No coração do Bairro das Laranjeiras, em Lisboa, existe um oásis entre vias rápidas que se cruzam e edifícios que se tocam. É um espaço que há quase 20 anos abriu as suas portas à comunidade ismaili e a todos os visitantes, mas que poucos lisboetas conhecem por dentro. Aproveite e venha fazer uma visita guiada ao edifício e aos seus pátios e jardins. O Centro Ismaili em Lisboa faz parte de uma rede global de centros.

Espaços que, espalhados um pouco por todo o mundo, têm como objetivo não só acolher as práticas religiosas da comunidade muçulmana ismaili e as suas instituições, mas também servir de edifício embaixatorial, fomentando pontes de diálogo sereno entre culturas. O Centro Ismaili em Lisboa é um conjunto arquitetónico que ocupa uma área de 18.000 metros quadrados. Desses, cerca de 12.000 são constituídos por jardins e por pátios.

O projeto resultou de um concurso internacional lançado em 1995 pelo príncipe Aga Khan, líder espiritual da comunidade muçulmana Shia Ismaili em todo o mundo. Nesse concurso foi selecionado o arquiteto indiano Raj Rewal para desenvolver o projeto, a quem mais tarde se juntou o gabinete do arquiteto português Frederico Valsassina, tendo a especialidade de arquitetura paisagista ficado a cargo da PROAP/João Ferreira Nunes.

As inspirações por detrás do projeto

O edifício foi inaugurado a 11 de julho de 1998 pelo Presidente da República Jorge Sampaio, na presença de sua alteza, o príncipe Aga Khan, 49º imam da comunidade muçulmana ismaili. O projeto inspira-se na filosofia e tradições de arquitetura nos contextos islâmicos do oriente, combinando-os com as da Península Ibérica. Estes princípios são bem visíveis na composição dos espaços e nas numerosas fontes.

Mas não se ficam por aí, muito pelo contrário. Estão também patentes no trabalhado da pedra e dos portões metálicos, com a flora mediterrânica e as espécies tradicionais dos jardins portugueses. Procura-se também conseguir uma permanente ligação entre interior e exterior, seja por meio de passagens diretas ou por ligações visuais privilegiadas do edifício sobre o jardim e vice-versa.

Atualmente, estes jardins, ainda relativamente conhecidos da maioria dos portugueses e até de muitos lisboetas, contam com mais de 300 árvores, milhares de arbustos e outras plantas pertencentes a cerca de 100 espécies diferentes, o que se traduz num enorme valor ecológico, pedagógico e cultural. Veja a galeria de imagens deste jardim, um espaço que vale a pena descobrir!

Um percurso nos pátios e jardins

O visitante que chega ao centro é recebido num grande átrio revestido a lioz e inundado de luz natural, ao qual sucede um pátio ajardinado de grandes dimensões, o chaar-bagh. Obedecendo ao desenho tradicional do jardim islâmico, este pátio está dividido em quatro partes por caminhos atravessados por sete canais onde a água corre permanentemente. As plantações reforçam a geometria, além de contribuírem para tornar o espaço mais agradável com os seus aromas, formas e cores.

Aqui podemos apreciar uma coleção de roseiras arbustivas (destacam-se Rosa Diane de Poitiers e Rosa Ballerina), azáleas e anémonas, bem como a murta (Myrtus communis ssp . Travertino), na sua forma topiada. Saindo deste pátio, encontramos logo outro, entre o salão multiusos e o salão nobre. Trata-se do pátio primavera, muito diferente em caráter e desenho do chaar-bagh.

Destaca-se, desde logo, o pavimento todo revestido a lioz e granito rosa, com um padrão em colmeia fazendo lembrar a antiquíssima arte da tapeçaria. Tal como o pátio anterior, foi construído sobre a laje do piso subterrâneo, mas isso não impediu a plantação de pequenas árvores (Lagerstroemia indica ), diversas flores e trepadeiras (destacamos por exemplo as diversas hostas, Jasminum officinale , Campanula persicifolia e Amaryllis belladona).

