A la fuente fui / E malica bengo / Se num ye d’amores / Que ye que you tengo?

“À fonte fui e mal venho, se não é de amores o que é que eu tenho”, tradução literal. As palavras são de Altino Martins, poeta e jornalista reformado, mais conhecido como 'o escritor de Sendim', que partilha com orgulho os “Males d’ Amores” que pôs no papel no idioma da sua região, o mirandês.

Em Sendim, vila de 1.370 habitantes, a cerca de 25 quilómetros de Miranda do Douro, sede do município, é fácil encontrar as palavras em duplicado, seja nas placas das ruas ou nas entradas das vilas vizinhas, seja em conversas porta a porta, nas pequenas lojas, nas amplas praças. É fácil escutar aquilo que, para um ouvido pouco treinado, parece ser uma espécie de portunhol antigo.

«Quando era estudante, falar mirandês era coisa de gente mais velha. Agora, voltou a estar na moda. Os jovens estudam na escola e há sempre cursos no verão», revela Cândida Viana, proprietária da Farmácia de Sendim e nossa anfitriã.

Conversamos na rua principal, tentando ignorar o frio que por estes dias faz. «Nós estamos habituados. Quando era criança ia para a escola sempre com medo de escorregar na neve. Não havia inverno que não nevasse. E tanto, que até formava estalactites. Hoje, já não há invernos tão rigorosos», conta-nos Cândida Viana.

Talvez por isso, os habitantes de Sendim continuem, tranquilamente, a repetir os gestos que, durante séculos, marcaram as rotinas dos seus antepassados. Na verdade, por estas terras de belas árvores, como o zimbro, o castanheiro, o sobreiro ou a azinheira, é frequente encontrar traços de outros tempos. Uma carroça puxada por um burro ou um tractor a atravessar pacificamente o centro da vila, saudando os vizinhos à medida que passa.

Na igreja matriz, do século XVIII, ainda se cumprem os rituais como manda a tradição, seja no Natal ou na Páscoa, casamentos ou baptizados.

Toda a gente se conhece e o relógio parece abrandar. Por isso, Cândida Viana não hesita: «Não quero sair daqui nunca!».

Mas tudo o que resiste ao tempo precisa de um restauro de vez em quando. Por isso, Lília Pereira da Silva e a sua equipa dedicam-se a cuidar e conservar a arte sacra da região. No Centro de Conservação e Restauro da Diocese de Bragança-Miranda, restauram e supervisionam as relíquias de mais de 300 paróquias dos 12 concelhos da diocese.

Quando chegamos, o altar da capela de Atenor está em cima da “mesa de operações”. «A capela data dos séculos XVI ou XVII. Tem vestígios muito degradados», explica Lília Pereira da Silva. Por isso, o restauro demora perto de dois meses até ser concluído. Um trabalho de precisão e minúcia a que assistimos, fascinados.

Nota-se que Cândida Viana tem orgulho nas suas gentes. Os olhos brilham quando descreve as tradições, as famílias que se conhecem há séculos e, claro, a posta mirandesa que faz questão de dar a provar no restaurante Gabriela.

«A posta mirandesa já se comia nas romarias, juntamente com uma fatia de pão. Foi a minha avó que fez a receita original», diz, com orgulho, Adelaide, agora gerente do negócio com a irmã Lurdes, ambas netas de D. Gabriela. Uma receita acompanhada pelo vinho produzido em Sendim pelo enólogo José Preto, vencedor de vários prémios internacionais.

«Gosto muito de viver aqui. A minha família é daqui e o vinho que produzo reflecte esta minha satisfação», confessa, à medida que nos dá a provar o mais recente tinto. Delicioso!

Boa mesa e tranquilidade que, mesmo assim, não convencem os jovens da região, a maioria a viver fora de Sendim. «O problema das nossas terras é que são muito secas. Estamos a sofrer com isso. As colheitas são difíceis e as vindimas tiveram de ser antecipadas. Por isso, os jovens são obrigados a ir embora», lamenta Cândida Viana, sublinhando que, muitas vezes, é quem vem de fora que dinamiza a região.

É o caso da associação juvenil Palombar, criada para recuperar os pombais e proteger os pombos selvagens. «Nos últimos dois anos temos tido muito trabalho voluntário internacional», diz Nuno Martins, um dos responsáveis do projecto, acrescentando que, «actualmente, há cerca de 3.700 pombais em toda a região».

Já em Atenor, vila vizinha, a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA) também é escolhida por muitos estudantes estrangeiros.

«No início foi muito difícil», lembra a nossa anfitriã e uma das co-fundadoras da AEPGA. «A conotação do burro era muito má. Viviam em estábulos pequenos, eram mal alimentados e usados, essencialmente, para trabalhar».

Hoje sabemos que são animais inteligentes e com uma personalidade vincada. «São muito mimados, adoram carinhos! São trabalhadores incansáveis, fiéis e seguem o seu líder até ao final. Agora, não lhes mudem as rotinas», diz Carolina, sorridente.​

Texto de Rita Leça

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