O Agrupamento de Escolas de Ferreira de Castro cresceu entre bairros carenciados da freguesia de Algueirão-Mem Martins, em Sintra. Ali, muitos alunos são filhos de desempregados e os que têm a sorte de terem pais a trabalhar acabam por ficar demasiadas horas sozinhos. Invariavelmente, é quem está na escola que cuida e educa.

As escolas do agrupamento estão sobrelotadas e as instalações bastante degradadas. Os problemas económicos e sociais são uma realidade muito presente – quase 40% dos alunos têm Ação Social Escolar - e a indisciplina nas aulas é uma constante. Mas o diretor garante que os professores gostam de ali trabalhar. “É um desafio diário”, disse António Castel-Branco à Lusa.

Professores, psicólogos, assistentes sociais e restantes funcionários lutam diariamente para que os seus alunos tenham sucesso e não desistam de estudar. “O nosso principal objetivo é conseguir que aprendam. Temos de inovar na sala de aula e fazer experiências para que o ensino seja apelativo e os alunos consigam passar”, contou o diretor do agrupamento.

Por isso, assim que souberam que este ano poderiam ter mais liberdade na elaboração dos currículos, o diretor e professores desenharam um projeto com novas disciplinas e pausas letivas. Apresentaram o projeto ao Ministério da Educação que deu luz verde para avançar.

Este ano, os alunos já não terão três períodos de aulas mas sim dois semestres. Os estudantes do 7.º ano vão deixar de ter Ciências Naturais, Geografia e Físico-Química para passar a ter “Ciências da Terra”, que vai fundir as matérias daquelas três disciplinas.

A ideia partiu dos professores que desenharam as novas disciplinas. Se a experiência correr bem, no próximo ano, os alunos do 8.º ano terão “Ciências do Ambiente”, que será uma mistura de Ciências Naturais e Geografia, contou António Castel-Branco, explicando que este é um projeto em constante avaliação que pode sempre ser melhorado.

O Plano de Inovação prevê também que os alunos do 1.º, 2.º e 3.º ciclos passem a ter “Comunicação”, uma nova disciplina que durante uma hora por semana junta na mesma sala de aula as disciplinas de Português e Inglês.

No total, o projeto prevê mudanças em 28% do currículo dos alunos do 1.º ciclo, 52% do currículo do 2.º ciclo e 60% do 3.º ciclo.

A modéstia ou anos de experiência levam o diretor a vaticinar que “não vai funcionar a 100%” e que em alguns pontos poderá “ter de se regredir”. Mas Castel-Branco acredita que não será suficiente para desmotivar a sua equipa.

O agrupamento tem 204 professores, uma psicóloga, duas assistentes sociais e uma animadora sociocultural, que contam ainda com a ajuda de dez assistentes técnicas e 63 assistentes operacionais.

Esta equipa olha diariamente por mais de 2.000 alunos, dos quais quase 10% tem necessidades educativas especiais de caráter permanente.

Das 50 turmas de 2.º e 3.º ciclos, duas serão este ano de Percursos Curriculares Alternativos, ou seja, composta por alunos que já chumbaram ou que apresentam elevados riscos de abandonar a escola.

São crianças com dificuldades de aprendizagem, problemas de integração na comunidade escolar, risco de marginalização, de exclusão social ou abandono escolar. Os problemas estão identificados e o diretor promete que ali “todos contam” e, por isso, ninguém é deixado para trás.

Para motivar estas crianças e adolescentes, o diretor diz que o essencial é ter “vontade e querer”. Testemunho disso está no sucesso dos alunos nas provas finais de Português do 9.º ano: “Atingimos a média nacional”, aplaudiu o diretor de um agrupamento composto por uma comunidade escolar muito heterogénea e intercultural, com muitos imigrantes.

As escolas de Ferreira de Castro são um dos agrupamentos que aderiram ao alargamento do projeto de flexibilidade curricular que começa agora em setembro. Entre os objetivos estabelecidos pelo agrupamento de Sintra, está aumentar em 5% o sucesso académico e diminuir os chumbos em 10%.

O projeto de flexibilidade curricular começou com a atual equipa ministerial como projeto-piloto em algumas escolas do país e, depois de uma avaliação dos resultados, o Governo decidiu alargar a mais escolas dando mais autonomia para que pudessem desenhar os currículos adaptados à comunidade escolar.

Até agora as escolas tinham autonomia para mexer em 25% do currículo, mas este ano essa percentagem foi alargada.

Segundo o Ministério da Educação, cerca de 50 projetos de inovação apresentados por escolas no âmbito do alargamento da flexibilidade curricular foram já aprovados.

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