David não se preocupou com rótulo de ser filho de um dos maiores artistas românticos do nosso país, Tony Carreira, e construiu a sua própria identidade. Define-se como um artista pop e diz saber bem o que quer dentro da vida artística.

A dedicação e o empenho que depositou no início da sua carreira, ainda na série ‘Morangos com Açúcar’, levaram-nos ao sucesso e a conseguir grandes feitos, um deles: aprender a dançar. Ao assédio das fãs responde com humor e ao restante, quase sempre, responde a cantar.

Tal como já referiu em várias entrevistas, não fazia parte dos seus planos seguir a carreira musical. Como é que de repente a música passa a ser a sua vida?

Passa a ser a minha vida quando lanço o meu primeiro álbum francês, o terceiro no total, e sou nomeado na altura para revelação do ano nos NRJ Music Awards em França. Aí eu percebo que posso fazer disto o resto da minha vida. Passo a ver a musica não como um hobby, mas como uma profissão. Acho que tudo muda quando percebes que consegues viver da tua paixão.

Após sete anos de carreira, qual é o balanço que faz do seu percurso até aqui?

Fiz sete álbuns e consegui muita coisa que nunca pensei que pudesse vir a fazer, a nível de participações, de pisar alguns palcos, de conhecer algumas pessoas ligadas à musica, tanto cá como no exterior. Trabalhei com o Snoop Dogg, com o Justin Timberlake, com o Boss AC, que quando eu era mais novo para mim era uma referência no hip hop português. Depois, conhecer muitos outros artistas com quem acabo por trabalhar às vezes em estúdio. Poder trabalhar tanto cá como nos estrangeiro, ter hipótese de fazer um concerto a 360º no Campo Pequeno e divertir-me todos os dias a fazer aquilo que eu gosto.

Fiz a minha musica, fiz aquilo que eu gosto de ouvir e aquilo que eu gosto de cantar e a minha preocupação sempre foi sobretudo essa, nunca foi afastar-me de alguém ou aproximar-me de outras pessoas.O David rapidamente deixou de ser o filho do Tony Carreira para se afirmar e passar a ser conhecido como o ‘David Carreira’. Qual foi o segredo para essa diferenciação tão rápida?

Nunca pensei nisso. A forma mais fácil de te diferenciares é não pensares nessas coisas e fazeres o teu caminho, fazeres a tua música, acho que é isso. Portanto, nunca foi propriamente uma coisa pensada. Fiz a minha musica, fiz aquilo que eu gosto de ouvir e aquilo que eu gosto de cantar e a minha preocupação sempre foi sobretudo essa, nunca foi afastar-me de alguém ou aproximar-me de outras pessoas.

Apesar de serem estilos muito distintos, o facto do seu pai e do seu irmão serem músicos influência a sua carreira e a sua música?

Não. Os únicos momentos em que estou em família com o meu pai ou com o meu irmão nós tentamos não falar de música. Portanto, penso que não interfere nem muda grande coisa.

Como é que o David se define enquanto artista?

Pop, um artista pop basicamente. Eu gosto de ouvir bastante hip hop, gosto de ouvir R&B, gosto de ouvir tudo. Mas aquilo que eu faço é mais pop. De vez enquanto com ondas mais trap, outras vezes com ondas mais 100% pop e depois ainda há ondas mais eletrónicas ao mesmo tempo.

Na altura, quando eu comecei, não havia um cantor português que dançasse em palco.A dança está sempre muito presente em algumas das suas músicas, nos seus concertos e nos videoclipes também. A dança também é uma paixão para si?

Eu não dançava nada, tinha dois pés esquerdos graves [risos]. Comecei inicialmente pelos ‘Morangos com Açúcar’ e como era o género de um musical, que eu odeio, mas fiz porque para mim no início era uma experiência. Nem era uma rampa de lançamento, eu nem sequer estava a pensar nisso, era uma experiência e podia conhecer miúdas giras [risos]. Tens 18 anos, dás valor aos estudos, mas não tens propriamente vontade de estudar, tens vontade de fazer um ano a curtir e a jogar futebol, então vamos para os ‘Morangos’. Depois lesionei-me, então foi só 'Morangos', e aí já tinha de cantar e tinha de dançar ao mesmo tempo.

