Provavelmente alguns de nós já se depararam com crianças/jovens que revelam uma enorme dificuldade em falar em contextos sociais. Possivelmente pensámos que isso se deve a timidez, vergonha ou teimosia, e que passará com o tempo.

O que muitas vezes é difícil perceber é que este comportamento pode não ser uma escolha, mas sim uma dificuldade: pode ser Mutismo Seletivo. O Mutismo Seletivo é caracterizado pela ausência de linguagem verbal em contextos em que falar é socialmente esperado (por exemplo, na escola).

Esta ausência de expressão verbal ocorre apesar de a criança ser capaz de compreender e desenvolver o discurso de forma adequada noutras situações. Uma criança com Mutismo Seletivo pode, por exemplo, não falar com professores ou colegas de escola, mas falar fluentemente em casa.

Talvez por ser pouco comum, ainda há muitos mitos associados a esta perturbação e a estas crianças, o que origina, muitas vezes, pedidos tardios de ajuda e consequente agravamento dos sintomas.

1 º Mito – estas crianças não falam porque são teimosas e escolhem não falar

Este é um mito tão enraizado que prejudica gravemente o acesso destas crianças a tratamentos eficazes. Na verdade, o mutismo começou por ser considerado uma questão de escolha. Os primeiros relatos surgem em 1877, pelo médico Adolf Kussmaul, que descreveu a existência de crianças que não falavam em determinadas situações por vontade própria. 57 anos depois, o psiquiatra suíço Moritz Tramer desenvolveu o termo “mutismo eletivo”, para expressar a convicção de que a criança elegia um momento para ficar em silêncio.

Nesta visão do problema, muitas vezes os pais são vistos como educadores pouco eficazes e ouvem comentários depreciativos como “se fosse comigo”… “isso com uma palmada passa”…, “é mal-educada”… “deviam obriga-la a falar”…

Felizmente, o conhecimento da psiquiatria e psicologia infantis tem evoluído e, em 2002, o termo “eletivo” passa a ser substituído por “seletivo”, para evitar o equívoco de se pensar que este comportamento é voluntário. Hoje sabe-se que esta dificuldade não depende da educação nem do controlo voluntário da criança. Não é uma escolha, mas sim uma manifestação de ansiedade extrema, que a criança sente em situações sociais. Na verdade, pessoas que acreditem tratar-se de uma escolha podem insistir que a criança fale, gerando ainda mais ansiedade e, consequentemente, agravando o problema.

2 º Mito – estas crianças não falam porque sofreram um trauma

Imagine a angústia em que poderão ficar os pais destas crianças, se um profissional de saúde mental lançar sobre eles o fantasma do trauma, gerando muitas vezes uma culpa tão erradamente atribuída!

Atualmente, sabe-se que o Mutismo Seletivo não tem origem em qualquer situação traumática e que a maioria das/dos crianças/jovens que desenvolvem este quadro parece ter algumas características que as predispõem ao desenvolvimento desta perturbação.

Algumas destas características são: introversão, vergonha e dificuldade em iniciar interação social, quer com pares, quer com adultos; pouca expressividade emocional (o que não quer dizer que não sintam ou não se emocionem); rigidez, ou seja, dificuldade em flexibilizar rotinas ou interpretações que fazem das situações; dificuldade na regulação da frustração (quando algo não acontece como previram, desorganizam-se e manifestam ansiedade); história familiar de ansiedade.

O Mutismo Seletivo NÃO É CONSEQUÊNCIA DE UM TRAUMA!

3 º Mito – é apenas timidez, passa com o tempo

Ao contrário dos mitos anteriores, acreditar que mutismo é apenas timidez, pode levar a uma passividade por parte dos adultos que, sem querer, agrava o problema.

Sem dúvida que há muitas/muitos crianças/jovens tímidas/os que, num primeiro contacto, não falarão ou estarão mais contidos na interação social, no entanto, essa timidez é transitória e não condiciona de forma persistente a interação social. No Mutismo Seletivo, esta “timidez” é persistente. Persiste porque… não é uma verdadeira timidez!

Persiste porque o que realmente gera o silêncio na criança é a ansiedade que sente em falar em determinados contextos. É como se paralisasse por medo. Muitas crianças relatam que têm vontade de falar mas simplesmente não conseguem. Assumir que estas crianças são tímidas e que o tempo resolverá o silêncio é aumentar a probabilidade de agravar o sofrimento da criança…

Por outro lado, o Mutismo Seletivo pode acentuar as dificuldades nas competências sociais, porque impede que a criança as treine de uma forma eficaz. Se, consequentemente, a criança se sentir pouco competente socialmente, maior tenderá a ser o seu isolamento.

Quanto mais cedo começar a terapia, melhor será a evolução da criança.

4 º Mito – deve ser um atraso na linguagem

Muitos pais relatam que as escolas e os profissionais recomendam a terapia da fala para crianças com Mutismo Seletivo. No entanto, mais de 90% das crianças com Mutismo Seletivo não revela qualquer tipo de dificuldade nessa área (sejam problemas articulatórios ou outros). Não obstante, caso existam, as dificuldades na fala podem ampliar a manifestação do Mutismo Seletivo, dada a consciência do impacto social que aquelas dificuldades podem ter nos outros. Dito de outra forma, os problemas de linguagem podem intensificar, mas não desencadear, por si só, um quadro de Mutismo Seletivo. Quando estas duas dificuldades coexistem, é fundamental que a terapia da fala e a psicoterapia atuem em conjunto.

O Mutismo Seletivo é uma perturbação de ansiedade extraordinariamente importante, pelas repercussões que pode ter na vida da criança e da família, ao condicionar dimensões de vida tão fundamentais quanto a escolarização e a socialização.

Quando se confrontar novamente com uma criança com esta dificuldade, pense que há um enorme sofrimento escondido naquele silêncio e isso fará toda a diferença! “Há um antes e um depois, quando percebemos que a criança QUER falar mas NÃO CONSEGUE!”

Texto:  Maria João Silva - Psicóloga Clínica & Psicoterapeuta PIN (Progresso Infantil)

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