Esta é uma conversa tida antes do anúncio anual do Prémio Nobel da Economia. Hoje, sabemos que dois norte-americanos, William Nordhaus e Paul Romer, foram os eleitos pela Real Academia Sueca das Ciências para o referido galardão. O primeiro, com trabalho comprovado na economia ligada ao meio-ambiente, o segundo, tendo formulado a teoria do crescimento endógeno, decisiva para integrar a inovação tecnológica na análise macroeconómica de longo prazo.

Um anúncio que veste como luva as palavras trocadas neste diálogo com Pedro Norton de Matos. Economista de formação e atividade que, há dez anos, repensou a sua vida e, inspirado no modelo de um festival californiano ligado à sustentabilidade, nas suas várias aceções, inaugurou em Portugal um novo formato, o GreenFest, que celebra, este 2018, a 11ª edição.

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Uma conversa com Pedro Norton de Matos, mentor e empreendedor desta grande festa da sustentabilidade é sinónimo de espraiarmos o campo de abordagem para as áreas que dão entorno a este festival que, de 11 a 14 de outubro, chama ao Centro de Congressos do Estoril, dezenas de iniciativas privadas e públicas comprometidas com uma economia sustentável a amiga do ambiente, inerentemente mais humana.

Uma conversa que não esquecendo a óbvia relação entre o entrevistado e o festival que organiza, não enjeita abordar questões como o desperdício nas nossas sociedades, o consumo desenfreado e as alternativas viáveis, como o desperdício zero e a economia circular. “Pensávamos, erradamente, que as árvores crescem até ao céu”, diz-nos Pedro Norton de Matos. E explica o porquê nesta entrevista.

O GreenFest saltou a fasquia dos dez anos. Em 2018 chega à sua 11ª edição. Pedro, enquanto mentor e implementador desta grande festa da sustentabilidade, como e quando se dá o clique para a mesma?

Dá-se em 2007, aquando de uma visita aos Estados Unidos, à Califórnia, onde há uma forte sensibilidade e consciencialização para a sustentabilidade. Ali decorria um festival similar ao que hoje temos em Portugal. Pensei logo na altura em trazê-lo para Portugal, adaptando-o à nossa realidade e dando-lhe um outro entorno, ao envolver, também, o mundo empresarial.

Eu, economista de formação e de prática, acabado de sair do mundo empresarial, percebi no tema da sustentabilidade uma abordagem incontornável. Olhando para trás, volvidos dez anos, vejo na época a necessidade de ir ao encontro do tema da responsabilidade social das empresas e na preocupação de ligar o lado económico e financeiro, ambiental e social.

Ambiente: “O Santo Graal do desperdício zero era praticado pelos nossos avós. Nós, com mais recursos não o conseguimos?”
Pedro Norton de Matos, mentor do GreenFest.

Ou seja, há uma década percebeu aquilo que atualmente já se tornou evidente, há que comprometer, de facto, o tecido empresarial com a sustentabilidade…

Sim, foi essa a linha inspiradora, um modelo que, percebi, tinha adesão por parte do público. Por outro lado, senti que se adicionasse o envolvimento das grandes e pequenas empresas, podia ter um evento muito representativo e transversal. Acresce a importância das autarquias, da sociedade civil e, também, as escolas. A sustentabilidade é um compromisso intergeracional. Recebemos uma herança e deixamos um legado. No fundo, tudo isto sintetiza o GreenFest, um fórum muito plural, um espaço de discussão, de boas práticas.

Pedro, toda esta dinâmica de privados e públicos em prol de um mundo mais sustentável, pode não passar de boas intenções se não mudarmos o modelo económico vigente, ou seja, crescimento contínuo. Concorda?

A aceleração do chamado desenvolvimento económico traduz-se, no mundo ocidental, numa sociedade de consumo descontrolado e de desperdício. Isto tem de nos envergonhar. Para mais, numa época em que se fala na economia circular como um objetivo a atingir, ou seja o desperdício zero. No fundo, aquilo que a natureza nos ensina.

A aceleração do chamado desenvolvimento económico traduz-se, no mundo ocidental, numa sociedade de consumo descontrolado e de desperdício. Isto tem de nos envergonhar. Para mais, numa época em que se fala na economia circular

Repare, desperdiçamos perto de um terço da água potável nas cidades portuguesas. Desperdiçamos comida, nos nossos lares. Somos uma sociedade de desperdício de energia, dada a forma como construímos as casas nas últimas décadas. E, desperdiçamos o capital humano. Muitas pessoas estão subaproveitadas em diferentes áreas. Por exemplo, na sua vertente de cidadania ativa, nas comunidades, enquanto agentes de transformação. Também enquanto consumidores e o papel que detêm sempre que adquirem um bem ou serviço. No campo profissional, também. Há muita gente que está apenas presente nos seus postos de trabalho, não têm ai uma dinâmica.

