«O atraso de quatro horas de um voo da TAP é uma das razões para estarmos aqui». A justificação, vinda do presidente da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), João Carvalho das Neves, arrancava gargalhadas da plateia e desvendava como tinha surgido a iniciativa inédita que acontecia numa universidade lisboeta, uma conferência com um investigador norte-americano promovida em parceria pela Direção-Geral da Saúde, pela ACSS e pelo Instituto Macrobiótico de Portugal e organizada pela Secretaria-Geral do Ministério da Saúde.

Trazer a Portugal «o professor Colin Campbell, cujo currículo inclui quatro décadas de investigação sobre nutrição e saúde», contou o responsável, tinha-se tornado um objetivo após ele próprio, impressionado com a consistência dos resultados de «estudos laboratoriais e empíricos», ter distribuído vinte exemplares do livro «The China Study» (Benbella Books) a responsáveis do Serviço Nacional de Saúde, depois de o ter lido enquanto aguardava o embarque do voo da TAP.

O estudo da China

No início dos anos da década de 1980, Colin Campbell, investigador bioquímico na Universidade de Cornell, formou equipa com o director de um laboratório público de investigação chinês, um colega da Academia Chinesa de Ciências Médicas e um epidemiologista da Universidade de Oxford.

Os resultados de um inquérito nacional sobre as taxas de mortalidade por 12 tipos de cancro na China dos anos do período de 1970, abrangendo mais de 880 milhões de pessoas, faziam-nos questionar as razões das «variações massivas» entre municípios, sendo a população «relativamente homogénea» em termos genéticos. Em busca de respostas, conceberam e conduziram o maior estudo epidemiológico alguma vez feito sobre a relação entre estilo de vida e risco de doenças.

Selecionaram 65 municípios rurais e semi-rurais (cuja maioria da população vivia e se alimentava no mesmo local ao longo da vida) e aplicaram questionários sobre o estilo de vida e análises ao sangue a 6.500 adultos (com idades entre os 35 e os 64 anos), recolheram amostras de urina, analisaram o que algumas famílias comiam em períodos de três dias e amostras de alimentos de mercados locais.

A influência da proteína animal

Os resultados revelaram «mais de oito mil associações estatísticas significativas entre vários factores alimentares e doenças», das quais «muitas apontavam para a mesma descoberta». «As pessoas que comem mais alimentos de origem animal têm mais doenças crónicas e as que comem mais alimentos de origem vegetal são mais saudáveis e tendem a escapar a doenças crónicas», relata Colin Campbell no livro.

Esta conclusão contestava os cânones da nutrição, mas era consistente com os estudos experimentais que tinha conduzido em animais, ao investigar os mecanismos bioquímicos de formação do cancro. Uma pesquisa financiada pelo National Institutes of Health, a American Cancer Society e o American Institute for Cancer Research, durante 27 anos, indicava que «as dietas baixas em proteína inibiam a formação do cancro pela aflatoxina, independentemente da dose desta toxina cancerígena administrada».

«E, depois de iniciado o cancro, bloqueavam dramaticamente o seu crescimento subsequente», refere ainda o estudo. As doses de proteína com que os animais se alimentavam «eram as que os humanos normalmente consomem», avança ainda o documento.

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Animais versus plantas

Na conferência, o investigador, que tem 80 anos e foi criado na quinta de produção de gado e laticínios do pai, apresentou a sobrevalorização da importância da proteína como um dos «principais problemas da nutrição na atualidade». Falou sobre a forma como, ao longo da história, foi passando a ser considerada sinónimo de carne e ambas de civilização e rebateu a ideia de que a proteína da carne tem «melhor qualidade».

Referindo-se aos estudos sobre o papel da proteína animal no desenvolvimento do cancro, corrigiu aquela expressão dizendo que «as proteínas animais são mais eficientes do que as das plantas» mas questionou «A que custo?». Argumentou que «a proteína é essencial, mas é um problema em doses elevadas» e comparou a composição dos alimentos de origem vegetal com a dos de origem animal.

Só os primeiros, afirmou, fornecem antioxidantes, hidratos de carbono complexos e vitaminas, enquanto os segundos, tal como os alimentos processados, são mais ricos em gordura e proteína. O seu consumo, tendencialmente excessivo, deve por isso ser moderado ou até mesmo reduzido.

Nutrição holística

O título provocador da sua apresentação, «Não saber realmente de nutrição pode salvar vidas», traduz a sua crítica ao pensamento nutricional contemporâneo, que qualifica como «redutor» e diz ter gerado «muita má ciência». A nutrição, diz, «representa os efeitos altamente sinfónicos de inúmeros nutrientes, mecanismos e resultados», já que «os químicos dos alimentos que comemos estão envolvidos em reações que funcionam de forma articulada».

