Em 2015, realizaram-se em Portugal 483 transplantes de rim, 249 transplantes hepáticos, 50 transplantes cardíacos, 27 pancreáticos e 15 de pulmão, segundo dados do Instituto Português do Sangue e da Transplantação. Estes números traduzem um aumento em relação aos últimos anos mas, ainda assim não atingem os números recorde de 2010.

Apesar deste aumento, em Portugal como em todos os países, os órgãos disponíveis não conseguem suprir as necessidades. Atualmente encontram-se inscritos em Lista de Espera para transplante renal 1996 doentes, para transplante cardíaco 50 doentes, para transplante de pulmão 132 doentes e para transplante de pâncreas 36 doentes.

Os órgãos de cadáver disponíveis não suprem as necessidades. O número de doentes renais crónicos em Lista de Espera para transplante continua a aumentar.

O tempo médio também tem aumentado e situa-se em média em cerca de 5,5 anos. A doação em vida permite aumentar o número de transplantes, reduzir o tempo de espera e será uma oportunidade do doente renal crónico poder ser transplantado antes de entrar em diálise. Para aumentar este tipo de transplante é necessário que a população esteja informada. A promoção da doação através de campanhas é uma excelente forma de chamar atenção e levar a que as pessoas procurem informação.

No dia 20 de julho de 1969, realizou-se o primeiro transplante de rim pela equipa do Professor Linhares Furtado, nos Hospitais Universitários de Coimbra. Este transplante, de dador vivo, foi o início de um percurso pautado por grandes variações mas, que a partir de 1983 se tem vindo a afirmar como uma área de sucesso da medicina Portuguesa.

A Sociedade Portuguesa de Transplantação (SPT) desde há 8 anos que assinala o dia 20 de julho, para comemorar o primeiro transplante em Portugal e para chamar a atenção para a importância da transplantação como forma de tratamento mais eficaz, melhor sobrevivência e melhor qualidade de vida do doente. Este facto mais evidente no transplante renal, é no entanto, transversal a outros órgãos. Esta data permite também informar e divulgar à população geral que se pode ser transplantado durante muitos anos e com qualidade de vida.

No entanto, um órgão transplantado não é eterno. Não existe propriamente um tempo máximo de duração. Muitos doentes transplantados vivem com um transplante funcionante e falecem com o órgão a funcionar. A literatura internacional refere que o tempo médio de vida de um transplante, no caso de rim, é de cerca de 12 anos, mas chama-se a atenção de consideramos “tempo médio” porque, como se sabe, no nosso país existem muitos transplantados com mais de 20 anos de transplante.

Comportamento do doente é fator determinante

A vida média de um órgão transplantado depende do próprio órgão, do dador em que foi colhido, das circunstâncias do transplante mas também muito do comportamento do doente transplantado. Quando se fala que depende do órgão, deve-se ao facto de que atualmente os dadores são mais idosos e com fatores de risco associados (idades superiores a 65 anos, hipertensão arterial, morte por AVC que terão risco de sobrevivências inferiores (características estas que levam a que sejam referidos na literatura como órgãos de critérios expandidos).

O comportamento do doente transplantado é também um fator muito importante a ter em conta na sobrevivência de um órgão, na medida em que o incumprimento de medicação, nomeadamente da terapêutica imunossupressora, poderá levar a episódios de rejeição.

A rejeição é um processo de resposta do organismo a algo que não é reconhecido como seu. Assim, a resposta imunológica do organismo reconhece que o órgão não lhe pertence. A terapêutica imunossupressora diminui as defesas do organismos, isto é diminui a reposta imunológica e portanto reduz o risco de rejeição.

Nas situações de incumprimento de terapêutica imunossupressora, podem ocorrer  episódios de rejeição, que podem ou não ser detetados (rejeição subclínica) e que repetidos ao longo do tempo levam a lesão cumulativa, podendo culminar com a perda do transplante e no caso em que o órgão em causa é o rim, levar ao regresso à diálíse. No caso de outros órgãos a situação poderá levar à morte do doente pela não existência de técnicas substitutivas.