Posto isto, compreende-se que tenham escolhido para tema da presente edição do GreenFest a “Sustentabilidade 4.0”. Quer comentar?

Sim, há naturalmente uma razão. Isto porque, 4.0 remete-nos para a economia, para a tecnologia digital. Dizemos sim à tecnologia como um facilitador. Esta, per si, tem os dois lados da moeda. Se for utilizada para a prosperidade humana, fantástico. Agora, se for usada com perversidade, não obrigado. A mensagem que queremos passar neste GreenFest é a de que temos, com engenho e arte, de mudar o modelo de desenvolvimento.

Ambiente: “O Santo Graal do desperdício zero era praticado pelos nossos avós. Nós, com mais recursos não o conseguimos?”

Há pouco referiu o mundo empresarial. Reconhece envolvimento efetivo nas questões que aqui estamos a abordar?

Eu diria que há um caminho grande a percorrer. Mas, sendo justo e tendo a experiência de dez anos de evento, posso fazer uma comparação. A evolução nota-se. Noto uma evolução no mundo empresarial. Cito duas associações empresariais, o BCSC - Business Council for Sustainable Development e o GRACE, grupo de reflexão e apoio à cidadania empresarial. Cada uma destas entidades tem mais de cem associados. Percebo, claramente, que há toda uma evangelização e líderes nas organizações que procuram incorporar a sustentabilidade no seu modelo de negócio e englobar os seus colaboradores, fornecedores, entre outros parceiros, nesses valores.

Há bons exemplos de empresas que o estão a fazer porque também há mercado para o fazer. As novas gerações estão cada vez mais sensíveis a estas questões que temos abordado. As marcas não são autistas, se perceberem que o consumidor prefere, este ou aquele produto e serviço, que incorporem valores de sustentabilidade, adotam-nos. Veja, por exemplo, na área da distribuição, nas grandes superfícies nota-se a diferença. Em dez anos há um grande crescimento no número de prateleiras com produtos saudáveis.

É todo um caminho de aprendizagem que estamos a fazer, certo?

A minha geração não foi educada para a sustentabilidade. Pensávamos, erradamente, que as árvores crescem até ao céu. Isso não acontece na natureza e não pode acontecer na economia. O sucesso está muito associado ao crescimento. E, aqui, gostaria de voltar ao tema do desperdício, nas áreas que referi. Com os ganhos decorrentes de não desperdiçarmos, somados ao desperdício zero, que não deve ser uma utopia, seremos uma sociedade muito mais eficiente na gestão dos seus recursos.

As marcas não são autistas, se perceberem que o consumidor prefere, este ou aquele produto e serviço, que incorporem valores de sustentabilidade, adotam-nos.

Repare, não estamos a inventar nada, o Santo Graal do desperdício zero era praticado pelos nossos avós. Com muitos menos recursos praticavam uma economia circular. Então, nós, com infindáveis mais meios e recursos, não o conseguimos?

Como vimos temos de mudar de paradigma. A economia atual não é compaginável com um planeta saudável e o modelo de desenvolvimento, em termos latos, parece não olhar para esta questão.

Todas as profissões terão as suas vulnerabilidades. Falei dos economistas, podia ter referido a área médica. Na nossa cultura ocidental, os médicos foram-se afastando da promessa de Hipócrates, pai da medicina, que nos diz: “que a medicina seja o teu alimento, que o alimento seja o teu remédio”. Um grande número de médicos percebe pouco de nutrição e, de facto, somos o que comemos.

Ambiente: “O Santo Graal do desperdício zero era praticado pelos nossos avós. Nós, com mais recursos não o conseguimos?”

Eu como economista percebo que o crescimento cria enormes subversões. Nós estamos a produzir continuadamente para deitar fora. Temos um sistema perverso, é mais fácil reparar do que comprar novo.

Por exemplo, Portugal produziu mais lixo em 2017 do que em 2016. Isto não obstante todas as campanhas para inverter estes números. Agora, aproximemos a análise e olhemos para as estatísticas de produção de lixo por habitante. Verificamos que em Ponte de Lima, por habitante, produz-se metade do lixo de por comparação a Lisboa. Então qual é a cidade mais desenvolvida? Se para nós progresso, significa mais lixo, algo aqui não joga.

