Depois de todas as emoções da vitória do programa 'Hell's Kitchen Portugal', Francisca Dias recordou a passagem pelo ecrã.

Sempre muito bem disposta, partilhou os desejos para o seu futuro na cozinha, não deixando também de falar do lado mais pessoal. Durante a entrevista, lembrou o dia em que casou com Tânia Semedo - sem esquecer o momento em que foi "montar" o bolo de casamento durante o mesmo.

A discriminação que continua a existir em Portugal e no mundo foi outros dos temas abordados durante a conversa com o Fama ao Minuto. "Acho que o mais importante é que, seja por que motivo, temos de aceitar a outra pessoa e fazermos o que pudermos para que isto tudo melhore", disse.

Mas antes, foi a nova e diferente experiência o grande destaque da entrevista. Uma aventura que chegou no momento em que se encontrava desempregada. Natural de Mação, atualmente trabalha no restaurante '100 Maneiras', de Ljubomir Stanisic, em Lisboa.

Como é que está a correr o trabalho no ‘100 Maneiras’?

Está a correr bem! Já estou a trabalhar há bastante tempo, cerca de três meses. Está a ser uma boa experiência, já estou completamente integrada na equipa.

Como é que a equipa a recebeu?

Bem! É como entrar numa equipa nova. Estava um bocadinho receosa por causa de ter vindo da televisão, mas foram super simpáticos e acessíveis.

E hoje, depois de ter vivido todas as emoções com a vitória do programa, como classifica esta experiência?

Foi completamente diferente do meu normal, de tudo o que já tinha vivido. Nunca tinha estado na televisão. Mas foi bom. Uma experiência super enriquecedora a nível pessoal. Aprendi muitas coisas, vivi muitas coisas… Em termos de cozinha, e como pessoa, vivi uma experiência social diferente, estar numa casa com muitas pessoas, participar numa competição de televisão, ver o que é a televisão por trás, entender como é que se processa. Aquilo que gravamos e naquilo em que se transformou. Quando participei pensei em ganhar e ir à final, mas também queria entender como é que era o mundo da televisão. Foi giro.

Uma coisa é ficar desempregada porque quero, outra é porque a restauração em Portugal não sabe o que é que vai acontecer passado um ano. É um bocado complicado e pensei ir para a televisão para ver o que vinha daí

Quando se inscreveu, o que esperava na altura era vencer o programa, ter mais visibilidade ou arranjar emprego?

O primeiro passo da inscrição foi feito pela minha mulher, a Tânia. Mas depois quando aceitei inscrever-me, primeiramente o objetivo inicial foi dar visibilidade enquanto cozinheira. Naquela altura a pandemia estava mesmo muito forte, estava tudo fechado outra vez, tinha ficado desempregada… Nunca tinha estado naquela situação. Uma coisa é ficar desempregada porque quero, outra é porque a restauração em Portugal não sabe o que é que vai acontecer passado um ano. É um bocado complicado e pensei ir para a televisão para ver o que vinha daí. Depois de já estar lá dentro, senti que estávamos lá para fazer o nosso melhor e o meu objetivo era chegar à final. Uma pessoa que chega à final é uma pessoa ‘creditada’. E isso enquanto cozinheira era um objetivo.

Houve algum momento durante o programa em que sentiu que podia ser a vencedora?

Quando foi passando o tempo, acreditei que podia chegar à final, mas estava vulnerável como qualquer outro. Podia estar num dia mau, aquilo não correr bem e ser eliminada… Mas acreditava que conseguiria chegar longe, que conseguiria chegar à final. E quando passo da semifinal para a final, senti que o objetivo estava cumprido. Era o que queria mesmo. Se ganhasse, melhor, se não ganhasse, o objetivo pessoal estava mesmo cumprido.

Sente que fez tudo o que podia, que deu tudo de si?

Sim. Havia dias mais difíceis, mas fiz o que pude. Se fazia algo diferente? Não sei! Se calhar certas coisas, mas nada de especial. E nem pensei nisso. O que está feito está feito, e não posso reclamar (risos)

O Lucas Fernandes acabou por ser o ‘rival’ mais direto, uma vez que foi com quem disputou a final. O que mais destaca nele?

É um ótimo cozinheiro e um bom líder. Ele sabe cozinhar mesmo muito bem. Tive sorte de ter um ‘rival’ bom. Tem imensas qualidades e gosta de competir, de fazer as coisas bem feitas…

Como ficou a relação com os restantes colegas? Mantêm contacto?

