O que é o hemangioma infantil?

O hemangioma infantil ou hemangioma da infância é o tumor benigno mais frequente da criança; resulta da proliferaçäo acelerada de células derivadas de pequenos vasos sanguíneos na pele e, por vezes, também em órgãos internos como o fígado, intestino ou laringe. Estima-se que afecte 1 em cada 15 lactentes, sendo mais frequente nas meninas, em bebés prematuros, recém-nascidos com baixo peso e filhos de mães que se submeteram a exames invasivos durante a gravidez.

Surge poucos dias a semanas após o nascimento, manifestando-se como uma mancha avermelhada ou azulada semelhante a um hematoma, que cresce muito rapidamente ao longo das semanas seguintes, tornando-se elevada sobre a pele. O diâmetro pode variar de poucos milímetros a vários centímetros (por exemplo, a extensão total de um membro). Dependendo da profundidade do tumor, a cor pode ser vermelho vivo como a de um morango ou framboesa (hemangiomas superficiais) ou cor da pele a azulado (hemangiomas profundos) . Este desenvolvimento rápido é motivo frequente de preocupação para os pais. Felizmente, após período variável de algumas semanas a meses, a proliferação estabiliza e segue-se uma fase de evolução muito mais lenta que culmina na regressão quase completa da lesão, deixando resíduo mínimo na grande maioria dos casos.

O que causa os hemangiomas?

Durante séculos, lesões vasculares nos recém-nascidos eram designadas nevus maternus, reflectindo a crença popular da responsabilidade da mãe nas lesões dos seu filhos. Acreditava-se que emoções e desejos maternos poderiam imprimir uma “marca” nos recém-nascidos e, dependendo da cultura e tradição de diferentes regiões, as mães eram culpadas por ingerir ou não determinados frutos vermelhos ou outros alimentos durante a gravidez, que causavam lesões adjetivadas por isso como morango ou framboesa.  Apesar de a patogénese dos hemangiomas não estar completamente esclarecida, sabe-se hoje que essas crenças não têm qualquer fundamento científico e que os hemangiomas se desenvolvem provavelmente como resposta a uma redução local, súbita e transitória, dos níveis de oxigénio na placenta, imprevisível e independente de qualquer acção materna. 

Como se diagnostica? Como posso ter a certeza de que é um hemangioma?

A idade de aparecimento, a evolução clínica e o aspecto dos hemangiomas são de tal forma característicos que a grande maioria é diagnosticada clinicamente, sem necessidade de biópsia cutânea ou exames de imagem (ecografia, doppler, ressonância magnética) para confirmação. No entanto, outros tumores ou malformações vasculares do recém-nascido podem ser difíceis de diferenciar do hemangioma infantil nos primeiros meses de vida.

Hemangioma infantil: o sinal de morango desaparece?
Hemangioma infantil créditos: Direitos Reservados

São lesões mais raras e potencialmente muito mais graves, sendo que um diagnóstico correcto precoce é fundamental para seguimento e tratamento adequados. É, desta forma, importante referenciar para um dermatologista pediátrico, pediatra ou cirurgião vascular com experiência em lesões vasculares da infância, nas situações menos claras ou cuja evolução clínica não seja a esperada.

Em que situações me devo preocupar? Pode ter complicações?

Na maioria dos casos, os hemangiomas infantis regridem espontaneamente sem sequelas ou com sequelas mínimas, geralmente até aos 5 anos de vida (em algumas situações mais tarde) e não é necessário tratar activamente. Por vezes, é difícil prever a magnitude da proliferação, nomeadamente qual o tamanho final e se o crescimento é de tal forma rápido que conduz à ulceração (ferida) da parte superficial do hemangioma. Por essa razão, deve haver seguimento clínico frequente nas primeiras semanas a meses de vida, de forma a poder intervir se e quando necessário.

Os hemangiomas infantis podem estar associados a complicações mais ou menos graves, dependendo da dimensão, localização e número de lesões:

  • Dimensão superior a 5 cm – maior risco de ulceração, cicatriz residual com impacto cosmético significativo, insuficiência cardíaca ou alterações tiroideias
  • Hemangiomas localizados nos lábios, área da fralda ou pregas cutâneas – risco de ulceração com consequente dor, infecção, hemorragia
  • Hemangiomas na região ocular – podem perturbar o eixo visual ou provocar pressão sobre os olho com sequelas definitivas sobre a visão
  • Hemangiomas no nariz – conduzem a deformidade nasal permanente (Nariz de Cyrano)
  • Hemangiomas da chamada “área da barba” (queixo, pescoço) – associados a hemangiomas na laringe que podem conduzir a asfixia
  • Hemangiomas de grandes dimensões ou segmentares da cabeça ou pescoço – podem ser sinal de síndrome PHACES, que envolve malformações cardíacas, de vasos sanguíneos importantes, cerebrais ou oculares
  • Hemangiomas de grandes dimensões e/ou segmentares na região lombar ou área da fralda – associado a malformações urogenitais ou da medula espinhal 

É preciso tratar? Como se trata?

Em todos os casos anteriormente descritos e noutros casos com impacto funcional, há indicação formal para tratamento oral com propranolol, um medicamento usado na hipertensão arterial e insuficiência cardíaca que se constatou, em 2008, ser extremamente eficaz no tratamento do hemangioma infantil. A eficácia é tanto maior quanto mais precoce for o início do tratamento, ou seja, na fase de proliferação activa (5 semanas a 4 meses de vida). Só deverá ser iniciado após exame clínico completo e exclusão de contra-indicaçöes e a(s) primeira(s) dose(s) deve ser feita sob vigilância clínica (tensão arterial, pulso, níveis de açúcar no sangue). Em casos seleccionados, a administração inicial deverá ser feita em internamento hospitalar.

Em alguns casos de hemangiomas superficiais, pequenos e sem impacto funcional, pode ser feito tratamento com medicamento da família do propranolol de aplicação tópica. No caso de sequelas permanentes (cicatrizes desfigurantes, vasos sanguíneos dilatados residuais), podem ser feitos tratamentos com laser ou remoçäo cirúrgica.

Em resumo…

O hemangioma infantil é o tumor benigno mais comum da infância, surge nos primeiros dias a semanas de vida e tem uma evolução característica, com crescimento rápido e estabilização no primeiro ano e involução espontânea mais lenta, não requerendo tratamento na maior parte dos casos. Deve ser sempre avaliado por especialista com experiência neste tipo de lesões, de forma a definir a melhor conduta e prevenir possíveis complicações.

Um artigo da médica Carolina Gouveia, especialista em dermatologia pediátrica no Hospital CUF Infante Santo e no Hospital CUF Cascais.

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