinião, enquanto, nos docentes, essa percentagem foi de “16,6%”.

A nível positivo, direções e docentes afirmaram que o regime de educação inclusiva permite maior sensibilização de todos para os problemas da inclusão, maior envolvimento do conjunto de professores e trabalho mais colaborativo, abrange mais alunos e faz com que a resposta não assente num modelo clínico, entre outros argumentos.

O que fez com a resposta não tivesse melhorado e, em alguns casos até a piorou, são situações como escassez de tempo para implementar o modelo e debatê-lo, carência de recursos humanos, materiais e físicos, estagnação orçamental, falta de formação, maior conflitualidade na sala de aula, aumento da burocracia, entre outras, indica o estudo.

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