Todos nós crescemos rodeados de informação e de condutas sociais referentes ao tipo de comportamento que é adequado à comunidade onde nos inserimos. É através das experiências e contactos que temos, com essa mesma comunidade que vamos construindo a nossa identidade social.

A nossa socialização decorre através de processos de observação e imitação dos gestos e atitudes daqueles que interagem connosco, quer de forma direta quer de modo indireto, acabando por “filtrar” quais os comportamentos aceitáveis e quais os comportamentos que não devemos reproduzir.

Deste modo a família surge numa primeira instância, como o nosso primeiro pilar. É neste meio mais íntimo que a criança apreende e aprende as competências básicas necessárias para futuramente estabelecer novas relações com elementos exteriores, como por exemplo os vizinhos e colegas.

E neste sentido, a escola surge como o primeiro meio externo à criança, onde esta pode praticar as competências aprendidas e ser confrontada com novas maneiras de ser e diferentes competências.

Os pares, que possuem as mesmas expetativas do jovem, os mesmos ideais de vida e o mesmo poder social, são também agentes de socialização. As relações construídas entre pares potenciam a formação de um grupo “fechado” ao qual o jovem pertence e que por sua vez lhe permite explorar o mundo de um modo diferente, do até então conhecido. Apesar da gestão deste processo nem sempre se revelar fácil, conseguimos encontrar estratégias que nos ajudam a superar as dificuldades ao longo do caminho.

Quando analisamos este processo em populações com necessidades especiais, verificamos que o modo de apreensão da informação pode ser diferente.

As dificuldades podem incidir na adequação das reações aos contextos onde se encontram inseridos na gestão do seu comportamento e emoções. Partindo deste grupo alargado de dificuldades, consideramos de extrema importância a intervenção por parte de um técnico especializado no contexto real em que a criança se insere, nomeadamente no contexto escolar. A mediação deste processo por parte de um técnico transmite à criança a confiança e segurança necessárias para iniciar e manter interações e permite à criança uma prática efetiva das suas competências pessoais e sociais.

O ambiente Escola é um espaço riquíssimo para a experimentação e consolidação do Eu Social, uma vez que apresenta uma elevada diversidade de estímulos, pessoas e atividades. Neste contexto surgem inúmeras oportunidades para a criança ajustar e reajustar o seu comportamento face às exigências que lhe são solicitadas. Possibilita, igualmente, a toda a comunidade, e principalmente às outras crianças, novas aprendizagens que contribuem para o desenvolvimento de valores sociais indispensáveis, tais como o respeito pelo outro, a tolerância, a solidariedade, e a entreajuda.

À semelhança de todos nós, também a criança com necessidades especiais precisa de se sentir parte de um todo e de ter a sua comunidade como espaço de referência e aprendizagem.

No que compete à metodologia a sua aplicabilidade, a intervenção técnica especializada deve resultar numa intervenção em grupo e em contexto natural, mesmo que inicialmente possa ocorrer em ambiente “controlado”. Este tipo de intervenção deve ter como um dos seus principais objetivos a regulação de encontros interpessoais, onde seja possível o desempenho e alternância adequados, do papel de emissor e recetor, o que leva ao desenvolvimento de um comportamento socialmente competente.

Deste modo, este tipo de intervenção deve incluir explicitamente estratégias de generalização de competências adquiridas no contexto relacional do indivíduo, de modo a que este possa transpor as competências aprendidas para os contextos do seu dia-a-dia, como por exemplo, uma criança iniciar uma conversação com um colega, sobre a possibilidade de brincarem juntos e trocarem opiniões sobre jogos que conhecem, no recreio da escola. O trabalho desenvolvido com estas crianças parte muito de “fora para dentro”, como se tivessem que memorizar e praticar mecanicamente, fazendo com que a transmissão de conhecimentos se processe através de um ensino direto e objetivo das competências que se pretendem adquirir.

O comportamento social é adquirido como qualquer outro comportamento motor, logo os processos de aprendizagem são os mesmos, o que leva a que a metodologia utilizada passe por ensinar a observar, ensinar as componentes críticas (perceber quais são, o que se tem de fazer e como fazer) e treinar para melhorar o desempenho, de modo a que a criança tenha a menor probabilidade de erro e de esforço desnecessário.

A intervenção em grupo representa uma das melhores oportunidades para as crianças, através de uma participação progressiva, observarem outras crianças e se deixarem observar pelos pares, tornando-se assim responsáveis na resolução das suas aprendizagens.

Partindo desta reflexão, e da ideia de que a vivência da criança em experiências autênticas de ações coletivas fornece uma boa capacidade para ultrapassar os problemas e conflitos que lhe surjam, o principal objetivo para este tipo de intervenção consiste na promoção das capacidades de iniciativa, descoberta, criatividade, responsabilidade, e comunicação como estrutura inicial para uma dinâmica pedagógica que se estabelece na interação com as crianças, em co-gestão com os seus pares e adultos acedendo assim ao reconhecimento de si.

Um dos exemplos de intervenção especializada que potencia a aquisição de competências sociais, em crianças com necessidades especiais, é a intervenção psicomotora.

Este tipo de intervenção tem uma grande importância no desenvolvimento de capacidades psicomotoras e sociais, uma vez que possibilita à criança um ambiente seguro e confortável onde pode brincar, aprender e praticar as competências trabalhadas. Permite também, à criança a vivência de novos modos de sentir e pensar nas situações, devolvendo a sua confiança e autoestima, assimilando que é capaz e, deste modo, permitindo-lhe a interiorização das situações vividas, como “bagagem corporal /sensorial” que lhe permitirá uma melhor integração e adaptação ao meio envolvente.

A intervenção psicomotora possibilita toda esta aprendizagem através de uma terapia de mediação corporal, que permite à criança a atribuição de significado às suas vivências, e uma melhor integração das competências aprendidas.

Em conclusão, podemos inferir que a exposição a diferentes contextos sociais e a diferentes agentes sociais é fundamental para a aquisição de competências indispensáveis à vida em sociedade.  Ao intervirmos nesta área, de forma especializada, potenciamos a qualidade das experiências que a criança poderá vivenciar, o que em última instância irá permitir um nível mais elevado de autonomia e de participação na sua comunidade.

Este trabalho acaba por ter um enfoque, ainda mais, pertinente no desenvolvimento de crianças que apresentam dificuldades de interação com o outro e de assertividade, mas também para todas aquelas em que a presença dos pares com ideias e conceções de vida diferentes, as podem ajudar a (re) descobrir e a (re) construir o seu próprio “eu” e distanciá-lo do outro, mantendo, no entanto, uma adequada relação consigo próprio e com mundo exterior.

“A história nos julgará pela diferença que fizermos na vida de todos os dias das crianças.” (Nelson Mandela)

Nídia Amorim - Técnica de Educação Especial e Reabilitação Psicomotora – nidia.amorim@pin.com.pt

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