A vida estudantil mudou radicalmente há duas semanas, quando as escolas fecharam as portas para tentar conter a disseminação do novo coronavírus, que já infetou mais de quatro mil pessoas e provocou 76 mortes em Portugal.

Uma das novas rotinas passou a ser procurar colegas que não “aparecem nas aulas” ou que não se consegue contactar, segundo relatos de encarregados de educação, alunos e professores.

Na primeira semana de aulas à distância muitos alunos faltaram às aulas, mas a maioria das escolas não baixou os braços e conseguiu trazê-los de volta, a pouco e pouco, muitas vezes com o envolvimento de toda a comunidade escolar.

A mãe de um aluno do 1.º ciclo de Lisboa contou à Lusa que recebeu emails da professora a pedir ajuda para encontrar alguns meninos. Os mails são enviados para todos os encarregados de educação e alunos na esperança de haver quem conheça os faltosos.

Mariana, uma adolescente do ensino secundário de Lisboa, também recebeu essas mensagens na primeira semana de aulas à distância.

Numa turma com menos de 30 alunos “faltavam cinco ou seis colegas”, disse à Lusa. Na lista de nomes estava uma amiga sua, que vive numa instituição de acolhimento.

Mariana fez tudo para falar com a colega que não tem telemóvel nem computador. Foi através de uma outra rapariga, também institucionalizada, que conseguiu.

“No início eu mandava-lhe as fichas através da colega que tem telemóvel, mas depois ela começou a usar o computador da instituição e agora já acompanha as aulas”, que chegam por email, contou a adolescente.

Mariana é um dos casos aplaudidos pelo presidente da Federação Nacional de Associações e Pais (Confap), Jorge Ascenção: “Tem de haver o envolvimento de todos e de cada um de nós. Basta que um falhe para que se promova as desigualdades entre alunos”, alertou.

Mais de 5% das famílias com crianças com menos de 15 anos não têm internet em casa, cerca de 20% dos alunos não têm computador, um utensílio fundamental para conseguir fazer os trabalhos pedidos pelos professores.

Mas mesmo entre os que têm os equipamentos necessários, houve quem não tivesse percebido que as aulas não tinham acabado quando as escolas fecharam ou aproveitou a desculpa para entrar de férias mais cedo.

Antonino Silva é professor numa escola de Coimbra e contou à Lusa que na primeira semana de aulas faltaram muitos alunos.

Antonino só descansou enquanto a situação ficou resolvida. Começou por anotar os nomes dos faltosos e alertar a direção de turma para avisar os pais que havia aulas.

“Houve miúdos que aproveitaram para dizer que não conseguiam aceder às aulas porque não tinham dados móveis mas eu avisei as famílias que as operadoras tinham oferecido 10 GB de dados a todos os clientes”, recordou o professor, acrescentando: “Eu conheço-os bem e sei que todos têm telemóvel, por isso não há desculpas para faltar às aulas”.

Depois de muito trabalho, Antonino voltou a ter as turmas compostas, mas ainda é normal faltarem “dois ou três alunos".

“Dizem que foram visitar a avô, outros que foram às compras com a mãe”, contou. Uns justificam-se pessoalmente, outros mandam recados pelos colegas. Antonino vai avisando: Quem não estiver na aula tem falta.

Como é que sabe quem está? “Quando chegam à aula têm de cumprimentar”. A aula é agora numa plataforma de e-learning, onde Antonino consegue manter algumas rotinas mas também já disse aos alunos que “podem aparecer despenteados, de pijama e até sem lavar os dentes. Mas têm de aparecer!”.

Os alunos de Antonino são do 3.º ciclo, têm entre os 13 e os 14 anos. Nesta faixa etária, os pais são fundamentais para controlar a assiduidade dos filhos, alertou.

Jorge Ascenção lembrou que “as famílias têm uma grande responsabilidade que é levar os filhos à escola que, agora, é dentro de casa”. Neste momento, é preciso mais atenção e responsabilidade. Não basta ligar os computadores, é preciso estar atento e fazer os trabalhos.

Caso contrário, alertam os professores, o abandono e insucesso escolar poderá aumentar.

Há alunos que já no tempo das aulas presenciais estavam sempre desligados. "Os professores não se conseguem conectar com todos". Nas turmas, há sempre estudantes que preferiam estar noutro sitio. Há sempre alunos que não gostam da escola.

Jorge Ascenção lembrou que, no limite, as comissões de proteção de menores podem ser chamadas a intervir, mas também recordou que é preciso estar atento porque existem relatos de pais que dizem nunca terem sido contactados durante estas duas semanas de ensino à distância.