«Eu já devia estar morto. De acordo com a estatística médica, uma pessoa com a minha doença morre entre dois a cinco anos depois de detetados os primeiros sintomas. Mas eu ultrapassei o limite estatístico», regojiza-se Bernardo Pinto Coelho. Estava a três anos de passar a ser quarentão quando lhe foi diagnosticado esclerose lateral amiotrófica, também conhecida pela sigla ELA. «Decidi não cruzar os braços e ir além do que a medicina consegue hoje propor», diz.

Hoje, aos 42 anos, acredita que se pode curar desta doença neurodegenerativa, para a qual a medicina convencional ainda procura resposta. «Tenho espírito de guerreiro e uma fé absoluta de que vou conseguir vencer esta batalha. Com a ajuda de Deus, da minha família e dos meus amigos. Quando resolvi aceitar que tinha ELA, não foi fácil», reconhece no livro «O que eu aprendi com ELA», publicado pela editora LeYa.

«Demorei três anos e meio a consegui-lo. [Nessa altura] decidi, também, que ia ser feliz. Quando me apareceu esta doença degenerativa, para a qual não há cura prevista pela medicina tradicional, entrei num caminho que me levou a descobrir muitas verdades sobre mim mesmo. Comecei a ouvir o meu corpo e o meu coração de outra maneira», desabafa o DJ, que pode acompanhar no Facebook.

«Passei a aproveitar todos os minutos do dia, a ser mais grato com o que tenho, a viver mais o presente, a não fazer muita futurologia. Aceitar que tenho uma doença que pode ser fatal marcou um novo começo na minha vida», assegura Bernardo Pinto Coelho que, à semelhança do físico Stephen Hawking, que inspirou o filme «A teoria de tudo», se viu obrigado a aceitar as novas limitações.

A doença

Também designada por doença de Lou Gehrig ou doença de Charcot, a patologia é incapacitante. «A ELA pode ter origem genética e hereditária ou, então, surgir porque maltratamos tanto o corpo e a mente que tudo se desregula. É o meu caso, porque na história da minha família não há nenhum episódio conhecido de ELA. No meu caso surgiu porque as minhas mitocôndrias ficaram tristes», refere.

«Vou explicar melhor… Cada célula tem um núcleo e uma mitocôndria e é a mitocôndria que faz os neurónios enviarem as mensagens para os músculos. Na ELA, essas mensagens começam a chegar de forma cada vez mais fraca até não chegarem de todo. É por isso que começamos a ter falta de força muscular», diz o DJ.

No seu caso, não foi diferente. «Primeiro numa mão, depois no braço, na perna, nos pulmões...  As minhas mitocôndrias ficaram tristes com todos os abanões que levei na vida e com a forma como eu as maltratei e foi assim que a ELA apareceu», recorda Bernardo Pinto Coelho.

Veja na página seguinte: O difícil momento da confirmação do diagnóstico

O diagnóstico

Hoje, Bernardo Pinto Coelho está mais resignado. «A vida trata-nos como nós nos tratamos. E eu mal me tratei. Fiz com que as minhas mitocôndrias ficassem stressadas, cansadas, chocadas com o tratamento que eu lhes estava a dar. A ELA surgiu quando estava a viver um período muito complicado a nível profissional. Estava a gerir um restaurante com mais três sócios», relembra o DJ.

«O negócio estava a correr bem. Mas depois surgiu a crise. Comecei a stressar e a ficar preocupado porque me via aflito para pagar os salários. Tinha 10 tonturas por dia, porque durante um mês e meio andei stressado, ansioso e a dormir apenas duas horas por noite, pois ao mesmo tempo que geria o restaurante vendia seguros de vida. As minhas células cansaram-se e, como resultado, comecei a sentir falta de força na mão direita», recorda.

«Falei nisso ao meu pai [médico] e fui ter com o doutor Lobo Antunes, neurologista, que me disse logo que este era um caso especial. Encaminhou-me para o professor Mamede de Carvalho, no Hospital de Santa Maria [em Lisboa]. Tinha quase 37 anos quando soube que tinha ELA», volta a frisar Bernardo Pinto Coelho.

Um novo modelo de vida

A fase inicial foi de choque mas também de ação. «Depois de aceitar a ELA, devido a uma terapia genial do meu psicólogo, o doutor Carlos Fugas, que me recomendou a terapia sintónica, a minha cabeça mudou radicalmente. Esta terapia reduz o stresse interno e a ansiedade, e ajudou ao meu autocontrolo. O início do meu caminho para a recuperação foi uma mudança alimentar drástica», refere.

