É difícil assumir para o próprio, é difícil assumir perante a família, mais difícil o é perante a sociedade, em especial a entidade empregadora e os próprios colegas de trabalho, que muitas vezes acabam por segregar quem está ou já esteve deprimido.

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O grande risco é não se procurar o tratamento adequado e, não raras as vezes, o profissional adequado para o efeito. O culto do “natural e nada de químicos” e a ideia retrógrada e pouco informada de que “o psiquiatra é para loucos” fazem muitas (demasiadas) vezes a própria pessoa ou os mais próximos, na tentativa genuína de ajudar, procurarem tratamentos alternativos à Medicina Tradicional ou a consulta do neurologista "porque a doença é dos nervos".

Para se tratarem doenças psiquiátricas, como a cada vez mais frequente depressão, o psiquiatra é o médico adequado. As doenças dos “nervos” tratadas pelos neurologistas são doenças estruturais, chamadas de orgânicas, como por exemplo a doença de Parkinson, a demência de Alzheimer, a esclerose múltipla…

A sobreposição de sintomas na doença psiquiátrica e neurológica acontece, as intervenções do psiquiatra e do neurologista muitas vezes complementam-se, mas na depressão é o médico psiquiatra aquele que deve ser consultado. O trabalho articulado com o psicólogo é uma mais-valia, sendo a conjugação dos tratamentos psicofarmacológico e psicoterapêutico o mais adequado e que mais beneficia o doente em grande parte das vezes.

A depressão mata. A depressão não tratada pode levar à negligência dos próprios cuidados ao ponto de a vida ficar em risco

A desinformação acerca dos psicofármacos pode comprometer o tratamento. Não se devem confundir antidepressivos com ansiolíticos, por exemplo. Os primeiros tratam, não viciam e, a terem algum papel no que diz respeito à memória e às funções cognitivas, será o de fazer melhorar as mesmas, quando estas estão comprometidas pela depressão.

Alguns antipsicóticos e alguns antiepilépticos têm a função de estabilizar o humor, tantas vezes necessária no tratamento farmacológico da depressão, pelo que não será de estranhar que o doente deprimido saia da consulta com uma prescrição de um medicamento que (também) está indicado para o tratamento da esquizofrenia e da epilepsia. Pode parecer que faz pouco sentido a quem não é profissional desta área da saúde, mas que a estranheza não faça descontinuar ou não iniciar o tratamento que tem o poder, de facto, de salvar a vida da pessoa.

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A depressão mata. A depressão não tratada pode levar à negligência dos próprios cuidados, como por exemplo de higiene e de alimentação, ao ponto de a vida ficar em risco. Pode levar à negligência dos cuidados de dependentes, como por exemplo os filhos, cujo crescimento ficará afetado a todos os níveis pela doença de um dos pais (ou dos dois).

A depressão pode condicionar a deterioração cognitiva e aumenta o risco de evolução para demência. A depressão pode fazer-se acompanhar de sintomas psicóticos, embora apenas em algumas formas específicas da doença, e assim poder por em risco a própria integridade e a de terceiros. A depressão pode levar ao suicídio.

Então, por que razão não se procurar ajuda enquanto a doença não assumiu estas proporções tão graves? Por que razão não se fazer o tratamento adequado e durante o tempo necessário? Por que não encarar-se esta doença do Sistema Nervoso Central como aquilo que ela é, e nada mais do que é, e desvalorizar-se ou esconder-se, como decerto não aconteceria no caso de uma pneumonia ou de uma hipertensão arterial?

Um artigo da médica Liliana Paixão, especialista em Psiquiatria na Corclínica.

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