A doença venosa consiste numa disfunção do sistema venoso dos membros inferiores, isto é, o sistema vascular que transporta o sangue da periferia para o coração. «Há uma perda de elasticidade das veias e de cooptação das válvulas que estão no seu interior, de modo que o sangue não progride normalmente da periferia para o coração e vai ficando acumulado no seu interior», explica Eduardo Serra Brandão, cirurgião vascular.

A evolução de todo este mecanismo, da perda da elasticidade da veia e da insuficiência das válvulas, vai fazer com que a doença se vá agravando progressivamente, passando por todos os seus estádios. «É uma doença crónica e, se a pessoa não se tratar, vai sofrer dela. Se se tratar, vive sem problemas», diz-nos o cirurgião vascular.

Afecta mais mulheres ou homens?

Alguns estudos têm sido feitos acerca da incidência desta doença na população. Eduardo Serra Brandão indica que «de acordo com um estudo epidemiológico feito há cerca de uma década, em Portugal, tal como noutros países europeus, cerca de 1/3 da população sofria de doença venosa crónica». Mais recentemente, a Eurotest elaborou um estudo que chegou à conclusão que «mais de dois milhões de mulheres em idade activa sofrem desta doença».

Números alarmantes que nos indicam que o sexo feminino é o prevalecente. Ou seja, apesar da doença venosa crónica afectar também os homens, são as mulheres as que  mais se devem preocupar. Esta realidade deve-se ao facto de terem mais factores de risco, estão sujeitas às terapêuticas hormonais, às gravidezes e têm os seus próprios estrogénios (que têm acção sobre a veia), para além de desempenharem múltiplas funções no dia-a-dia.

«A mulher trabalha fora de casa, no lar, engoma, cozinha, trata dos filhos enquanto que o homem se senta a ver televisão», refere Eduardo Serra Brandão. A doença pode existir logo à nascença, manifestando-se ao longo dos anos. «Tenho situações, embora pouco frequentes, de jovens com insuficiência venosa aos 13 anos. Aos 17 anos, já não é tão pouco frequente quanto isso», acrescenta o especialista.

A doença venosa crónica pode ser tratada logo nos primeiros estádios evolutivos, se o paciente optar por prevenir ou evitar, o mais possível, os factores de risco.

«Existem  múltiplas causas para esta doença, nomeadamente as determinantes e as secundárias», salienta o director do IRV.

«As causas determinantes incluem a genética, a obesidade, as longas permanências de ortostatismo (estar muitas horas de pé), trabalhar em ambientes muito quentes e o uso continuado de terapêutica hormonal feminina, seja ela contraceptiva ou de compensação hormonal», refere ainda. No que respeita aos factores secundários, sabe-se que a doença pode surgir depois de uma intervenção cirúrgica, de um traumatismo ou de uma tromboflebite.

A quem recorrer?

Para o cirurgião vascular, a população, hoje em dia, está bastante mais informada e vai tendo algum conhecimento do que é a doença venosa crónica. «Actualmente, a doença já não é desconhecida, sobretudo devido às acções de formação dos médicos em geral e à informação da população, graças aos meios de comunicação social», refere.

Assim, os doentes procuram ajuda pelos seus próprios meios ou encaminhados pelo seu médico assistente e por ginecologistas, no caso das mulheres. «Ao observar uma paciente ginecologicamente, muitas vezes, o médico detecta que a mesma sofre de doença venosa e encaminha-a para o especialista indicado». Tal situação tem originado uma diminuição do descrédito que era dado à doença no começo da especialidade, muitos mitos associados à doença venosa crónica não permitiam que as pessoas se tratassem.

«Hoje, as pessoas já sabem que os tratamentos são altamente eficazes e têm resultados rápidos, desde que realizados por especialistas correcta e atempadamente. Há muitas situações, sobretudo no homem, mas também na mulher, em que os sinais aparecem antes dos sintomas sem se saber porque motivo isto acontece. Esta é uma doença em que a sintomatologia não está, muitas vezes, relacionada com a gravidade da situação».