«Não é fácil», admite, todavia. «Temos de prescindir de uma série de alimentos saborosos, apelativos, reconfortantes, a que nos habituámos toda a vida. Se há uns anos me tivessem dito que passaria a alimentar-me só de carne, peixe, legumes, vegetais, ovos, fruta e frutos secos não teria acreditado. É difícil concebermos a nossa vida sem açúcares, cereais (trigo, centeio, cevada e alguma aveia) e lacticínios», admite.

«É um regime alimentar baseado na chamada dieta do paleolítico, nos alimentos que o homem ingeria quando era caçador/recoletor, os que o corpo está preparado para metabolizar. Tudo o resto são venenos que nos intoxicam e podem conduzir ao stresse das nossas células», esclarece ainda Bernardo Pinto Coelho.

Veja na página seguinte: Onde Bernardo Pinto Coelho vai buscar forças para (sobre)viver

Uma inquestionável força de viver

Nos dias que correm, paradoxalmente, apesar da maior fragilidade muscular, a sua força é grande. «Tenho esperança de que vou ficar totalmente bom. É para isso que trabalho todos os dias e tenho mesmo fé de que é isso que vai acontecer. Mas também me vou preparando para a possibilidade de as mensagens não voltarem a chegar ao corpo todo», admite.

«Pode ser que só cheguem ao antebraço, ao pulso e às mãos, por exemplo. Esta doença é muito triste. Pode tornar uma pessoa solitária no seu sofrimento. Sou crente, mas também tenho os meus momentos de dúvida», assume Bernardo Pinto Coelho. Às vezes, ainda pensa «Porquê eu?», desabafa o DJ.

«A verdade é que esta doença provoca uma tristeza muito profunda, uma solidão que ninguém entende, mas tenho estratégias para afastar os maus momentos. [Recorro a] música, amigos, pensamentos positivos… E acho que estou a ajudar com a mensagem que quero transmitir. Aceitar, lutar, acreditar e ter amor-próprio», aconselha.

O exercício personalizado que serve de treino a Bernardo Pinto Coelho

Para contrariar a doença, recorre à actividade física. «Aprendi que as células têm de descansar. Por isso faço exercício de segunda a sexta-feira e descanso ao fim de semana», revela. «Às segundas, quartas e sextas-feiras faço três horas de exercício físico. 30 minutos de bicicleta ergométrica, uma hora e 45 minutos de musculação, elasticidade, exercícios  de respiração e de equilíbrio e 30 minutos de natação (dez piscinas crawl e duas piscinas costas de 25 metros)  e 15 minutos de sauna», conta.

O programa de treino não se esgota, contudo, aqui. «Às terças e quintas-feiras faço estimulação muscular (pernas e braços) cerca de 50 minutos e cerca de 40 minutos de natação. 28 piscinas de 700 metros , 20 crawl (500 metros), quatro de costas (100 metros) e quatro de pernas (100 metros)», afirma ainda Bernardo Pinto Coelho.

As regras da felicidade para lidar com… ELA!

Com o passar dos anos, Bernardo Pinto Coelho teve de aprender a lidar com a doença. «Arranjei uma estratégia para aceitar as coisas más que me acontecem, para pensar positivo e com bom astral e, incrivelmente, as coisas positivas acontecem mesmo», acredita. O segredo está em:

- «Aceitar o que nos acontece, de bom e de mau. Demorei muito tempo a aceitar a doença, mas quando alterei o chip, tudo mudou para muito melhor e até me apareceu, inesperadamente, a mulher da minha vida», desabafa.

- «Acreditar que Deus sabe de nós. E se nos entregarmos a Deus com um sorriso interior, o retorno será bem melhor do que se ficarmos revoltados e queixosos. Acredito que vou ficar curado, porque sei que estou na terra com um propósito. Estou a ajudar muitas pessoas com e sem a minha doença, o que está a dar-me imenso prazer», refere o DJ.

- «Lutar, nunca desistir, sem autopiedade e com amor-próprio. Lutar é o que continuo a fazer porque parar é morrer», considera Bernardo Pinto Coelho.

Texto: Catarina Caldeira Baguinho com Luis Batista Gonçalves (edição internet)

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