O que devemos fazer, então, no que respeita ao desenvolvimento sustentável? Com mais meios, recursos e tecnologia, podemos almejar um futuro com menos assimetrias sociais, menos impacto ambiental. Aqui entra o lado da esperança. Acredito que o Homem pode levar-nos a descobrir formas de alterar o paradigma dos modelos que temos usado.

Façamos, então, a ponte entre tudo isto que acabámos de falar e o GreenFest em 2018.

Certo. Cada vez mais damos voz e lugar a pequenos projetos que são disruptores e que nos dão alternativas ao modelo vigente. Muitas vezes essa inovação vem mais de pequenas empresas e que vai mudar o modelo. Repare os gigantes mundiais nasceram assim, pequenos e hoje a sua influência faz-se à escala global.

Ambiente: “O Santo Graal do desperdício zero era praticado pelos nossos avós. Nós, com mais recursos não o conseguimos?”

Para mim é altamente gratificante procurar, descobrir e perceber muitas iniciativas a nascerem. Dou-lhe três exemplos: Vamos apresentar no GreenFest mobiliário urbano feito a partir de casca de arroz, sal e óleo vegetal; Bijuteria produzida com borras de café; uma marca de sapatos, de dois criadores de Esposende, que utilizando um processo de compactação cria calçado. A sola é produzida com plástico condensado. O restante é de juta e cortiça e fibras de casca de ananás.

Todas as edições do GreenFest são agendadas numa altura em que a atividade escolar esteja a operar. Temos mais de três mil e quinhentos estudantes do ciclo e do secundário confirmados. Isto falando apenas de visitas organizadas.

Vão ter a presença de uma ativista australiana, a Leyla Acaroglu. No vosso programa é-nos apresentada como uma “provocadora cultural”. O que podemos esperar?

Fiquei muito impressionado com o trabalho da Leyla. É uma ativista internacional que está muito envolvida no repensar o desenho. Na prancha de desenho podemos mudar muita coisa, por exemplo, as matérias primas que se utilizam posteriormente. A Leyla escolheu Portugal, nomeadamente a região de Tomar, para desenvolver iniciativas. Tem ali um espaço onde faz conferências e retiros.

Ambiente: “O Santo Graal do desperdício zero era praticado pelos nossos avós. Nós, com mais recursos não o conseguimos?”

Há pouco o Pedro referia o diálogo intergeracional. Nesse sentido, o público infantil é acarinhado no GreenFest?

É para nós um dos públicos mais importantes. Todas as edições do GreenFest são agendadas numa altura em que a atividade escolar esteja a operar. Temos mais de três mil e quinhentos estudantes do ciclo e do secundário confirmados. Isto falando apenas de visitas organizadas. Promovemos o encontro entre o publico mais jovem e o parceiro institucional, empresa ou instituição com conteúdos para estes grupos etários.

Há no decorrer do evento um especial carinho em relação à área alimentar. No fundo, reconhecendo que as escolhas que fazemos, também aqui, têm um impacto real no planeta. Quer falar-nos sobre esta abordagem no GreenFest?

Há pouco falava no somos o que comemos e dou-lhe um exemplo, a alimentação é muito importante para a energia consumida pelo nosso cérebro. Um órgão que pesa 3 a 4% do peso corporal, consome cerca de 25% da nossa energia. É fácil, aqui, fazer a ponte com a componente intelectual que será o que nos pode diferenciar no reino animal.

Ambiente: “O Santo Graal do desperdício zero era praticado pelos nossos avós. Nós, com mais recursos não o conseguimos?”

Temos programados vários showcookings agendados, com a presença de chefes e nutricionistas. Tudo sem radicalismos. Não obrigamos ninguém a ser vegano, ou vegetariano, ou macrobiótico. Alternativas à nutrição. Temos o apoio do World Wildlife Fund que nos vai trazer propostas alimentares viáveis aos peixes que estão em vias de extinção. Por exemplo, a cavala, hoje uma delicatessen em restaurantes franceses.

Em suma, são quatro dias de programa intenso.

Sem dúvida e com diferentes formatos, ao encontro de diferentes públicos. Para além de toda a área expositiva, teremos teatro, conferências, workshops, ted talks. Neste último caso, em 60 minutos, temos oito especialistas a discursar a propósito de temas específicos. Por exemplo iremos falar dos insetos como fonte de proteína no futuro. Para nós continua a ser um obstáculo cultural. Ao ritmo que estamos a extinguir os recursos naturais, temos aqui uma fonte alimentar alternativa.

Isto em ambiente informal, com um layout pensado e corporizado com materiais naturais, reciclados. Ambiente para falamos de questões sérias num formato informal.

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