Corria 1903, quando a japonesa Motoko Hani, filha da revolução e da modernização do seu país natal, integrava a primeira geração de mulheres do então recém-inaugurado instituto feminino de ensino superior de Tóquio. A nipónica tornou-se na primeira jornalista do Japão.

Motoko fez mais, criou aquela que é, ainda hoje, a revista feminina mais antiga do país, “Fujin no tomo”. Nas páginas da publicação, Motoko incentivou as leitoras a registar sempre as suas receitas, despesas e poupanças, fomentando assim o controlo diário da economia doméstica.

Em 1904, Motoko Hani decidiu lançar o primeiro Kakebo da história, o que traduzido em poucas palavras, representa livro de contas da poupança doméstica.

Ferramenta para análise das despesas, controlo dos gastos e disciplina que continua a ser, volvidos mais de cem anos, um guia útil no controlo da economia doméstica e gestão dos hábitos de consumo.

Ana Bravo, especialista em economia doméstica, mentora da iniciativa “ABC da Poupança” e autora de livro com título homónimo, reforça a mensagem que traz da obra anterior e apresenta aos leitores, este 2021, o livro-agenda “Kakebo – A arte de poupar”.

Em entrevista, Ana Bravo, formadora e consultora, pormenoriza-nos as vantagens de termos em mãos o “Kakebo”, “uma presença física que nos alerta visualmente, uma espécie de lembrete para fazermos contas”, sublinha. Um guia que nos “oferece um sistema para o processo de compra e/ou de poupança, por estar concebido num formato ´ligeiro`. A sua utilização é, pode dizer-se, simples e até divertida”, adianta a autora.

Tem um controlo total das suas despesas e receitas? Em que produtos e serviços gasta o seu dinheiro? Sabe valorizar as coisas para além do seu preço? Perguntas que pedem respostas. O método kakebo responde.

Perdeu o controlo sobre o orçamento doméstico? Kakebo, o método japonês para gerir a poupança
Ana Bravo, autora do livro “Kakebo – A arte de poupar”. créditos: ABC da Poupança

De que forma o Kakebo nos ajuda a gerir a economia doméstica?

Exatamente por ser um alerta diário da necessidade de tomada de consciência dos nossos gastos e nos “obrigar” a ponderá-los. Na página 13 fornece um sistema esquematizado, ótimo para ajudar os processos de decisão para que depois haja consciência e ações que acompanhem.

Como se organiza o livro-agenda que publicou?

Pode-se dizer que se organiza em três grandes rubricas, nomeadamente, o que vou fazer com o que tenho (objetivos), o meu comportamento semanal (ação) e o que fiz de facto (raio x).

Trocando por miúdos…

Há um plano mensal, onde são colocadas as receitas e as despesas e o objetivo de poupança do mês em causa. Depois, encontra o balanço semanal, com os valores gastos nas diferentes rubricas a cada semana e os totais.

Princípios da arte de poupar

Análise das despesas: ao analisar as suas despesas, tomará consciência do seu nível de vida e ajustar os gastos e encargos à realidade das suas possibilidades.

Controlo dos gastos: ao tomar consciência do seu nível de vida, estabelecerá prioridades, corrigindo maus hábitos, tirará melhor partido do seu bom senso. Não gastará por impulso, responsável por grande parte das compras inúteis.

Disciplina: dedique uns minutos por dia ao registo dos seus gastos. Será tempo ganho. Disciplinará as suas despesas, tornar‑se‑á mais rigoroso e mais constante.

Finalmente, tem o apuramento mensal, onde avalia os gastos totais das semanas daquele mês e por rubricas e avalia se foi ou não cumprido o objetivo de poupança e quais os sentimentos associados aos resultados obtidos.

Esta gestão das contas domésticas ocupa-nos muito tempo?

Não. Porém, desafio a que se considere o tempo usado no “Kakebo” como um investimento. Em oposição, não investir em métodos de gestão da economia doméstica é que na realidade nos ocupa muitíssimo tempo, consome-nos anos de vida e soma-nos preocupações e problemas. É reduzido o tempo usado para manter a economia doméstica organizada e, à medida que o vai fazendo passa a ser um automatismo, uma fonte de bem-estar e tranquilidade.

Com a utilização deste livro-agenda conseguimos, efetivamente, reduzir as despesas mensais? Pode dar-nos alguns exemplos práticos?

O melhor exemplo prático é “pôr as mãos na massa”. Está provado que o simples facto de fazer contas, só por si, nos faz poupar, pois ficamos alerta para as nossas despesas que, a maioria das vezes, nem tínhamos noção de existirem, nem quais os seus valores. Por isso sente-se calmamente, pegue no “Kakebo”, siga os passos indicados, avalie as suas receitas e os seus gastos e vai dar por si a perceber os seus consumos e tudo o que pode afinar.

Vai dar por si a estar mais alerta sempre que abre a carteira, pega no cartão MB ou faz compras pela internet. Isto vai traduzir-se em poupança. Porém, é bom que se perceba que o “Kakebo” só pode fazer magia nas mãos dos magos. Não há milagres, se espera que apenas folheá-lo de vez em quando vai transformar a sua vida financeira. Está a enganar-se voluntariamente. Todo e qualquer método de poupança funciona apenas e só quando colocado em prática consistentemente.