Cuidados

Para diminuir o risco de perda do órgão, o doente deve ser educado para cumprir as tomas de medicação e a horas certas. Considera-se má aderência à terapêutica não só a toma errática como ao não cumprimento dos horários.

Poderá parecer que este último fator não é importante mas, nos casos da imunossupressão este tipo de não cumprimento faz alterar os níveis o que é prejudicial para o órgão. Neste sentido, existem  medicamentos de toma única diária que podem ser uma mais valia para ajudar o doente no cumprimento da terapêutica prescrita. No entanto, nem todas as substâncias permitem a toma única.

O doente deve ser informado de que existem outros fármacos e substâncias que podem interferir com a absorção e metabolismo do imunossupressor e assim alterar os níveis sanguíneos. A importância dos níveis deve-se ao facto de que se estes estiverem muito elevados podem lesar o órgão (toxicidade dos imunossupressores) e se os níveis estiverem baixos (níveis infra-terapêuticas) podem conduzir à rejeição. Antes de tomar qualquer medicamento o doente deve perguntar ao seu médico assistente se o pode fazer para minimizar os riscos de rejeição.

Para além, destes fatores  também é importante a aderência a estilos de vida  saudáveis para evitar o risco de obesidade, dislipidemia (aumento dos valores de colesterol e triglicerídeos) e hipertensão arterial que podem contribuir para a perda de enxerto. Neste último caso, também a aderência de terapêutica anti-hipertensora é muito importante. No fundo, o doente transplantado tal como a população geral deve adoptar estilos de vida saudável, praticando exercício físico e promover a evicção tabágica.

O maior grau de compatibilidade também contribui para a duração do órgão. Os órgãos mais compatíveis têm menor risco de rejeição.

Por outro lado, o tipo de órgão, de cadáver vs vivo, também tem implicação na duração do transplante. Os rins de dadores vivo porque têm menor tempo de isquemia e muitas vezes com melhor compatibilidade com o receptor, dado que a maioria são de familiares, têm melhores resultados e portanto maior tempo de duração.

De referir ainda que apesar de muitas vezes os doentes possuírem candidatos a dador vivo, este não é compatível quer pelo grupo sanguíneo quer pela existência de anticorpos contra o dador que poderão levar à rejeição.  Nestes casos e considerando o transplante renal, existe o Programa Nacional de Doação Cruzada Renal (PNDCR) que se assume como mais uma alternativa para a transplantação. Este programa consiste na troca de rins entre pares que não o podem fazer diretamente e desta forma, através de uma inscrição neste programa a nível nacional, tenta-se encontrar um órgão que seja compatível.

Em resumo, o transplante assume-se como uma terapêutica de eleição para alguns tipos de doença com melhor sobrevivência e qualidade de vida. A escassez de órgãos faz com que o tempo de espera para um transplante ainda seja elevado apesar de Portugal se encontrar entre os países com maior taxa de colheita e de implantação a nível mundial.

A longevidade de um órgão depende muito do próprio doente e a aderência terapêutica é um dos fatores que contribui para a sua maior durabilidade.

Para colmatar a necessidade de órgãos e dado que o transplante de órgãos de cadáver não conseguem este objetivo a doação em vida é uma alternativa cada vez mais necessária e com melhores resultados.

As campanhas que promovem e informam a população geral sobre a doação, nomeadamente a doação em vida são um meio que poderá levar ao seu aumento e assim contribuir para diminuição dos doentes em Lista de Espera. A SPT lançou uma campanha neste sentido com o mote “Doar um rim faz bem ao coração” no sentido em que doar um rim faz com que o dador se sinta realizado e feliz por ajudar um ente querido (ajuda o coração).

Ao comemorar este dia a SPT não só pretende chamar a atenção para este feito da medicina portuguesa como procura divulgar e levar a população geral a procurar informação sobre esta temática.

As explicações são da médica Susana Sampaio, especialista em Nefrologia no Centro Hospitalar S. João do Porto.

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