De tempos em tempos a astrologia passa por transformações que ampliam e redefinem tanto o seu conteúdo teórico quanto o seu uso prático. Desde os simples e longínquos calendários lunares de colheitas até a complexa astrologia psicológica de hoje, esta já evoluiu tanto através dos milénios quanto o próprio homem. Isto é obvio, já que a astrologia é feita pelo e para o homem.

Ha alguns anos, Rudhyar redimensionou a astrologia elevando-a em termos teóricos de um nível mais preditivo para outro mais humanista e psicológico. Desde então, nos últimos 30 anos, muitos outros estudiosos como Liz Greene e Stephen Arroyo, têm vindo a aperfeiçoar teoricamente a astrologia psicológica.

Muitos astrólogos sentiram a necessidade de estudar psicologia e foram para as faculdades onde se depararam com muitas outras vertentes do saber psicológico, sobretudo as de carácter prático, isto é sobre a prática terapêutica. Estas questões sempre foram difíceis de integrar na nova astrologia psicológica. Isto é, onde cabe na consulta astrológica a questão terapêutica? Onde cabem questões como transferência e contra-transferência? Onde cabe o uso terapêutico da relação na consulta astrológica?

Por muito tempo, estas questões foram deixadas exclusivamente para os profissionais "psi" (psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas,...). Isto porque não faz sentido falar de transferência, projecção e outros termos que surgem na RELAÇÃO terapeuta - cliente, num modelo de consulta única e/ou anual.

Actualmente, o corpo teórico da astrologia é (em grande parte) psicológico, mas o molde de consulta, na prática, ainda é o tradicional.

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Assim, sendo o objectivo da astrologia psicológica promover uma conscientização real do indivíduo, com uma maior aceitação/integração das suas características pessoais, fica difícil este processo ocorrer, no modelo tradicional de consulta, numa única sessão de duas horas.

Por sua vez, muitas vezes é o próprio consulente que procura o astrólogo algum tempo depois, pois sente necessidade de algum tipo de continuidade àquilo que se iniciou na primeira sessão. Ora, se a consulta anterior "despertou" o indivíduo para um estado de maior reflexão sobre si próprio, é natural que ocorram insights e percepções que muitas vezes são sentidos como algo que deve ser continuado.

Contudo, por norma, o astrólogo ainda é visto como "a salvação" para problemas pontuais, fazendo uso das suas técnicas preditivas, e não como um profissional que orienta num conjunto de sessões planeadas sequencialmente com um fim terapêutico. Além disso, existe ainda um preconceito em relação a ida regular a um astrólogo, além dos custos acrescidos que o mapa em várias sessões implica. De fato, é impossível não haver um maior investimento neste tipo de abordagem por parte do consulente, o que trás todavia uma grande vantagem: uma maior selectividade quanto as pessoas que desejam passar do nível de "satisfação da curiosidade astrológica" para um nível terapêutico de integração/conscientização das características que o mapa aponta.

Em suma, pode-se propor, então, um trabalho diferente para aqueles que demonstram interesse em dar continuidade ao processo que a 1ª consulta astrológica pode promover, propondo-se ao consulente um trabalho em varias sessões com um numero aproximado e pré-definido.

Aqui acho importante fazer uma distinção entre o trabalho do astrólogo e o do psicólogo/psicoterapeuta.

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A ferramenta central do astrólogo é o mapa astral e o seu anteparo é a interpretação astrológica, enquanto que o trabalho do psicólogo é centrado no discurso do cliente e o seu anteparo é a técnica psicoterapêutica. O que começa agora a tornar-se necessário é o astrólogo trabalhar mais com o cliente e não somente com o mapa.

Mas é importante ficar ressaltado que a proposta da astrologia feita numa abordagem terapêutica não substitui a psicoterapia nem o trabalho do psicólogo e as duas coisas são feitas de formas diferentes, com métodos, técnicas e objectivos diferentes.

A questão que se coloca é: quais são os benefícios que as várias sessões trazem para a consulta astrológica?

Em 1º lugar, é possível focalizar todos (ou muitos) pontos do mapa e aprofundar significativamente a interpretação astrológica.

Esta situação corta o estado de ansiedade e pressão do astrólogo de ter falar o mapa inteiro, ou o máximo possível sobre o mapa em duas horas, ou mais (cheguei a ficar quatro horas com o cliente), ao contrário disso, o astrólogo pode aprofundar a interpretação do mapa durante as semanas, de acordo com a necessidade do cliente e não da necessidade do próprio astrólogo em falar tudo de uma só vez, até porque normalmente o consulente não consegue absorver tamanha quantidade de informação.

Em 2º lugar, a consulta astrológica feita em várias sessões ameniza significativamente o estado inicial de expectativa e ansiedade tanto do consulente quanto do astrólogo (alguns clientes tomam calmantes antes da consulta), permitindo um espaço mais enriquecedor para ambos devido a um estado mais relaxado e tranquilo; desenvolve-se ainda maior empatia entre os dois, o que cria mais abertura e confiança.

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O próprio astrólogo tem a oportunidade de conhecer melhor o seu cliente, o que permite ultrapassar as limitações de "despejar" informação teórica/técnica que o mapa oferece, e aproximar de fato a informação astral com os fatos concretos fornecidos "in loco" pelo consulente. A interpretação deixa de ser impessoal e faz conexão directa com as situações reais da vida do cliente, através de seu feedback.

Em terceiro lugar, o astrólogo deixa de ser um informador "mercuriano", e até mesmo um "adivinho", pois o factor tempo que antes só permitia "dar pistas" sobre o trabalho de auto descoberta e auto desenvolvimento que o indivíduo deveria fazer depois da avalanche de informações advindas da consulta, agora é um facilitador de um processo de integração/aceitação das características pessoais que o mapa apresenta.

O astrólogo pode apresentar soluções terapêuticas para os complexos chaves e condicionamentos básicos que influem na vida do indivíduo, soluções estas contidas no próprio mapa. Pode acompanhar através do aconselhamento psicológico as características e os desafios apresentados no mapa e nas queixas do cliente. O trabalho terapêutico permite ao indivíduo passar de um nível de conscientização "mercuriana" da informação que o mapa traz, para uma integração mais "solarizada". Isto porque sabemos que só saber, ou estar consciente "mercurianamente" muitas vezes não resolve o problema. É importante saber o que fazer com tudo isso e trabalhar uma possível evolução de forma prática e com base em dados reais e não em possibilidades idealizadas de crescimento.

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O processo de encontrar funções terapêuticas para as configurações astrais do próprio consulente torna o seu processo de crescimento algo real e possível. O consultório astrológico é um ambiente protegido, isto é, um laboratório de tentativas do consulente para trabalhar questões pertinentes, superar obstáculos, tentar outras alternativas mais adaptadas para a realidade interior do indivíduo.

As muitas consultas familiarizam o consulente com seu próprio tema e mesmo os seus padrões mais arraigados ficam mais conscientes. É precisamente a consciência (não a "mercuriana", mas a "solarizada"), que torna o indivíduo livre.

Livre arbítrio é o pólo essencial da astrologia que se complementa com o da predestinação. Pólo este que quer emergir e tirar a astrologia do rotulo de "ciências ocultas", preditivas ou "do destino", e pode levá-la a um estatuto de ciência com qualidades verdadeiramente terapêuticas.

por Juliana Estevez

Juliana Estevez

in Jornal de Astrologia

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