Tive de aprender a dançar. No início, os planos que eles faziam nos primeiros episódios de dança eram fechados. A cara estava ali a curtir e o resto corpo completamente dessincronizado. Tive muitas aulas de dança, muitas mesmo. E como eu sou sempre muito casmurro nas coisas e quando quero uma coisa é até ao fim, fui sempre tendo aulas. Chego ao final da série e ainda não dançava nada, então decidi continuar e depois nos meus videoclipes quanto mais aulas fazia mais colocava dança. Percebi que me divertia em cima do palco a dançar e na altura, quando eu comecei, não havia um cantor português que dançasse em palco. Tinhas muitos estrangeiros, o Bieber já existia, o Usher fazia aquilo há anos, Chris Brown, Justin Timberlake, mas em Portugal não tinhas um. Dança era mais as danças dos pimbas, as bailarinas lá atrás, mas não tinhas alguém a dançar com os bailarinos numa onda mais pop/hip hop e sempre foi para onde eu quis ir.

Eu devo muito do meu início à TVI e àquilo que fiz lá, mas eu percebi que queria faze rum projeto meu e que era pela música que o conseguia fazer.

Hoje em dia, já é um bom dançarino?

Hoje em dia já me desenrasco um bocadinho mais, hoje em dia já podia fazer um plano completo [risos]. Mas passei mal, para alguém que não tem a dança inicialmente no corpo é difícil. Eu não sou uma pessoa de improvisos, gosto de trabalhos preparados, muitos ensaios com os bailarinos, é tudo feito com muito trabalho e no canto também. Tive muitas aulas de canto quando estava nos ‘Morangos’.

Com o sucesso no mundo musical, a carreira de ator ficou para segundo plano?

Eu devo muito do meu início à TVI e àquilo que fiz lá, mas eu percebi que queria faze rum projeto meu e que era pela música que o conseguia fazer. Coloquei a representação de lado, mas se aparecerem alguns convites como têm aparecido, de vez enquanto, para participações especiais, eu vou fazendo.

Fico contente quando vejo público feminino em frente a palco, é sempre agradável [risos]Além dos temas mais mexidos e com muita dança. O David tem muitos temas românticos. Acha que é por isso que o seu público é maioritariamente feminino?

Sim, apesar de ter muito público masculino. Alias, tenho cada vez mais. O público de qualquer cantor pop, é sempre maioritariamente feminino. Há mais mulheres no mundo, portanto... [risos]. Mas ao mesmo tempo vejo cada vez mais homens também. Eu costumo dizer: se me queres conhecer tens de ouvir as minhas músicas, é a melhor forma. Como fui eu que escrevi a maior parte das letras e estou sempre dentro do processo criativo de cada musica, há muito de mim em cada uma delas. E tanto há o lado mais ‘love’ como há o lado mais ‘dark’, mais hip hop, e isso vai buscar outro tipo de público. Mas fico contente quando vejo público feminino em frente a palco, é sempre agradável [risos].

O facto de grande parte do seu público ser feminino faz com que tenha de lidar com o assédio das fãs, principalmente nas redes sociais.

Sim, é engraçado. Publiquei hoje uma foto sem camisola, vou ver os comentários no Instagram. “Sangue de cordeiro”, não sei o que quererá dizer. “Que pedaço de mau caminho” [risos]. Sim, é engraçado. Hoje em dia através das redes sociais é mais fácil, é mais fácil se és solteiro começar a namorar, é muito mais fácil conheceres pessoas. Mas eu não leio muito, não vejo muito estas coisas.

E nos concertos, não se sente mais?

Sentes um bocadinho, mas eu lido bem com isso. Quem me conhece sabe que eu no fim de cada concerto faço sessões de autógrafos com os fãs, faço varias vezes iniciativas para aproximar os fãs da minha música, daquilo que eu faço, de mim. Tens artistas que marcam barreiras entre eles e o público, eu acho que quanto mais próximo tiveres das pessoas que te acompanham a relação é melhor. Consegues perceber melhor o que é que eles gostam na tua música e a tua carreira evolui melhor.

Eu falo fluentemente em francês, mas quando quero escrever sai-me em português

Além de Portugal, a sua música também é um sucesso em França. Como é que surge esta carreira internacional?

Surge inicialmente porque havia alguns singles meus, nomeadamente um single que eu cantei em inglês, no meu primeiro álbum, que anda a passar no canal MCM em frança, ainda antes de eu editar alguma coisa em França. O DJ Diogo Miranda conhecia os programadores desse canal e apresentou-me, conheci-os e ele propuseram-me ser os meus agentes em frança para fazer um projeto em francês. Como eu nasci em França e falo fluentemente francês, aceitei. Gravei cinco músicas na altura, apresentámos a várias editoras e todas queriam assinar o álbum. Na altura escolhia a Warner e assinei contrato com eles. Entretanto, já lancei dois álbuns e estou agora a preparar o terceiro, mas desta vez estou a tentar juntas as duas carreiras ao mesmo tempo.

É mais fácil cantar em português ou em francês?

