A psoríase é uma doença inflamatória crónica, imuno-mediada, potencialmente grave e incapacitante, que afeta cerca de 250 mil portugueses. Afeta ambos os sexos de igual forma e, embora se possa manifestar em qualquer idade, a maioria dos casos ocorre entre os 15–30 anos ou entre os 50–60 anos.

À luz das evidências atuais, considera-se que a psoríase tem uma origem multifatorial envolvendo a interação de fatores genéticos, imunológicos e ambientais. Em doentes geneticamente predispostos, a exposição a certos estímulos externos (agentes infeciosos, alguns medicamentos, eventos estressantes, entre outros) promove o aparecimento da doença. Tratando-se de uma doença não contagiosa, é infundado o receio de se poder contrair psoríase nadando numa piscina, partilhando roupas ou contactando com pessoas afetadas.

A psoríase pode associar-se a ansiedade, depressão e isolamento social, impactando negativamente as relações interpessoais, produtividade e carreira dos afetados. O impacto físico, psicológico, social e económico da doença resulta em prejuízo cumulativo ao longo da vida do doente.

É amplamente reconhecido que a psoríase é uma doença sistémica – e não “apenas” de pele – associada a múltiplas comorbilidades, nomeadamente diabetes, obesidade, hipertensão arterial, dislipidemia, síndrome metabólica, doença inflamatória intestinal, artrite psoriática e patologia psiquiátrica. Por conseguinte, preconiza-se uma abordagem holística e multidisciplinar do doente psoriático, tratando não apenas a componente cutânea, mas também as doenças associadas, e promovendo um estilo de vida saudável.

As manifestações da doença podem ser ligeiras (80% dos casos), moderadas ou graves, dependendo da extensão de pele afetada. A variante mais comum, a psoríase em placas, manifesta-se por placas vermelhas e descamativas envolvendo preferencialmente os cotovelos, joelhos, região lombo-sagrada e couro cabeludo, associando-se, frequentemente, a prurido e escoriações resultantes do ato de coçar. Existem, no entanto, outras formas de psoríase, a saber: gutata, inversa, pustulosa, eritrodérmica e artropática. A psoríase artropática é um tipo de artrite inflamatória crónica que ocorre em cerca de um terço dos doentes, em média uma década após os primeiros sinais cutâneos.

Embora não exista uma cura, no sentido estrito, para a psoríase, com os tratamentos atualmente disponíveis é possível a resolução total ou quase total das lesões cutâneas e dos sintomas articulares, permitindo, assim, a melhoria da qualidade de vida do doente. A chave para o sucesso terapêutico passa pela individualização do tratamento, tendo em conta fatores como a extensão da doença, idade, sexo, comorbilidades, recursos disponíveis, capacidade de adesão e a preferência do doente.

Relativamente ao tratamento, existem opções terapêuticas tópicas, que geralmente são suficientes para o controlo das formas ligeiras de psoríase, bem como a fototerapia e fármacos orais e injetáveis (agentes biotecnológicos ou biológicos), indicados nas formas mais graves ou refratárias da doença. Apesar de não serem desprovidos de riscos e efeitos adversos, os últimos são extremamente eficazes e seguros, constituindo, à data, a maior avanço no tratamento da psoríase. No entanto, a sua prescrição obedece a critérios estabelecidos o que, juntamente com as políticas de gestão, o subdiagnóstico e desconhecimento, por parte dos doentes, das terapêuticas disponíveis, constituem um desafio para o clínico e contribuem para o subtratamento e acesso, ainda limitado, a estes fármacos.

Apesar da revolução encetada nos últimos 20 anos no tratamento da psoríase, decorrente da utilização dos agentes biológicos, existem ainda doentes não respondedores ou que desenvolvem efeitos secundários a estes medicamentos, o que leva à sua interrupção. Assim, prevê-se a manutenção da atividade investigacional e o desenvolvimento de novos fármacos, de forma a colmatar as lacunas ainda por preencher na abordagem da psoríase. Adicionalmente, é prioritário combater a discriminação, o isolamento e o estigma social dos doentes afetados, sendo necessária mais informação e consciencialização da população sobre a doença.

Um artigo do médico Paulo Morais, dermatologista no Trofa Saúde Hospital em Alfena e Hospital da Luz Clínica de Amarante.

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