Assim, recomendações, rótulos, suplementos e, em geral, informação «baseada nos nutrientes ou químicos que os alimentos fornecem é simplista» e «confunde as pessoas». Como alternativa, defende a importância de «mais pensamento sobre padrões dietéticos globais e alimentos no seu todo». Por isso, o padrão alimentar que preconiza resume-se em poucas palavras: «100 por cento à base de alimentos integrais de origem vegetal».

A alimentação ideal que o especialista preconiza

A dieta que defende é a que ele próprio e a família adotaram em 1992, após uma transição de 15 anos, que acompanhou a viragem das suas convicções como cientista. «O consumo de produtos animais e/ ou processados fornece-nos coisas que não nos beneficiam e acarreta um consumo menor de alimentos de origem vegetal», justifica. O que está em causa, explicou à Prevenir, é a qualidade de vida.

«Pessoas com doenças cardiovasculares não precisam de tomar estatinas, de colocar stents, de fazer bypass, basta alterarem a dieta para obterem resultados notáveis. Podemos curar a diabetes tipo 2 em dias, as pessoas deixam de tomar medicação em semanas. E, mesmo em pessoas com diabetes tipo 1, a dose de medicação baixa», defende.

Sublinhando a necessidade de acompanhamento médico nestes casos, assegura que «o nosso corpo está sempre a tentar restaurar a saúde». «A única coisa que temos de fazer é dar-lhe os recursos certos», acrescenta ainda o especialista.

Veja na página seguinte: A relação entre a ingestão de carne e o aumento do número de doenças

6 ideias-chave a ter em conta

O que é mais importante reter dos dados revelados por Colin Campbell:

1. O estudo desenvolvido na China revelou que, entre a população estudada, quem comia alimentos de origem animal tinha mais doenças crónicas do que quem preferia os de origem vegetal.

2. Estudos com animais revelam que dietas baixas em proteína inibem a formação de cancro induzida pela administração da toxina cancerígena aflatoxina, independentemente da dose administrada. Depois de iniciado o cancro, este tipo de alimentação bloqueia dramaticamente o seu crescimento.

3. A proteína de origem animal não é necessariamente melhor do que a fornecida por fontes vegetais.

4. A proteína é essencial para o organismo, mas não deve ser consumida em doses elevadas.

5. Apenas os vegetais fornecem antioxidantes, hidratos de carbono complexos e vitaminas. Já os alimentos de origem animal são mais ricos em gordura e proteína.

6. O ideal é «tentar evitar todos os produtos de origem animal, mas sem se preocupar se tiver de ingerir pequenas quantidades», defende mesmo o especialista.

O que devemos comer para substituir a carne?

Em resposta às correntes que apelam a uma redução maciça do consumo de carne, muitas pessoas interrogam-se sobre o que devem comer em substituição deste alimento. «[Pode comer] tudo o que quiser, com muita variedade, de qualquer alimento de origem vegetal, integral e não refinado», defende Colin Campbell.

A ingerir sem limites

A fruta (sobretudo laranja, kiwi, pimento, maçã, coco, tomate, abacate, courgette, morangos, mirtilos, abóbora, melão, pera, manga, amoras, beringela, papaia, bolota, romã e pêssego) surge no topo da lista, seguida de vegetais com flor (brócolos e couve-flor), vegetais com hastes e folhas (espinafres, alcachofra, alface, couve, repolho, espargos, acelga, aipo, nabiça, rúcula, manjericão, coentros, algas, salsa e ruibarbo) e raízes (batata, cenoura, beterraba, cebola, alho, nabo, gengibre, rabanete e couve-nabo).

A lista de inclui ainda legumes e leguminosas (feijão-verde, branco, preto, feijão de soja, ervilha, amendoim, grão-de-bico e lentilhas), cogumelos (botão-branco, portobello, shiitake, cremini, baby bella e ostra) e frutos secos  (nozes, amêndoas, macadâmia e pecan, caju, avelã e pistacho), bem como cereais integrais (trigo, arroz, milho, milho-miúdo, sorgo, centeio, aveia, cevada, trigo sarraceno, quinoa e espelta).

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 A consumir com muita moderação

Hidratos de carbono refinados (massas exceto as integrais, pão branco, bolachas, açúcar e a maior parte dos bolos e produtos de pastelaria), óleos vegetais adicionados (óleo de milho, de amendoim e azeite) e peixe (salmão, atum e bacalhau) lideram esta lista. Se tende a consumir muitos destes alimentos, procure reduzir a sua ingestão.

A limentos a evitar

A carne (bifes, hambúrgueres, banha de porco e aves como o frango e o peru) fazem parte da lista de produtos que devem ser evitados, tal como os lacticínios (leite, queijo e iogurtes). Ovos e produtos que os incluam (como a maionese) também integram esta lista.

Texto: Rita Miguel com Colin Campbell (investigador bioquímico)