O país está cada vez mais envelhecido e ao mesmo tempo o interior desertifica. Porque não dar qualidade de vida aos idosos e ao mesmo tempo repovoando o interior?

João Martins viu nessa realidade uma oportunidade.

Se, em 2001, residiam em Portugal 101,6 idosos por cada centena de jovens, em 2019, eram já 161,3 pessoas idosas.

“Os números mostram uma pirâmide etária invertida, um país e uma Europa envelhecidos. Percebi que aqui se encontrava uma ameaça, mas também uma oportunidade”, comenta João Martins, mestre em Ecologia Humana e Problemas Sociais Contemporâneos.

O professor universitário defende a necessidade de aliar a “dignificação das pessoas numa fase final da vida à prestação de cuidados de saúde e valorização das localidades”.

O exemplo de Águeda

A grande vantagem do formato Aldeia Lar é permitir à pessoa, além de um acompanhamento médico, a oportunidade de “cuidar de si própria, ir à mercearia, ao restaurante”, integrando-a na comunidade e estimulando a economia local.

Para João Martins, "é urgente refletir sobre se o modelo de lar mais comum atualmente representa o que desejamos" para o nosso futuro.

Se não for, é preciso “promover uma mudança pacífica”.

Não questiona a qualidade do trabalho feito nas atuais estruturas residenciais mas, sublinha, “a pandemia pôs a nu a fragilidade do modelo que temos”.

João Martins está a planear um projeto piloto de Aldeia Lar em Pias, apoiado pela Câmara Municipal de Serpa.

Segundo a sua proposta, deverão ser asseguradas aos idosos as condições para que vivam na própria casa o máximo de tempo possível.

As residências já desabitadas da aldeia de Pias serão adaptadas para receber outros idosos, familiares, ou, até, para turismo rural.

“O público alvo do projeto não são apenas os alentejanos, são os portugueses espalhados pelo mundo, ou os estrangeiros que procuram o nosso país pelo clima, gastronomia e segurança”, esclarece o autor do modelo.

Uma Aldeia Lar semelhante ao modelo que João Martins idealizou foi criada em Odemira, em 2006.

De acordo com o atual presidente da Casa do Povo de São Martinho das Amoreiras, Manuel Loução, o projeto foi desenhado por estudantes de arquitetura, com o intuito de chamar os casais do interior desertificado do concelho para apartamentos onde estariam mais acompanhados.

A iniciativa era ambiciosa, mas não se desenvolveu como esperado.

A lotação da instituição está atualmente esgotada, a lista de espera já alcançou as 100 pessoas, mas os casais não procuram os seis apartamentos disponíveis, que dão aos utentes maior autonomia.

Nos últimos três anos enquanto presidente da IPSS, Manuel Loução conheceu apenas um casal que habitou estas casas. O habitual é duas pessoas partilharem um quarto, a sala e a cozinha.

O edifício da Casa do Povo, constituído por apartamentos, lar e centro de dia, está, atualmente, em obras de ampliação e remodelação.

O lar, que tinha apenas capacidade para 26 utentes, passará a ter 39 camas, para garantir a sustentabilidade financeira da instituição.

“O litoral de Odemira é totalmente diferente do interior. São Martinho das Amoreiras é no interior, onde a população vivia da agricultura de subsistência. As reformas são muito pequenas, e os familiares muitas vezes não têm meios para pagar as despesas de um lar”, explica Manuel Loução.

Na Casa do Povo as mensalidades dos utentes são “baixas, de 18 euros mensais, no centro de dia, a 650 euros, no lar”.

Para o presidente, os apoios financeiros do Estado ainda ficam “muito aquém” das despesas.

“A direção de instituições como a nossa trabalha por amor à camisola. Não temos grandes possibilidades. Era bom que os lares evoluíssem, que fossem criadas mais Aldeias Lar, mas muitas vezes não é possível. Não basta ter boa vontade”, lamenta.

A aldeia social para idosos em Águeda

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