Certamente já ouviu falar em epilepsia. Poderá, inclusivamente, estar a recordar-se de um amigo de infância, de uma colega de trabalho ou de um familiar mais idoso que tem este diagnóstico. Não me surpreenderia, já que se trata de uma das doenças neurológicas mais frequentes, afetando aproximadamente 1 em cada 200 portugueses, não fazendo aceção de classes sociais, sexo ou grupo etário.

Mas verdadeiramente, o que sabe sobre epilepsia? Tem a certeza que algumas das suas convicções não são na verdade apenas mitos? Não se preocupe. Não é incomum as pessoas terem falsas noções acerca desta doença e destes doentes. Procuraremos de forma sucinta abordar algumas delas.

Mito 1 - Todas as pessoas com epilepsia têm convulsões.

As manifestações clinicas de uma crise epiléptica podem ser muito variadas e vão depender da(s)  zona(s) do cérebro envolvida(s), podendo ser tão subtis como uma breve ausência de responsividade, um comportamento automático ou movimentos involuntários limitados a um segmento do corpo.

Mito 2 - Todas as pessoas com convulsões têm epilepsia.

A rpilepsia é uma doença neurológica crónica caracterizada pela existência de crises epilépticas recorrentes, não provocadas. Contudo, em situações particulares, pode existir um insulto neurológico ou sistémico pontual que leva ao aparecimento de convulsões. Uma vez resolvido esse insulto, a pessoa vai deixar de ter crises, pelo que o diagnóstico de epilepsia não pode ser feito. Por incrível que pareça estas crises sintomáticas agudas podem ocorrer ao longo da vida de uma em cada 20 pessoas.

 Mito 3 - Durante uma crise convulsiva deve-se colocar um objecto na boca para evitar que a pessoa sufoque com a língua.

Não se deve colocar absolutamente nada na boca de um doente que está a ter uma crise convulsiva. Ao fazê-lo corre-se o risco que um fragmento desse objecto se parta e vá inadvertidamente obstruir as vias áreas, levando à sufocação. Nesta tentativa podem ainda produzir-se lesões a nível da mucosa oral ou fractura de dentes. O mais correto é colocar a pessoa de lado, de modo a que a língua, pela acção da gravidade, caia para a frente e não para trás. Se possível, deve ainda colocar-se uma peça de roupa por baixo da cabeça e não restringir os movimentos.

Mito 4 - As pessoas com epilepsia têm atraso cognitivo e não podem ter trabalhos intelectualmente exigentes. 

Na maioria das vezes as pessoas com epilepsia são perfeitamente capazes de exercer as suas profissões nas mais diversas áreas, não apresentando quaisquer limitações cognitivas ou físicas. Na verdade, em cerca de dois terços dos casos, as pessoas com epilepsia têm as suas crises controladas sob terapêutica farmacológica, fazendo uma vida perfeitamente normal.

Mito 5 - A epilepsia surge apenas na infância. 

A epilepsia pode surgir em qualquer idade. Existem no entanto dois picos com maior incidência, que são a infância e a terceira idade.

Mito 6 – As pessoas com epilepsia vão ter crises quando expostos a estímulos luminosos.

Apenas cerca de 3% das pessoas com epilepsia apresentam uma maior susceptibilidade a terem crises quando expostas a um dado estímulo luminoso ou padrão visual. Este tipo de fenómeno pode surgir em diferentes síndromes epilépticos, sendo mais comumente observados em crianças e adolescentes.

Mito 7 –As mulheres com epilepsia não podem engravidar.

As mulheres com epilepsia podem engravidar. É importante contudo, que a gravidez seja planeada uma vez que poderá ser necessário um reajuste prévio da medicação de forma a evitar ou minimizar o uso de fármacos que possam causar malformações fetais. Durante a gravidez não se deve nunca parar a medicação anti-epiléptica sem falar com o médico assistente, uma vez que as consequências das crises convulsivas maternas para o bebé é largamente superior ao risco de teratogenicidade associado aos fármacos que temos hoje disponíveis.

Mito 8 –Eu tenho epilepsia, os meus filhos também vão ter.

As causas da epilepsia podem ser genéticas ou adquiridas. De entre as causas adquiridas temos complicações perinatais e traumatismos cranioencefálicos, entre outros. Estas formas de epilepsia adquiridas não são transmissíveis. Em relação às epilepsia genéticas, mesmo estas nem sempre são hereditárias, uma vez que podem resultar de mutações de novo. Em regra e, de uma forma genérica, o risco de uma pessoa que tem o pai, mãe ou irmão com epilepsia desenvolver ela própria epilepsia até aos 40 anos é inferior a 5%.

Mito 9 – As pessoas com epilepsia não podem praticar desporto.

A pessoa com epilepsia não só pode, como deve praticar desporto. Só muito raramente a prática do exercício pode facilitar o aparecimento de uma crise. Na verdade, o benefício associado ao bem-estar físico e psicológico ultrapassa em muito este risco que, em si mesmo, é reduzido. Pode ser contudo necessário adaptar o tipo de exercício ou ter alguns cuidados adicionais que vão variar com o tipo de crises que a pessoa tem e o melhor ou pior controlo da epilepsia.

Infelizmente o estigma social inerente a um diagnóstico de epilepsia permanece e é ainda hoje muitas vezes dramático para os doentes e para as famílias, levando-os a ocultar a sua situação médica. Este estigma resulta em parte destes e outros mitos profundamente enraizados. Que não nos esqueçamos que não há uma epilepsia, mas várias epilepsias e que as pessoas que padecem desta doença são muito mais do que a sua epilepsia.

Um artigo da médica Rute Teotónio, Neurologista e Neurofisiologista do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra.

Um bocadinho de gossip por dia, nem sabe o bem que lhe fazia.

Subscreva a newsletter do SAPO Lifestyle.

Os temas mais inspiradores e atuais!

Ative as notificações do SAPO Lifestyle.

Não perca as últimas tendências!

Siga o SAPO nas redes sociais. Use a #SAPOlifestyle nas suas publicações.