Não mantenho contacto com toda a gente, também éramos muitos, mas alguns sim. É como se fosse aquele amigo de trabalho por quem temos carinho e respeito, e vamos falando. Por exemplo, a [Ana] Sofia, (entre outras pessoas) ainda não fui lá cima porque isto agora está tudo fechado, mas quero ir ao restaurante dela, tenho muita curiosidade.

E como é a relação com o chef Ljubomir Stanisic?

É de chefe para empregado. Não mudou muito. Ele é meu patrão, por isso é um bocadinho como no programa. É meu mentor, estou ali a absorver aquilo que posso absorver dele. É um bocado diferente, o ‘Hell's Kitchen’ foi tipo uma entrevista de trabalho gigante. Dou-me bem com ele, ele é espetacular, mas é o meu chefe.

Como referiu há pouco, durante o programa estiveram todos a viver numa casa. Como foi esta parte da experiência, de repente estar a viver com várias pessoas que não conhece e fazer algo completamente diferente?

Nunca vivi numa residência de estudantes, mas na minha cabeça acho que era o que acontecia numa residência de estudantes. É imensa gente, uma cozinha, uma máquina de lavar roupa, tínhamos tipo listas de ‘tarefas’. Havia uns que cozinhavam mais, outros arrumavam a sala, outros arrumavam a cozinha… Era tranquilo. Uns jogavam jogos de tabuleiro, outros à bola, outros faziam aulas com personal trainer… Cada um tinha a sua rotina dentro da casa.

E a competição na cozinha ficava no programa ou depois levavam-na para casa?

Acho que ficava muito no programa. Alguns arrufos que às vezes aconteciam acabavam um bocadinho em casa, o que é normal, mas ficava muito em estúdio. Aquilo era uma competição em grupo, depois individual, por isso, a verdade é que o nosso colega de equipa passado uns tempos podia ser nosso rival. Mas como trabalhávamos em equipa, isso fomenta muito também a entreajuda. Se fosse competição a sério, em que era cada um por si, acho que teria sido diferente.

Estando longe da família durante o programa, quando foram surpreendidos com a presença dos familiares as emoções acabaram por atrapalhar ou conseguiu manter o foco?

Não estava mesmo à espera que fossem lá. Às vezes é complicado porque estamos muito focados no trabalho e depois, de repente, é aquela sensação de que queremos continuar a estar aqui [no programa], mas também queremos estar ali [com a família]. Mas foi muito bom. Naquele minuto pensei que estava mesmo com muitas saudades. É complicado, já tinha sido quase um mês de gravações, já era algum tempo…

Fazia muitos lanches para mim e comecei a cozinhar muito cedo. Foi algo muito natural

Na entrevista a Júlia Pinheiro, recordou a convivência com a avó, que tinha muitos animais e que foi quem a ensinou a cozinhar enquanto a mãe estava à frente da padaria... Sente que estas raízes acabaram por a levar a escolher a cozinha?

Isso influenciou, mas acho que foi porque gostava muito de comer. Não era aquela criança que se contentava com uma torrada e um leite com chocolate. Fazia muitos lanches para mim e comecei a cozinhar muito cedo. Foi algo muito natural. Desde cedo que comecei a cozinhar, quando a minha mãe tinha a padaria, a minha avó é que estava mais comigo de dia. Algumas bases que tenho hoje em dia foram coisas que aprendi nessa altura com a minha mãe e a minha avó. É uma conjuntura e deu nisto.

E quando é que deu o clique de que era a cozinha que queria seguir?

Quando chegamos ao 9.º ano [de escolaridade] temos que decidir a área que queremos seguir, e nessa altura estava muito indecisa. Pensei muito e um dia acordei e pensei que queria ser cozinheira. Foi mesmo assim. Acordei e disse que ia para a cozinha. Depois fui pesquisar para entender… Não fui para um curso profissional na altura porque tinha de sair de Mação. Falei com a minha mãe e decidimos que ia ficar por casa. Tirei Ciências e depois fui para a faculdade para o Estoril, e tirei cozinha.

Já falou várias vezes na sua mulher, com quem casou há menos de um ano, em plena pandemia… Como foi casar nesta fase?

Nós decidimos casar e estávamos fechados em casa em plena pandemia, mas naquela altura (foi no primeiro confinamento) pensávamos que depois do verão ficaria tudo normal... Quando me inscrevi no programa já não tinha noção se isto iria acabar se não. Fizemos uma coisa pequenina, no monte de uma amiga minha, só a família e amigos mais chegados. Foi muito bonito.

