Os runners são uma "tribo" que não tem idade, género ou classe económica definida. Movem-se pela paixão de correr e pela superação de objetivos pessoais. Uns mais simples, outros mais arrojados.

Os objetivos podem passar por conseguir pela primeira vez correr cinco quilómetros seguidos. Ou dez. Ou vinte. Ou a tal maratona. Aos runners não interessa em que lugar se fica na tabela. O que interessa é correr mais e melhor do que no dia anterior. E as metas são sempre uma vitória.

A questão é que, ao serem puros amadores, pessoas como nós que de um dia para o outro se "lembraram" de começar a correr, muitas vezes não fazem sequer ideia dos perigos que o corpo humano enfrenta enquanto corre. Aliás, como em qualquer outro desporto.

Resolvemos ajudar e falámos com alguns especialistas por forma a perceber como devemos encarar o desporto e a corrida e como nos devemos preparar. Uma coisa parece certa: há que encarar tudo com algum respeito.

Adaptar programas de treino

Mário Espiga Macedo, especialista em Cardiologia e Medicina Interna no Hospital Lusíadas Porto, admite que começar a correr e pensar desde logo em participar numa maratona deve ser posto de lado. Será que correr 42 quilómetros é mais saudável e traz mais benefícios para a saúde? Obviamente que não. "A realização de uma corrida de 42 quilómetros não é a mesma coisa para um jovem de 20 anos habituado a fazer algum exercício e com certeza com um peso ideal ou para uma pessoa de meia-idade (55 anos) com pouca ou nenhuma prática de exercício, obeso e com outros vários problemas de saúde", explica o médico.

Vale a pena saber que a frequência cardíaca máxima para um jovem de 20 anos são 200 batimentos por minuto e que 80% dessa frequência máxima são 160 bat./min.

Mas se falarmos num indivíduo de 55 anos, a sua frequência máxima é de 165 bat./min. e 80% são 132 bat./minuto. "Como se pode ver, estamos a falar em realidades completamente diferentes. A isto devemos acrescentar que enquanto a prevalência teórica de doença cardíaca no jovem é desprezível, já no indivíduo de 55 anos ela é bastante significativa".

Por outro lado, e se falarmos na constituição osteoarticular e muscular de um e outro indivíduo, estamos também perante duas realidades completamente diferentes. Ou seja, há que ter um programa com cargas de treino completamente díspares. "Mas em ambos os casos tem de haver um acompanhamento regular por um treinador que programe e adapte as cargas de treino aos objetivos a atingir. "

Mais: se por acaso é daqueles runners que passados dois meses já tem a tal maratona em mente, lembre-se que isso não se compadece com umas corridas ao fim de semana. Há que haver um plano de exercício regular e progressivo!

Os sinais a que deve estar atento

Em relação aos cuidados a ter, mais uma vez não é o mesmo falar para uma pessoa com 20 anos de idade ou com 50 anos. Para todos há que considerar o perfil psicológico de cada um. "Fazer 42 quilómetros a correr obriga a uma capacidade de sofrimento e resistência psicológica que não está ao alcance de todos. Ambos deverão ter uma avaliação clínica global, que incluiu exame analítico com estudo de sedimento da urina e avaliação cardiovascular com prova de esforço e ecocardiograma. A avaliação por um técnico de medicina para saber do seu perfil para a realização desse tipo de exercício pode ser aconselhável", alerta o especialista.

Os sinais de alerta são muito variados. Por isso, caso sinta tonturas, palpitações simples ou prolongadas durante ou após o esforço, sensação de desmaio, fadiga precoce, fadiga de difícil recuperação ou qualquer tipo de queixas osteoarticulares ou musculares que não lhe pareçam normais há que consultar um especialista.

É obrigatório ir ao médico

Mas repare: há um princípio que é fundamental. "Fazer exercício é uma forma de relaxamento e de melhoria da forma física e cardiorrespiratória e não uma luta contra o cronómetro, nem a preparação para uma competição que não existe", alerta Mário Espiga Macedo.

Ah, e sim, é obrigatório ir ao médico antes de começar a pensar entrar nestas aventuras. Aliás, nas palavras deste especialista, "quando estamos a falar em fazer a maratona é criminoso não o fazer". Claro que para quem apenas vai fazer exercício físico de forma regular, a vigilância médica depende sempre da idade de cada um e da carga de treino que vai realizar. "O termo saudável é sempre de grande subjetividade: só se sabe se se é hipertenso medindo a tensão arterial, a mesma coisa para a diabetes, para além de haver certas cardiopatias congénitas potencialmente fatais para os praticantes de desporto que só se descobrem no exame médico".

Exercício físico faz bem, mas…

Victor Gil, coordenador da Unidade Cardiovascular do Hospital Lusíadas Lisboa, também é da opinião que o exercício físico intenso não faz bem ao coração, embora alguns parâmetros possam melhorar, como por exemplo o HDL – colesterol, o "bom colesterol". "Ao contrário, só pessoas com um sistema cardiovascular a funcionar bem podem participar nesse tipo de provas.

Informação recente sugere que o treino para maratona tem um modesto benefício nalguns parâmetros associados a risco cardiovascular (colesterol, triglicéridos) mas sem qualquer certeza sobre o impacto potencial na melhoria do prognóstico cardiovascular nesses indivíduos".

Apesar de tudo, é óbvio que o exercício físico é uma das mais eficazes formas de promoção ativa da saúde, ao proporcionar um equilíbrio cardiovascular, metabólico, muscular e respiratório. "Os seus efeitos benéficos não se esgotam nos aspetos físicos, englobando o tratamento da ansiedade e do stresse, em muitos casos promovendo a sociabilidade", explica Victor Gil.

