O Tozé é muito conhecido. Pelos vizinhos, é certo, mas não deixa de ser um reconhecimento e, convenhamos, é tudo uma questão de proporção. Na verdade, o seu nome real nem sequer é Tozé, essa era a alcunha do seu avô António José e, posteriormente, do seu pai. O seu nome convencional é Rui, o alternativo é Tozé. A sua alcunha é um nome amistoso e querido que carrega todo um passado geracional. Quando diz que, convencionalmente, o seu nome é Rui, as pessoas reagem a frio, refutando a evidência do registo civil. O Tozé é uma pessoa muito científica, só acreditando na evidência. Já a sua irmã Mizé, cujo nome convencional é Patrícia Raquel (a mãe e a avó chamavam-se Maria José), acredita em tudo o que lhe parece transcendente. Segundo diz, curou um torcicolo no estômago com pedras quentes nas costas e nunca mais acordou com eructação a alho. O Tozé não acredita em qualquer terapia com pedras, porque a evidência demonstrou-lhe ser possível torcer o pé numa delas.

Curou um torcicolo no estômago com pedras quentes nas costas e nunca mais acordou com eructação a alho

Mizé acredita em tudo aquilo que é natural porque, naturalmente, já se tramou muitas vezes na vida. Como tal, crê nessa experiência. É que, se de forma natural, a vida lhe tem corrido mal mas continua viva e com saúde, há que manter essa dose mínima eficaz de coisa nenhuma. Herdou esta convicção do seu tio que, antes de ir para a guerra, foi aconselhado por um especialista da vida a introduzir um dente de alho no rabo. A verdade é que voltou de lá com vida. Com menos uma perna, é certo, mas também era a perna que tinha o pé em que o sapato ficava sempre mais apertado. Nem se importou, disse que foi o melhor que lhe podia ter acontecido. Esse mesmo tio orgulha-se de ter usado uma única coisa convencional na vida: o preservativo. E, mesmo assim, usou sempre dois. Entre cada um, colocava piri-piri (natural, claro!). Se rebentasse o de cima, ardia à companheira, se rebentasse o de baixo, ardia ao tio da Mizé. Era um homem tão precavido que até a água bebia somente natural e sem gás. Achava que aquelas bolhinhas estavam cheias de produtos medicinais e que o arroto era um efeito colateral dos químicos.

A Mizé sempre foi costureira. Tinha um volume de trabalho enorme e aproveitava todos os bocadinhos para fazer arranjos, inclusive enquanto cozinhava. Uma vez, enquanto tinha a comida ao lume, aproveitou para fazer a bainha a umas calças quando espetou a agulha no dedo, adormecendo instantaneamente. Ficou tão profundamente anestesiada que esteve uma tarde inteira a babar a sopa. À noite estava demasiado salgada. A sorte é que toma uma infusão de rabanadas e filhoses que lhe controla a tensão arterial, não precisando sequer de a medir.

Vive com o avô que é obstipado mas que, segundo dizem, sofre de homeopatia. Isto porque vai à casa de banho... e não faz nada. Devido ao avançar da idade do seu avô, decidiu adoptar um animal que lhes fizesse companhia e adoptou um cão alternativo. Na verdade é um gato, mas ela acredita tanto que é um cão que há dias ele fugiu para o telhado e a Mizé achou tudo perfeitamente natural. Esperou que ele voltasse, não fazendo (e passo o pleonasmo) homeopaticamente nada. No fim, gabou-se do resgate quando este apareceu, pelas próprias patas, novamente dentro de casa.

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