Está provado que o simples facto de fazer contas, só por si, nos faz poupar, pois ficamos alerta para as nossas despesas

Com a aplicação do Kakebo, e em média, a poupança doméstica cifra-se em que valor percentual?

Foi comprovado que com a utilização regular do método Kakebo consegue-se uma poupança de cerca de 10%.

Fora de casa, onde residem normalmente os gastos supérfluos?

São muito comuns os gastos com pastelaria, vestuário, acessórios, prendas para o lar, revistas, rebuçados e pastilhas elásticas, entre tantas coisas que assediam diariamente os nossos sentidos. Cada um tem os seus pontos fracos, certo? O meus são os “trapinhos”. Devemos centrar a questão no seguinte: que estratégias usamos para gerir estas fraquezas? Uma, poderia muito bem ser usar um Kakebo.

Kakebo
créditos: Editora Influência

Nos bens de consumo para a casa, o que inclui a alimentação, onde estão estes gastos supérfluos?

Em termos alimentares, compram-se de facto muitas coisas desnecessárias e quando vamos às compras com fome o estrago aumenta exponencialmente: as gulosices, a comida pré-feita, os snacks, entre outros itens. são exemplos de compras desnecessárias e prejudiciais não só para a carteira como também para a saúde.

Outra área de interesse que leva aos consumos desnecessários são os artigos de decoração, pequenos eletrodomésticos e outros gadgets que se vão acumulando com a desculpa de: “isto dá muito jeito para o caso de…”; artigos de higiene e beleza são outra classe que muito apela ao consumo e acumulação desnecessários. E o facto de todas estas coisas estarem disponíveis no super e hipermercados aumenta a probabilidade de consumo.

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créditos: Fabian Blank/Unsplash

Entre as vantagens da utilização do Kakebo estão a atitude positiva, o autoconhecimento e a harmonia familiar. Ou seja, estamos perante uma ferramenta de poupança que não tem apenas valor material. Porquê?

Sempre que se organiza de alguma forma as nossas hormonas recompensa-nos, há de fato uma recompensa química resultado de sentirmos que fizemos o correto e isto deve-se às endorfinas que são libertadas para corrente sanguínea promovendo uma sensação de bem-estar. E isto é apenas o princípio.

Saber exatamente o que ganhamos e o que gastamos ajuda-nos a manter as nossas contas em dia, tomar consciência e melhor tomar decisões, permite ainda desenvolvimento de pensamento estratégico e uma mente financeira ágil. Isto são fatores de satisfação, tranquilidade e controlo sobre o aspeto financeiro da sua vida que impacta drasticamente na sua vida emocional pela satisfação e sentimento de controlo e tranquilidade que consegue.

Saber exatamente o que ganhamos e o que gastamos ajuda-nos a manter as nossas contas em dia.

No fundo, quando falamos em economia doméstica, onde há que começar?

Ser feliz e equilibrado são fatores essenciais para uma vida financeira equilibrada, por isso as principais dicas que posso dar são para que durma bem e o suficiente; procure sempre o lado positivo de tudo o que é e o que acontece, ria muito todos os dias, desenvolva bons sentimentos por si e pelos outros. Ame-se e respeite-se. Isso fará com que ame e respeite a humanidade. Faça exercício físico diariamente e alimente-se saudavelmente. Aprenda todos os dias qualquer coisa. Chegue ao final do dia com o sentimento que fez tudo o que estava ao seu alcance.

kakebo
créditos: Editora Influência

A Ana Bravo pode dar-nos algumas dicas de economia doméstica?

Sim, genericamente, anote todas as despesas, faça contas. Defina um valor mensal de poupança e cumpra. Por exemplo, use um mealheiro, a conta bancária ou, se acha que vai prevaricar, peça à sua mãe para ser a fiel depositária.

Tenha uma lista detalhada das coisas que precisa e leve-a sempre consigo para as compras. Ainda nas compras, adquira apenas nos saldos. Para tal, tenha uma lista atualizada das coisas de que realmente precisa e use-a no momento das compras.

Compre em segunda mão, pois são tantas as coisas que pode e deve comprar utilizando este recurso: o automóvel, a televisão ou um micro-ondas.

Frequente “trocários”, lojas e mercados de usados e obtenha roupa ou outros itens gratuitamente ou por preços simbólicos e saiba reciclar as suas roupas (um vestido comprido com alguns ajustes pode tornar-se num vestido curto).

Pratique exercício físico low cost ou gratuito, fazendo caminhadas, correndo ou andando de bicicleta. Existem ainda ginásios online de baixo custo ou opte pelos inúmeros vídeos com aulas que encontra na net.

Na cozinha, faça o seu próprio pão, as massas de pizza, as compotas, os gelados e tenha as principais ervas aromáticas em vasinhos, prontas a usar nos seus cozinhados.

Na higiene doméstica, faça os seus detergentes com produtos do dia a dia, económicos e eficazes. Sabão natural, vinagre, bicarbonato de sódio, limão e água oxigenada são alguns dos ingredientes que precisa para se tornar num alquimista da limpeza.

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