Há casos bastante avançados que não apresentam sintomas e há outros em que a pessoa não tem qualquer tipo de sinal mas já tem dores. «Essas pessoas vão tratar-se mais precocemente e sofrer menos no futuro». Mais de metade das pessoas procura directamente o especialista, até porque o Serviço Nacional de Saúde só aceita as situações mais desenvolvidas, em casos muito avançados. Quem tiver necessidade de fazer uma secagem de veias, terá de recorrer ao sector privado.

Tratamento precisa-se!

A partir dos primeiros sintomas, os pacientes devem procurar ajuda. «Devem evitar todas as situações consideradas como factores de risco, como por exemplo, o sedentarismo. Há que fazer exercício físico moderado, evitar longas permanências em pé (a menos que as suas profissões o exijam) e usar contenção elástica, desde que não seja um acto de sacrifício (meias e collants elásticas)».

Para além disso, é importante adequar o tratamento ao perfil do paciente. «Cada caso é um caso, a pílula pode não ter qualquer risco para algumas pacientes e noutras ser completamente proibida», esclarece Eduardo Serra Brandão.

A terapêutica é sugerida consoante o estádio e o tipo de doença. «Em qualquer estádio da doença, a terapêutica medicamentosa com flebotropos e a contenção elástica devem ser instituídas. Quanto aos flebotropos, devem seleccionar-se os que, para além de outras acções terapêuticas, actuam sobre a microcirculação, eliminando assim a sintomatologia e evitando as situações de dermatite, eczema venoso e a úlcera de perna», indica o cirurgião vascular.

Por outro lado, segundo o especialista, há que analisar se as varizes têm indicação cirúrgica ou não. «Caso não haja indicação cirúrgica, temos que recorrer a um tratamento intitulado escleroterapia (secagem de varizes), que consiste na injecção de um medicamento próprio que vai fazer com que a veia seque. Pode ser realizado em várias sessões, dependendo da gravidade, do membro, do tipo de variz e da sensibilidade do paciente».

Existe a alternativa, em situações muito restritas (por exemplo, pessoas  psicologicamente incapazes de levar uma injecção) de recorrer ao laser transcutâneo. «No entanto, o laser, para além de ser muito dispendioso, não tem resultados tão rápidos como o tratamento com injecções. São poucas as pessoas que se tratam com laser», explica Serra Brandão.

Principais sintomas

- Sensação de dor nas pernas (pernas cansadas).

- Edemas da perna e do pé.

«Nos estádios iniciais da doença ou seja, nos períodos pré-varicosos, as veias dilatadas, as varizes, não são evidentes, mas à medida que a doença progride, o seu aparecimento é notório», explica Eduardo Serra Brandão.

Sinais que chamam à atenção

- Telangiectasias, isto é, pequenas dilatações venosas também denominadas por aranhas vasculares (derrames).

- Varicose reticular (varizes mais volumosas semelhantes a uma rede de cor azulada).

- Varizes propriamente ditas (cordões venosos com evidência na perna).

Como tratar?

Existem três tipos de cirurgia:

- Fase inicial (ou seja, nos casos tratados a tempo): Podem ser realizadas intervenções cirúrgicas com laser endovascular. Esta cirurgia consta na destruição da veia com raio laser, o que representa uma intervenção sem anestesia geral, uma recuperação extremamente rápida sem internamento. O doente tem três a cinco dias de baixa e o pós-operatório é excelente. Os resultados são muito bons.

- Situações mais desenvolvidas: A cirurgia também não pressupõe anestesia geral nem internamento mas o laser já não é suficiente para tratar as veias afectadas. O pós-operatório aumenta para 15 dias, embora em todas as situações a pessoa saia a andar pelo seu próprio pé.

- Nas situações mais avançadas: A cirurgia implica anestesia geral com internamento hospitalar. Dependendo do desenvolvimento da doença, o pós-operatório pode ir de um mês a mês e meio.

Texto: Cláudia Pinto com Eduardo Serra Brandão (cirurgião vascular e director do Instituto de Recuperação Vascular, IRV)

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