Em português, porque eu escrevo em português e em francês ainda não escrevo. Tens de passar por certas coisas para conseguir falar delas e tu passas por mais coisas na adolescência do que na infância, e como eu só fiquei até ao 10 anos em França não apanhei vocabulário suficiente. Eu falo fluentemente em francês, mas quando quero escrever sai-me em português, então acho que é por isso.

As músicas mais românticas, das quais já falamos, são o espelho das coisas pelas quais já passou na sua vida pessoal?

Sim, todas são. As mais românticas, nas menos românticas, nas mais safadas, nas menos safadas [risos]. Eu costumo achar que sou um bocado bipolar, mas acho que todos somos. Todos temos várias facetas. Depois depende, há músicas muito mais pessoais e outras um bocadinho menos. Há musicas às vezes que estás a escrever só na ‘vibe’ do momento. Outras vezes, há musicas que tu prepararas tipo: apetece-me escrever sobre isto sozinho, vais escrever um poema nas tuas notas e quando vais a estúdio já tens várias ideias das coisas de que gostavas de falar e que te apetece dizer. Essas normalmente são as músicas mais pessoais.

É mais fácil expressar-se através da música?

Sim, porque eu gosto. Eu sempre fui mais virado para as letras do que para as melodias e quando estás na fase de criação da letra e tudo funciona para mim é um divertimento, divirto-me a fazer isso. Portanto, não faço propriamente a pensar que tem de correr bem ou nas visualizações, normalmente, isso acontece depois. Quando estás em estúdio fazes porque gostas.

Estás tão cansado, estás tão habituado a estar ali em cima do palco, que as poucas horas que não estás em cima do palco estás a dormir, estás em viagem ou estás nos autógrafos. Portanto, já não sentes stresses.

Já falou bastante sobre o trabalho em estúdio, mas e o palco: ainda se lembra da primeira vez que pisou um palco?

Lembro-me, foi em Santarém e correu muito mal, foi péssimo. A segunda vez foi na Suíça.

Há artistas que dizem que pisar um palco causa sempre um grande nervosismo, quase como se fosse sempre a primeira vez. Também partilha dessa opinião?

Depende, depende dos artistas. Depende do palco, depende de muita coisa. Quando estás numa rotina de digressão com muitos concertos seguidos, como têm sido os meus três últimos anos, quando estás no sexto concerto seguido já não sentes nada. Ali é: ponham-me em cima do palco e vamos a isto. Estás tão cansado, estás tão habituado a estar ali em cima do palco, que as poucas horas que não estás em cima do palco estás a dormir, estás em viagem ou estás nos autógrafos. Portanto, já não sentes stresses. Eu sinto mais stresse quando estou mais afastado do palco durante algum tempo, porque estou sem estúdio ou porque fiz uma pausazinha. Quando vais fazer um concerto 360º, que preparaste durante seis meses, ou vais apresentar novos temas, aí obviamente ficas mais ansioso.

Este tema foi feito para aí em cinco horas.Que sonhos tem ainda por realizar no mundo da música?

Muita coisa... Cada vez mais aproximar a minha carreira em Portugal da minha carreira em França. Há muitos palcos que ainda não fiz cá e festivais que ainda quero fazer no futuro. Gostava de estar no Altice Arena, por exemplo. A nível de participações há muitas que gostaria de fazer, por exemplo no próximo álbum já.

Relativamente a esse próximo álbum de que fala, foi lançado recentemente um dos singles que irá integrá-lo - ‘És Só Tu’. Como é que surge a inspiração para este tema?

Este tema foi feito para aí em cinco horas. Estava em ring camp, que é basicamente quando tu estás num estúdio durante uma semana e tens artistas, compositores e produtores, que estão todos a trabalhar para um álbum, neste caso era para o meu próximo álbum, e a ideia é perceber quem faz a melhor musica no final do dia. Somos divididos em ‘grupos’ e cada ‘grupo’ faz as suas músicas para no final do dia mostramos e escolhermos o tema do dia. Esta musica foi daquelas que, começamos à guitarra e saiu muito rápido. Estava eu o kasha [Francisco Maria Pereira] dos D.A.M.A. e o Diogo Piçarra, começámos a fazer umas brincadeiras e de repente há um que diz: "agora és só tu", outro diz: "eu aqui tu és”, e alguém completa: “olhando o mesmo céu”.

Esta música é dos singles mais rápidos que eu já fiz. Ao invés, o vedeoclipe foi uma dor de cabeçaÉ trabalho de equipa. Esta música foi muita rápida, tenho filmagens do início em que se vê que em quatro cinco horas tínhamos a música feita e passámos para outra.

Nós fazemos uma ideia de um minuto e meio e depois o que eu faço, sozinho em casa ou em estúdio, é começar a pensar melhor na ideia e a refazer as letras. Penso que gostava de falar mais disto, então vamos por aqui: “Há três dias que foste embora, abro o whatsApp a toda a hora” [canta], aproximar coisas mais pessoas minhas.

