11 de março de 2014 - 14h32
Os funcionários do setor público estão mais expostos aos fatores de risco psicossocial, manifestando um “acentuado alheamento” face à sua realidade profissional, revela um estudo da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde (APPSO).
O estudo consta do Relatório de Avaliação de Perfil de Risco Psicossocial – A gestão de Pessoas e Organizações Saudáveis”, que vai ser apresentado na quarta-feira na Comissão parlamentar de Saúde, a pedido da APPSO.
Uma das conclusões do estudo, que avaliou 38.791 casos de trabalhadores entre 2008 e 2013, refere que o “setor público manifesta um maior risco de exposição aos fatores de risco psicossocial” do que o setor privado.
No setor público, 86% dos trabalhadores apresentam elevado risco de falta de energia para enfrentar desafios que lhes são colocados e 93% de não estarem suficientemente implicados nas suas tarefas laborais.
Já 93% apresentam um elevado risco de não controlarem o que estão a viver no contexto laboral, 87% manifestam um fraco sentimento de justiça e 92% apresentam um elevado risco de desenvolver cinismo (forma que encontra para se relacionar com os outros e que não traduz o que ele é na realidade).
Segundo a investigação, os funcionários do setor público apresentam “um perfil mais preocupante, denotando um acentuado alheamento face à sua realidade profissional enquanto encarada como execução”.
“Estamos perante uma situação que traduz incapacidade quase generalizada para gerir sentimentos despoletados pelas experiências laborais e necessidade percebida de ajustamento a exigências e mudanças impostas”, sustenta.
No privado, não foram encontrados fatores de elevado risco, sublinha o estudo, adiantando que este setor apresenta níveis de vigor, de realização e de perceção de justiça mais elevados do que o setor público.
Em declarações à Lusa, o presidente da APPSO apontou os cortes nos salários dos funcionários públicos com uma das razões que estão na base desta situação.

“O setor público entende que está a ser mais prejudicado nesta questão do que o setor privado”, disse João Paulo Pereira.
O estudo comparou a área da Educação, no público e no privado, tendo verificado também uma maior exposição aos fatores de risco” no setor público.
Os autores do estudo observam que 2012 e 2013 foram “anos de intensa agitação na área da educação”, um facto pode “exercer uma influência direta” nos resultados obtidos.
No setor da Saúde, não foram encontradas diferenças significativas entre o público e o privado.
João Paulo Pereira adiantou à Lusa que Portugal tem, neste momento, “um quadro de avaliação de riscos psicossociais assustador”, com custos indiretos muito elevados no trabalho e na saúde.
Contudo, esta situação pode ser combatida através do desenvolvimento de competências com os trabalhadores, um trabalho que cabe fundamentalmente às empresas.
“As empresas e os empresários portugueses neste momento estão a reagir e não a agir”, lamentou o responsável.
“Se as empresas aproveitarem algumas horas de formação anuais que têm por trabalhador para fazer workshops e desenvolver ações na área de desenvolvimento de competência e na área do apoio” poderão reduzir os níveis de absentismo e grande parte das variantes negativas do trabalho”, defendeu.
Lusa

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