O desenho científico, mais especificamente o desenho botânico, é uma das minhas grandes paixões. Sempre que posso, assisto a palestras e a workshops sobre o tema. Estive há uns tempos em Almada, na Casa da Cerca, na iniciativa "Conversas às quartas", com dois grandes mestres do desenho português, o biólogo e ilustrador científico Pedro Salgado e Eduardo Salavisa, desenhador de viagens e do quotidiano.

Pedro Salgado é o pai da nova geração de ilustradores científicos e botânicos, que são bastantes no nosso país e de alto nível. Orgulho-me de ter um deles, neste caso uma ela, a Sara Simões, como ilustradora dos meus livros infantis. Eduardo Salavisa, por seu lado, é um viajante que regista as suas viagens em pequenos diários gráficos, dos quais eu destacaria uma viajem de nove meses que ele fez pelo centro e pelo sul da América.

Tive a honra e o privilégio de folhear esses diários e de, com eles, viajar ao coração de cada lugar. O Pedro Salgado, fundador do Grupo do Risco, levou-me, através do seu diário gráfico, à expedição amazónica que realizaram em 2010. Segundo ele, através do desenho entra-se num outro nível de perceção e entendimento do objeto que, dificilmente, se consegue através da fotografia, dada a sua natureza mais fugaz.

Pormenores que permitem ver melhor

Mais fugaz e mais instantânea. Através do desenho, em contraponto com a fotografia, capta-se com maior intimidade a alma de uma planta, de uma árvore, de um inseto ou até de um peixe, a sua especialidade. Passa-se mais tempo em redor de um objeto num mergulho onde tudo à volta se dilui, ficando apenas o olhar, a mão e a atenção aguçada e focada no detalhe, nas sombras ou nalguma outra característica fundamental.

Desenhar e pintar a natureza são formas originais de ocupar os tempos livres

Apesar de muitas vezes o ato de fotografar ser também um trabalho intenso de observação e de espera, pela luz certa e/ou pelo segundo exato, é mais rápido o diálogo com aquilo com que estamos a tentar comunicar. Peço desculpa aos fotógrafos, pois conheço alguns que chegam a passar dias tentando captar algo específico, uma paisagem ou até um momento, até conseguirem apreender a essência no seu melhor.

Mas o desenho tem um lado romântico que apela ao meu espirito viajante e aventureiro, transportando-me para o mundo das grandes expedições botânicas realizadas especialmente a partir dos séculos XV e XVI, que tiveram um papel crucial no conhecimento das plantas encontradas e trazidas do novo mundo. Esse conhecimento científico da botânica não teria sido possível sem o papel fundamental desses registos.

Desenhar e pintar a natureza são formas originais de ocupar os tempos livres

Provenientes de uma observação cuidada, pormenorizada e registada em desenhos realizados por exploradores, vistos à época como indivíduos um pouco loucos e até excêntricos, em muitos casos, foram decisivos na transmissão de conhecimentos. A esses excêntricos devemos muito do que hoje sabemos sobre o fantástico mundo das plantas. Bem hajam os excêntricos criativos, amantes e respeitadores da natureza.

Para quem quiser experimentar uma abordagem descontraída e descomprometida do desenho botânico, há organismos e instituições que promovem regularmente ateliês e workshops que ensinam a interpretar melhor os resultados dessas ilustrações e até mesmo a perder o medo de pegar no lápis e arriscar os seus próprios desenhos. Uma forma criativa, original e artística de ocupar os tempos livres nos dias que correm.

Texto: Fernanda Botelho

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