Brincar durante a infância tem um enorme impacto na personalidade e nas ações dos indivíduos na fase adulta da vida. Stuart Brown, psiquiatra norte-americano, descobriu-o quando investigou o caso do massacre na Universidade do Texas, em 1966. Entrevistou o assassino Charles Whitman e verificou que nunca tinha brincado em criança. Atribuiu o crime a esse fator. «A ausência de brincadeira e uma supressão progressiva de brincadeiras normais para o desenvolvimento levaram-no a ser mais vulnerável à tragédia que perpetrou», explica o especialista.

Ao longo das décadas, foi arrecadando financiamentos para investigar a fundo este tema até que, em 2006, fundou o National Institute for Play. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos, cujo objetivo é perceber o papel que as brincadeiras têm ao nível biológico e sociológico. Nos últimos ano, os estudos levados a cabo têm permitido constatar que a correlação entre uma coisa e outra não só é real como tem raízes desde a mais tenra idade. E tudo começa com uma troca de olhares!

Quando o bebé tem o seu primeiro sorriso social, a mãe reage espontaneamente com uma explosão de alegria. Sorri, emite sons vários e balbucia. E o bebé imita. Stuart Brown garante que este cenário precoce de brincadeira ativa o hemisfério direito do cérebro de cada um, área responsável por regular o prazer, a criatividade, os sentimentos, a intuição e a imaginação. O psiquiatra norte-americano defende que, para o ser humano, as brincadeiras «mais complexas se constroem nesta base». Stuart Brown ressalva, no entanto, que apenas recentemente se começou a conhecer a fisiologia deste momento.

Brincar faz alguma coisa pelo cérebro?

Não existe nada que estimule o cérebro como brincar, continua o especialista. Através de electroencefalogramas e ressonâncias magnéticas, Stuart Brown demonstrou que as diversas formas de brincar ajudam a desenvolver a memória, o pensamento abstrato e as áreas do cérebro que regulam os movimentos e as emoções (o cerebelo e o lobo frontal, respetivamente). Foi também graças a estes métodos laboratoriais, e ao estudo do cérebro de Charles Whitman, que Stuart Brown identificou a correlação entre a privação de brincadeira e o subdesenvolvimento do cérebro.

Interpretar sinais

Segundo o psiquiatra, as pessoas de todas as faixas etárias devem brincar, seja individualmente ou com outros indivíduos. «Nós somos a única espécie que foi concebida para brincar durante toda a vida», declara Stuart Brown. Brincar não só enriquece a nossa vida, como, graças à nossa curiosidade insaciável e espírito explorador, também permite melhorar as nossas capacidades e ajuda-nos a estabelecer prioridades. E devemos brincar porque nos apetece. As brincadeiras não têm um propósito particular e, do ponto de vista do especialista, «isso é excelente, porque se o seu propósito é mais importante do que o ato de o fazer, provavelmente não é brincadeira».

Existem múltiplas maneiras de brincar, mas só partimos para elas graças ao sistema de sinais da brincadeira composto por vocalizações, expressões, posição de corpo e gestos. Para Stuart Brown, «a base da confiança humana é estabelecida por meio de sinais de brincadeira». Todavia, lamenta, «começamos a perder esses sinais em adultos». Por isso, se tem alguém no seu círculo de amigos que é um pouco mais infantil aproveite. Trata-se de um fenómeno chamado neotenia, que não é mais do que «a retenção de qualidades imaturas na idade adulta».

Nas palavras do especialista, são as pessoas «mais flexíveis, as mais plásticas de todas as criaturas e, por isso, as mais lúdicas». A boa notícia é que todos temos um historial de brincadeira que é único e possui «uma força transformadora». Stuart Brown diz que as brincadeiras de infância até levam algumas pessoas a mudar de emprego quando se recordam daquilo que as fazia verdadeiramente felizes em pequenas. Basta identificarem o momento do passado em que sentiram maior alegria a brincar, fosse com um brinquedo em especial, numa festa de anos ou numas férias em família.

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Os tipos de brincadeiras que todas as crianças devem ter

No livro «Play: How it Shapes the Brain, Opens the Imagination and Invigorates the Soul», publicado em 2010, Stuart Brown nomeia os tipos de brincadeiras que são essenciais na infância e que podem ter aplicação na vida adulta. Estas são as que o especialista distingue:

- Corporais

Stuart Brown classifica esta forma de brincar como «um desejo espontâneo de nos libertarmos da gravidade». E, numa conferência sobre o assunto, deixou uma dica prática. «Se tiverem um dia mau, saltem para cima e para baixo, abanem-se e vão-se sentir melhor», assegura.

- Com objetos

A manipulação de objetos «é uma parte fundamental de ser brincalhão», esclarece. De acordo com o psiquiatra, as pessoas que não brincaram com as mãos na infância não têm tanta facilidade em solucionar problemas.

- Sociais

Embora sejam um subproduto da brincadeira, para haver integração na sociedade tanto as crianças, como os adultos têm de participar em jogos sociais.

- De recreio

Stuart Brown comenta que «no infantário, os miúdos deviam mergulhar, bater, assobiar, gritar, ser caóticos». Estas atividades contribuem para o desenvolvimento cognitivo das crianças, pois aprendem a regular as suas reações emocionais e físicas aos estímulos.

- De espetadores

São brincadeiras rituais, associadas a momentos como a equipa de futebol que apoia ganhar o campeonato. Daí as enchentes na Rotunda do Marquês de Pombal em Lisboa e na Avenida dos Aliados no Porto.

- Com a imaginação

As crianças devem ser capazes de construir narrativas com base na sua história pessoal e na sua imaginação. É uma habilidade fundamental, que deve ser trabalhada na pré-escola.

Texto: Filipa Basílio da Silva

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