É uma droga tóxica e das mais viciantes. Os resultados de uma pesquisa sobre o impacto da metanfetamina no cérebro, desenvolvida por uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra (UC), permitiram mostrar que esta droga induz a défices de memória.

No entanto, um dos efeitos desta droga poderá também permitir uma nova abordagem para facilitar o tratamento de algumas patologias do cérebro, nomeadamente de tumores cerebrais.

Estas descobertas resultam de um conjunto de estudos para avaliar os efeitos no cérebro da metanfetamina, droga de abuso cujo consumo tem vindo a aumentar na Europa. Desenvolvidos ao longo dos últimos cinco anos por um grupo de investigação liderado por Ana Paula Silva, no Laboratório de Farmacologia do Instituto Biomédico de Investigação da Luz e Imagem (IBILI) da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), em colaboração com o Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, a Universidade de Copenhaga (Dinamarca) e a University College London (Reino Unido).

Num primeiro trabalho, foi provado o impacto da metanfetamina no hipocampo, região do cérebro com um papel fundamental na memória e na aprendizagem. Estudos efetuados, desde o nível molecular até ao nível in vivo, estudos de comportamento animal, permitiram verificar que o uso da droga induz défices de memória. Verificadas estas alterações, os investigadores partiram, então, para o estudo do papel do neuropeptídeo Y no processo.

E foi nesta etapa que surgiu a grande novidade científica. Com o consumo de metanfetamina, o «neuropeptídeo Y que normalmente tem um papel protetor em situações de dano cerebral, no nosso modelo experimental verificámos que está envolvido nos défices de memória», sublinha Ana Paula Silva. «Perde a sua capacidade de proteção», explica ainda a investigadora.

Perante esta revelação, a equipa de Ana Paula Silva, trabalhou numa estratégia para prevenir este efeito da metanfetamina e descobriu que bloqueando um dos recetores do neuropeptídeo Y (o NPY Y2) é possível prevenir os défices de memória. Mais recentemente, o mesmo grupo descobriu que a metanfetamina pode levar a um aumento transitório da permeabilidade da barreira hematoencefálica, barreira que protege o cérebro, impedindo a entrada de agentes patogénicos mas também de muitos fármacos fundamentais para o tratamento de diversas patologias do cérebro.

«Beneficiando deste aumento transitório da permeabilidade da barreira hematoencefálica será possível, com um controlo apertado e adequado, equacionar novas terapêuticas para certas doenças porque poderá permitir passagem de fármacos. Na realidade, a metanfetamina pode ser prescrita nos Estados Unidos da América para o tratamento do Síndrome de Défice de Atenção e Hiperatividade.

No entanto, visto que estamos a falar de uma droga muito viciante, serão necessários mais estudos para compreender melhor os mecanismos celulares que estão por detrás deste efeito ao nível da barreira hematoencefálica», nota ainda Ana Paula Silva, líder do grupo de investigação da Faculdade de Medicina da UC.

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