Passeei a pé por Lisboa um destes domingos. Fui mostrar o Castelo de São Jorge ao meu filho, passámos pelo bar e restaurante Chapitô, descemos à Graça, tomámos um sumo na esplanada a ver a cidade onde nascemos, rumámos ao Chiado, conversámos com Fernando Pessoa e, finalmente, andámos no Elevador de Santa Justa. O que é que isto tem a ver com bem-estar? Tudo! Porque reflete algo de que nos esquecemos amiúde. Sermos simples, para variar. Já se apercebeu da quantidade de ações que faz na lógica do esforço? Na lógica do «Tem de ser» e do «Tenho de conseguir»?

Na convicção de que o sucesso exige trabalho árduo ou que «para emagrecer há que sofrer»? Estas ideias são-lhe familiares? Se sim, bem-vindo ao mito do esforço como base da autovalorização. De facto, a maioria de nós foi educado na lógica do esforço. Mais, ensinaram-nos que aquilo que acontece por acaso ou que nos vem parar às mãos sem esforço não é merecido, pois não custou a conseguir. E esta é a primeira fase do processo de perda da simplicidade, de perda do usufruto simples da vida e das coisas boas que a vida tem para nos oferecer, sem esforço, apenas porque existimos.

A questão é que precisamos de sentir esforço para não sentirmos culpa. É como se o esforço fosse a forma de pagarmos tudo o que consideramos bom na nossa vida. Assim, usamos a capacidade de nos esforçarmos para podermos merecer um emprego de sucesso, uma relação que funcione, filhos maravilhosos, férias em locais paradisíacos, entre muitas outras ideias de sucesso que nos foram sendo colocadas na bagagem da genética social…A pergunta que devemos colocar será então «Precisará do esforço para sentir que merece ser recompensado ou o esforço não é mais do que o preço (elevado) que está a pagar para ser aceite?».

E para quê? Para obter a aprovação dos outros? Ou será o esforço o valor a dar para se aprovar a si mesmo? Para se sentir merecedor? Quando nos esforçamos demasiado, levamos as nossas ações ao limite para atingir determinados objetivos. Colocamos a fasquia tão alta que, se não atingimos o que pretendemos, sentimos culpa, sentimos que não somos suficientemente bons. Cabe perguntar, suficientemente bons para quem? O reverso desta medalha é que, para compensar a frustração do esforço não recompensado, usamos formas de autopunição.

O recurso a formas de autopunição

Comemos demais, recorremos a medicação, isolamo-nos, o nosso corpo adoece. Tudo para taparmos as más sensações que criámos... Sair desta culpa e das ações autopunitivas que nos impusemos vai gerar ainda mais esforço! E, aqui, volta uma nova esperança em nós, a de que se nos esforçarmos muito vamos conseguir. O que não vemos é que estamos a consumir ainda mais a nossa energia vital de cada vez que recomeçamos um novo ciclo. Enquanto contribui para a nossa sensação de segurança, o esforço faz-nos sentir que estamos a fazer algo por nós mesmos, que não estamos agarrados às circunstâncias.

Neste aspeto, o esforço tem algo de positivo. No entanto, se deseja bem-estar estrutural e não apenas momentâneo, o trabalho que terá de fazer é passar da lógica de perseguir as suas metas a todo o custo para a lógica de abrandar, simplificar e verificar, objetivo a objetivo, se pode deixar algum espaço e algum tempo para que as coisas fluam e simplesmente aconteçam. Isto não significa deixar de trabalhar.

Significa apenas eliminar palavras como esforço e dor das suas ações. Ao aliviar a carga que coloca sobre si próprio, fazendo diariamente pequenas ações que o levem ao seu objetivo (esforço moderado em vez da lufa-lufa característica do a todo o custo), estará a permitir que as coisas que deseja aconteçam mais facilmente na sua vida. Só tem um senão, tem de saber o que deseja realmente!

Texto: Teresa Marta (mestre em relação de ajuda e consultora de bem-estar)

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