Durante largos anos, era relativamente comum ouvir as pessoas dizer que sofriam de “reumatismo”. De facto, esta expressão está de tal forma enraizada na cultura popular, que ainda hoje muitos a referem quando têm dores nas articulações e se sentem limitados por este motivo.

Na verdade, não existe “reumatismo”, mas sim doenças reumáticas, e são mais de 100. Uma dessas doenças, e talvez a mais conhecida, é a artrite reumatoide (AR).

Que doença é esta?

A artrite reumatoide (AR) é uma doença reumática crónica, que se manifesta através da inflamação das articulações, podendo, no entanto, atingir outros órgãos como os olhos, o pulmão ou a pele. Atinge preferencialmente o género feminino, manifestando-se geralmente entre os 20 e os 50 anos, embora possa ter início também em crianças ou idosos. Em Portugal, estima-se que atinja cerca de 0,7% da população.

Apesar de ser uma das perguntas mais comuns aquando do diagnóstico, não sabemos ainda a causa para o seu aparecimento. Sabemos sim que resulta provavelmente da conjugação de fatores genéticos e ambientais, nomeadamente a exposição contínua ao tabaco e o excesso ponderal, que contribuem não só para o seu desenvolvimento como também para a sua gravidade.

Sintomas

As principais articulações atingidas são as mãos, os punhos e os pés, mas pode atingir qualquer outra articulação do corpo. Tal como referido anteriormente, provoca inflamação crónica das articulações, que ficam edemaciadas, dolorosas e por vezes quentes.

A dor é mais intensa durante a manhã, e melhora ao longo do dia. Esta inflamação provoca também limitação dos movimentos, associando-se ainda a rigidez articular, tipicamente ao acordar, e que é superior a 30 minutos, dificultando a realização de gestos finos nas primeiras horas da manhã. Está também provado que os doentes com AR têm maior incidência de depressão e ansiedade, limitando ainda mais a sua qualidade de vida.

Apesar dos esforços de divulgação dos últimos anos, muitos doentes sofrem ainda as consequências mais nefastas desta doença, arrastando sintomas e limitação durante meses ou anos até ao correto diagnóstico e tratamento.

Riscos do diagnóstico tardio

Este atraso diagnóstico agrava o prognóstico da doença, uma vez que, quando não tratada de forma adequada, é deformante e erosiva, destruindo as articulações muitas vezes nos primeiros anos de evolução. Assim, o diagnóstico precoce é essencial para prevenir danos futuros, evitando que as articulações se deformem de forma irreversível.

O diagnóstico é feito clinicamente, com observação do médico reumatologista, e geralmente com recurso a exames auxiliares de diagnóstico, nomeadamente exames ao sangue e exames de imagem. Uma das particularidades diagnosticas da AR é a presença de anticorpos no sangue, nomeadamente o fator reumatoide e o anti-CCP. A sua presença não é, no entanto, obrigatória para firmar o diagnóstico, uma vez que em alguns doentes nunca são detetados. Por outro lado, estes marcadores podem ser positivos em pessoas sem doença, de forma que o seu pedido deverá ser feito apenas quando clinicamente justificável. Outra das características é a elevação dos marcadores de inflamação sistémica no sangue, principalmente nos casos de doença ativa não tratada adequadamente ou refratária aos tratamentos.

Em relação aos exames de imagem, as radiografias são praticamente normais nas fases iniciais, mas quando estamos perante doença avançada ou não tratada podem surgir sinais de destruição articular, também chamados de erosões.

Tratamento

As opções de tratamento têm evoluído muito nos últimos anos, e longe vão os tempos em que os doentes faziam apenas elevadas doses de corticosteroides (“a cortisona”), que terminavam invariavelmente em excesso de peso, doenças metabólicas precoces e problemas de autoestima daí decorrentes. Atualmente, existem disponíveis no mercado diversos fármacos para controlar a AR, com potência e eficácia adequada para todos os doentes. O reumatologista prescreve os vários tratamentos de uma forma sequencial, uma vez que cada doente irá responder ao tratamento de forma individual, e, portanto, não existe um medicamento igualmente eficaz para todos.

Infelizmente, uma das consequências da pandemia da Covid-19 foi o atraso no diagnóstico de muitas doenças, entre as quais as doenças reumáticas como o AR. Este atraso fica a dever-se a vários fatores, nomeadamente o medo inicial da população na procura de cuidados de saúde, e posteriormente a concentração de recursos disponíveis para tratar os doentes Covid. Outra das consequências da pandemia foi o sedentarismo decorrente das medidas de confinamento, com consequente aumento de peso, que agrava a sintomatologia das doenças articulares.

Assim, apesar de a AR ser uma doença crónica, e ainda sem possibilidade de cura, é expectável que com o tratamento e vigilância adequados seja eficazmente controlada. Desta forma, o doente fica livre de sintomas, e capaz de uma vida plena na esfera pessoal, social e profissional.

Se sofre de algum destes sintomas, procure um reumatologista.

Um artigo do médico Tiago Meirinhos, Coordenador da Unidade de Reumatologia do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa e Secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Reumatologia.

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