Também já tinha revelado que foi a própria quem fez o bolo de casamento…

Era uma coisa muito pequena, e contratar alguém para cozinhar… Quando vamos aos casamentos, normalmente, a comida não é espetacular. A parte do copo de água é boa, mas a comida em si não é. Sempre disse que quando me casasse seria uma coisa feita por mim. Por isso fui eu e mais alguns amigos meus, que eram convidados também, que fizemos a comida e o bolo. No meio do casamento fui montar o bolo, antes do corte, para a massa folhada não ficar mole. Foi giro, toda a gente participou, uns trataram da comida, outros das bebidas, outros da decoração… Todos partilharam o momento.

“Nunca fui uma pessoa com muitos amores”. Esta foi uma frase dita por si durante a conversa com Júlia Pinheiro, quando estava a falar da atual relação com a sua mulher. Isto aconteceu por ‘escolha’ ou por sentir que há alguns anos havia mais homofobia?

Não tem nada a ver com isso. Não tenho uma vida fácil, passo no mínimo 12 horas por dia a trabalhar, por isso tens de ter alguém ao teu lado que entenda isso. A primeira coisa que disse à Tânia é que isto era a minha vida e que ia ser sempre assim. Não tem nada a ver com a homofobia. Eu na verdade não tinha era tempo.

Uma pessoa LGBT sofre por não se enquadrar num ‘padrão’ dito ‘normal’, mas um emigrante também não se enquadra na sociedade porque se veste de uma forma diferente, e isso é a mesma coisa

Durante a sua vida alguma vez se deparou com comentários homofóbicos? Acha que a homofobia está a começar a 'diminuir' ou continua tudo igual?

As coisas não são preto nem branco. Tenho uma história fácil e tranquila, mas dificilmente poderá ser fácil para toda a gente porque todas as pessoas são diferentes e têm histórias diferentes. É difícil de quantificar se está melhor ou pior. Acho que se todos nós fizermos um bocadinho mais, as coisas podem ficar diferentes. Acho que esse é o objetivo, se todos nós trabalharmos para que exista igualdade em todo o sentido, não estou a falar só de homofobia, também estou a falar de misogenia. É uma coisa complicada e ninguém fala. Isso é um tema que existe, e existe em Portugal. Quem é LGBT, quem é mulher, quem é preto, quem é branco, quem é cigano, quem é emigrante é que às vezes tem noção de como são as coisas.

Não podemos dizer que não existe discriminação racista em Portugal porque existe. Não podemos dizer que não existe homofobia porque existe... Às vezes são coisas mais mascaradas porque não há forças, outras são mais faladas porque há mais forças para serem faladas. E não estamos a falar de discriminação só porque é gordo, magro, tem mais dinheiro ou menos,… Às vezes as pessoas não aceitam a outra pessoa como ela é, independentemente do que é.

Acho que o mais importante é que, seja por que motivo for, temos de aceitar a outra pessoa e fazermos o que pudermos para que isto tudo melhore. Uma pessoa LGBT sofre por não se enquadrar num ‘padrão’ dito ‘normal’, mas um emigrante também não se enquadra na sociedade porque se veste de uma forma diferente, e isso é a mesma coisa. Para mim são temas semelhantes porque é discriminação de coisas que não têm de ser discriminadas.

Dos pratos que faz, quais são os preferidos da família?

Depende. Em Lisboa, cozinho de uma forma diferente da que cozinho lá em casa [Mação]. Da minha filha [filha da companheira, fruto de uma relação anterior], atualmente é a minha massa com atum, hambúrgueres e frango à brás. A Tânia, a minha mulher, gosta muito de um prato tradicional japonês que eu faço que se chama katsudon. Em Mação, gosto muito de fazer ensopado de javali…

E quais são os seus pratos preferidos?

O meu prato favorito de sempre é canja. Gosto muito de caldos. Depois também gosto de cozido, de chanfana, arroz de cabidela, pratos japoneses…

Qual o patamar que gostava de atingir na cozinha? Uma estrela Michelin?

Não, de todo. O lugar onde gostava de chegar era ter uma cozinha ou trabalhar numa cozinha onde fizesse o que me apetecesse cozinhar. É aquela coisa de cozinhar para amigos. Ter um espaço onde consiga cozinhar como cozinho em casa. Já há imensos restaurantes assim.

Ser mais livre na cozinha?

É um bocadinho. É uma cozinha de uma forma mais livre. Gosto de trabalhar em estrela, é bom e sabe bem essa pressão, mas enquanto chef, se calhar no meu futuro não quero escolher isso.

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