E como é que surge a parceria com a Inês Herédia, que canta contigo este tema?

Inicialmente, a música era para ser a solo, Tinha trabalhado com a Inês numa novela da SIC e tínhamos falado que íamos fazer uma música juntos um dia. Eu lembro-me que estava em estúdio a ouvir a música e pensei que podia ser a ideal para ela, que ela podia trazer uma cena diferente à música trazer a onda dela, a forma dela cantar. Chamei-a e ela veio a estúdio, eu sozinho no PC e ela a gravar ao lado. Corta e coze, juntei as nossas duas vozes e foi bué rápido. Esta música é dos singles mais rápidos que eu já fiz. Ao invés, o vedeoclipe foi uma dor de cabeça, queríamos fazer um vídeo de verão e estava a chover todos os dias, foi muito complicado, mas a criação da música foi muito fácil.

Tínhamos feito um casting para uma pessoa ser a protagonista do vídeo, mas dois dias antes de começarmos a gravar ela ficou indisponívelE também foi muito rápido o sucesso que ela alcançou, em poucas semanas conseguiu mais de um milhão de visualizações no Youtube.

Pronto... eu já estava no videoclipe a pensar: se isto está a correr mal assim, vamos ver quando sair. Mas, graças a Deus, está a correr muito bem. É capaz de estar no top 3 dos meus singles que melhor correu no lançamento. Agora, nos próximos concertos a ideia é tocá-la para cantar com a malta e estou ansioso para ver como é que vão reagir.

Os seus videoclipes dão sempre muito que falar, muito por culpas das ‘musas’ que são escolhidas para protagonizar os temas. Como é que são escolhidas? É o David que escolhe?

Sempre [risos]. Porque normalmente sou sempre eu que faço o guião. Acho que todos os guiões de todos os meus vídeos até agora sou que troco ideias com pessoas e vamos criando. Quando estou a criar o guião já tenho mais ou menos ideia do perfil de alguém que podia funcionar com a história do vídeo. Neste caso, tal como eu já contei várias vezes, tínhamos feito um casting para uma pessoa ser a protagonista do vídeo, mas dois dias antes de começarmos a gravar ela ficou indisponível porque está numa novela. A Ângela Costa [protagonista do videoclipe de ‘És Só Tu] acabou por ser o plano B que tivemos de arranjar em dois dias, mas que acabou por ser melhor do que qualquer pessoa podia achar. Ela tem um ar muito ‘cute’ e no vídeo era importante passar a imagem de um casal comum e que ela tivesse esse ar fofinho.

Há sempre pessoas com que eu gostaria de trabalhar, o Drake por exemplo, o The Weeknd...

Durante esta conversa foi possível perceber que o David está sempre por dentro dos assuntos relacionados com a sua carreira. Faz questão que seja assim?

Já fiz mais, cada vez menos. Eu não trato de tudo, estou é presente em todas as fases. Acho que é porque eu sei onde é que eu quero ir a nível de projeto, uma coisa é quando tu tens um artista que não sabe bem aquilo que quer fazer, não tem um estilo de música definido, mas quando tu sabes mesmo aquilo que tu queres tentas estar em todos os processos para dares o teu feedback. Aceito sugestões, mas é importante teres uma ideia tua já formulada.

Já falamos desta parceria com a Inês e o David até já disse que o teu próximo álbum terá novas colaborações, há algum nome com quem desejasse muito trabalhar no futuro?

Há sempre pessoas com que eu gostaria de trabalhar, o Drake por exemplo, o The Weeknd... também gosto muito de musica no brasil, é por aí.

Sobre o novo álbum, que deverá ser lançado no final do ano, o que podemos adiantar para já?

Posso dizer que há um conceito no álbum em geral e que vai ser desvendado a 100% agora durante o verão. Mas para as pessoas mais curiosas, se virem o início do videoclipe do ‘És Só Tu’ já dá para perceber mais ou menos qual é o conceito do álbum. Há uma coisa que eu sempre gostei nos meus álbuns: criar ligações, criar coisas diferentes. A musica não é só musica, é tudo o que está à volta. Quanto a mais novidade, nos próximos dois meses ainda vêm coisas novas.

Além do álbum, há mais projetos futuros que possa revelar?

Recentemente, dei voz a um desenho animado no filme ‘Príncipe bué encantado’. Vamos ter a digressão, tour 2018, que começou em Leiria na semana académica. Vai haver um grande concerto no Porto ainda durante o verão, que vai ser anunciado nas próximas semanas e quando o ‘És Só Tu’ chegar a dois milhões de visualizações está preparada uma surpresa. Vêm aí muita coisa que não posso dizer ainda.

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