Veja na página seguinte: Interior e exterior em perfeita harmonia

Interior e exterior em perfeita harmonia

As muitas atrações do espaço não se ficam pelas descritas. Junto à sala de orações principal, verdadeiro coração do conjunto, existe ainda outro pátio de grandes dimensões, designado por Pátio do Jamatkhana. Aqui apenas foram plantadas quatro árvores da espécie Magnolia grandiflora, que em junho produz grandes flores branco-marfim suavemente perfumadas e algumas camélias em potes, neste caso Camellia Debbie.

Jardins de caráter claramente mediterrânico

Quando saímos do edifício e passamos aos jardins propriamente ditos, encontramos quatro zonas distintas, organizadas de acordo com uma função e tema diferente. Além do Jardim dos Pinheiros, existe o Jardim dos Frutos, o Jardim dos Jacarandás e o Jardim das Oliveiras. O Jardim dos Pinheiros envolve a zona de acesso e estacionamento exterior e aqui encontramos pinheiros de três espécies diferentes, Pinus pinea , Pinus halepensis e Pinus nigra. Na zona da entrada, foram ainda plantadas árvores ornamentais, lódão-bastardo (Celtis australis) e olaia (Cercis siliquastrum).

Um jardim cheio de frutos

O principal elemento do Jardim dos Frutos é uma alameda de laranjeiras na escadaria que conduz ao Jamatkhana, sendo este um dos acessos mais utilizados pela comunidade. Foi escolhida a laranjeira-amarga, pela sua utilização tradicional no jardim andaluz. Além das laranjeiras, neste jardim encontramos diversas árvores de fruto, que são sempre um elemento muito importante do jardim islâmico e também dos jardins tradicionais de toda a bacia mediterrânica.

Aqui encontramos alfarrobeiras (Ceratonia siliqua), amoreiras-brancas (Morus alba), abrunheiros-de-jardim (Prunus cerasifera Pissardii), cerejeiras-do-japão (Prunus serrulata Amanogawa), pereiras-de-jardim (Pyrus calleryana Chanticleer), nespereiras (Eriobotrya japonica), medronheiros (Arbutus unedo) e romãzeiras (Punica granatum). Contornando o edifício pelo lado nascente, encontramos o jardim dos jacarandás (Jacaranda ovalifolia).

Esta é uma espécie proveniente da América do Sul que se encontra muito divulgada e perfeitamente aclimatada em Portugal. Floresce entre maio e junho de uma forma exuberante, antes da rebentação das folhas. Neste jardim, encontramos ainda a mélia-dos-himalaias (Melia azedarach), a oliveira-do-paraíso (Elaeagnus angustifolia) e o cipreste-comum (cupressus sempervirens for. sempervirens).

Podem ainda ser observados diversos arbustos ornamentais. No Jardim das Oliveiras faz-se referência ao ambiente de um olival, elemento que desde sempre caracterizou a paisagem cultivada mediterrânica. Aqui, encontramos um conjunto de oliveiras rodeadas por um manto de gramíneas. Festuca glauca e Pennisetum villosum são as que mais se destacam.

Podem também ser observados diversos arbustos e trepadeiras. E assim chegamos ao fim de uma visita imaginária aos jardins do Centro Ismaili. Com esta breve descrição, esperamos ter despertado o interesse para conhecer com maior detalhe um conjunto arquitetónico de caráter único na cidade de Lisboa e no país. Um espaço que merece uma visita atenta e exploratória.

Como visitar o Centro Ismaili de Lisboa

Encontra-se aberto todo o ano e recebe visitas mediante marcação, que serão acompanhadas por um guia. Para tal, basta enviar um pedido para o Centro Ismaili de Lisboa através do e-mail nationalcouncil@cism.com.pt ou do número de telefone 217 229 000. Para informações adicionais pode consultar a página oficial da instituição.

Texto: Vera Ramos

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