O cardiologista acrescenta mesmo que no tratamento de certas doenças como a diabetes e a obesidade, o exercício ocupa um lugar central e, de múltiplos tratamentos até agora testados (e, muitas vezes, ainda publicitados), é a única medida que comprovadamente retarda o envelhecimento.

Há riscos que têm de ser evitados

No entanto, praticar exercício supõe colocar os músculos, o sistema osteoarticular, o aparelho cardiovascular, numa situação de sobrecarga, para a qual poderemos não estar preparados. "Muitas doenças cardíacas cursam com uma longa fase silenciosa perfeitamente compatível com uma vida normal e sem quaisquer sintomas em repouso ou com atividade física moderada mas que se podem revelar em condições de esforço mais intenso".

Nessas circunstâncias, diz o cardiologista, pode até existir o risco de morte súbita. "São conhecidos e sempre muito mediatizados os casos de pessoas que morreram durante a prática desportiva, bem como casos de complicações graves em pessoas que, desconhecendo que estavam doentes ou subvalorizando a sua doença, iniciaram programas não supervisionados de exercício". Ou seja, muito respeito.

Nas crianças e jovens, com intensa atividade física que desenvolvem em brincadeiras e jogos, além da vigilância médica que felizmente hoje é proporcionada durante a infância, é muito difícil que alguma doença grave possa existir sem quaisquer sintomas ou sem suspeita clínica (por exemplo deteção de "sopros na auscultação).

O cardiologista Victor Gil alerta que, já nos adultos, sobretudo nos adultos sedentários que iniciam um programa de exercício ou o retomam após um período longo de inatividade, é indispensável uma avaliação cardiovascular prévia para iniciar o programa de exercício com segurança, além de permitir uma individualização do programa a aplicar a cada um.

As lesões mais comuns

Um dos aspetos que mais condiciona os runners são as lesões que, teimosas, muitas vezes aparecem. Gilda Patrício, fisioterapeuta no Hospital Lusíadas Albufeira, esclarece que as lesões mais associadas a esta prática desportiva aparecem quer nos atletas profissionais quer nos não profissionais.

No entanto, alerta que os não profissionais que não seguem uma orientação adequada de metodologia de preparação e treino acabam por estar mais suscetíveis ao aparecimento das lesões causadas pelos microtraumatismos de repetição das estruturas osteotendinosas dos membros inferiores, e da coluna vertebral.

"Os traumatismos de repetição são os percursores de fraturas de fadiga do pé e perna, nos atletas profissionais, devido aos níveis de intensidade de treino a que se sujeitam, sendo as lesões mais frequentes desta modalidade as tendinites aquilianas e rotulianas, as periostites tibiais, as lesões dos músculos gémeos, e as lombosacralgias".
Por isso, no contexto atual, e devido à massificação da prática do running devemos ter em conta o escalão etário e nível de prática. "A prevenção começa com a educação do atleta acerca dos princípios básicos relacionados com a prática, dando importância ao calçado adequado para cada tipo de pé (normal, supino ou prono)".

No entanto, diz Gilda Patrício, o que parece ser transversal a todos os níveis como fator mais importante na prevenção é um método adequado de treino, que contenha todos os aspetos, do planeamento e aquecimento, ao treino propriamente dito e retorno à calma.

Ao nível da alta competição, a especialista assume que a aplicação prática de um programa de prevenção de lesões, adequado a cada atleta, que tenha em conta os fatores de risco da modalidade e cuidados preventivos, será a medida mais económica e importante, na evolução desta prática no nosso país.
Conclusão: se for um verdadeiro runner, porque não esperar mais um ou dois anos até começar a pensar na tal maratona? Até lá, sempre se pode ir divertindo, "apenas" correndo.

Não esquecer

Avaliação do risco cardiovascular. No início de um programa de exercício deve ser feita uma avaliação do risco cardiovascular. No entanto, este não é igual para todos e acompanha a prevalência das doenças à medida que a idade vai avançando.

Quem deve fazer

A avaliação do risco cardiovascular deve ser feita em todas as pessoas sem quaisquer sintomas que queiram iniciar um programa de exercício:
- Que tenham mais de 50 anos;
- Que tenham menos de 50 anos mas apresentem 3 ou mais fatores de risco (hipertensão, tabaco, colesterol elevado, diabetes ou história familiar positiva de doenças cardiovasculares).

Neste caso justifica-se uma avaliação mais aprofundada do risco cardiovascular que pode incluir uma Prova de Esforço ou testes mais modernos e sofisticados que já permitem predizer a presença de doença das artérias em fases ainda não sintomáticas como a determinação da carga cálcica das artérias coronárias por TAC cardíaca.

Os diabéticos, pelo grande risco cardiovascular que apresentam, merecem uma atenção redobrada.

A doença cardiovascular prévia não contraindica o exercício, que aliás pode ser uma das medidas terapêuticas. No entanto, esse tipo de exercício, gradual e progressivo, tem que ter orientação médica, idealmente em programas de reabilitação cardíaca.

No caso particular dos hipertensos, particularmente em obesos, o exercício pode ser uma forma eficaz de tratamento, podendo até diminuir ou mesmo dispensar o uso de fármacos. Uma vez mais, o programa tem que ser individualizado pois a pressão arterial pode subir demasiadamente durante o esforço, o que pode implicar cuidados e exigir especial atenção.

Por Rita Duarte

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