O projeto, pioneiro em Portugal e inspirado num modelo de Madrid (Espanha), está a ser implementado no Centro Hospitalar de São João (CHSJ), integrado no Serviço de Humanização desta unidade de saúde.

Não se trata de um serviço de atendimento clínico, aliás, sublinharam à agência Lusa os responsáveis pelo projeto, as pessoas que se socorrem deste serviço não são doentes, podem não ser utentes do hospital, nem ter um vínculo com esta unidade, são pessoas que estão num processo de perda ou situação emocional e precisam de ajuda.

"A marca mais dramática da existência é o sofrimento, a dor e muitas vezes o morrer. Há que perceber que para além de cada doente está alguém que sofre", explicou o diretor do Serviço de Humanização do CHSJ, Filipe Almeida, acrescentando que "as preocupações do hospital não estão apenas na área da tecnologia e da ciência, ainda que essas vertentes sejam cruciais, mas também na humanização".

Desta convicção surgiu - em setembro de 2014, embora estivesse a ser desenhado desde 2010 - o Centro de Escuta, onde voluntários formados em escuta ativa "ouvem de forma especial" e disponibilizam-se para o que for necessário, ainda que possa ser para estar calado.

"A escuta ativa é mais do que ouvir. É estar com todo o meu ser no outro que necessita que o escute na sua plenitude", descreveu o responsável pelo Centro de Escuta do CHSJ, Eduardo Carqueja.

Estima-se que no hospital São João morram em média 2.000 pessoas por ano. Percebendo que cada pessoa pode influenciar cinco, a situação de perda, de luto, pode englobar cerca de 10.000 pessoas.

Eduardo Carqueja, que também é psicólogo e fez uma formação pós-graduada em luto, avançou que 15 a 20% das pessoas podem desenvolver "um luto complicado", o que portanto corresponde a 1.500 a 2000 mil pessoas que podem desenvolver luto patológico, ou seja uma situação que pode atingir uma depressão e/ou comportamentos de muita ansiedade.

"A nossa primeira missão é o bem-estar das pessoas que perdem alguém, mas também e muito importante a prevenção", analisou, acrescentando que há desconhecimento sobre a temática do luto.

Atualmente o Centro de Escuta do CHSJ conta com cerca de 15 voluntários, oriundos de várias áreas como psicologia, ação social e enfermagem, entre outras, e cuja motivação é a perceção de que a perda é algo de muito significativo.

O serviço contabiliza neste momento cerca de duas dezenas de pessoas atendidas num "processo contínuo" que termina quando quer a pessoa que é escutada, quer quem escuta, percebe que é altura de terminar ou de fazer o encaminhamento para outros serviços.

Mas os responsáveis acreditam que haverá em breve um ?boom' de procura deste Centro de Escuta, uma vez que querem sair da fronteira do hospital. Na forja está, avançou Eduardo Carqueja, um protocolo com o Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Porto Oriental.

Para além de familiares e amigos, adultos ou crianças, que perderam um ente querido, o Centro de Escuta do CHSJ atende profissionais de saúde, nomeadamente para prevenir situações de ‘stress' profissional.

As sessões podem ser individuais ou em grupo, nas quais se privilegia a "ajuda mútua", com "sensibilidade e respeito" para com vai expressar os seus sentimentos.

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