A 8 de junho de 2018, o mundo recebeu a notícia que não esperava. Chefe de cozinha, escritor, também apresentador de televisão e ativista, o norte-americano Anthony Bourdain suicidara-se no quarto de hotel em França, país onde gravava para o pequeno ecrã.

Nascido em 1956, Bourdain alcançou o estatuto de estrela mundial à boleia de programas como “Não Aceitamos Reservas”, “Cozinha Confidencial - Aventuras no Submundo da Restauração”, misto de viagens exploratórias, aventura, mas também intervenção social, crítica e uma generosa dose da personalidade irreverente do apresentador.

Três anos volvidos sobre o desaparecimento de Anthony Bourdain, os escaparates portugueses vão acolher o seu livro póstumo. A 21 de setembro, chega às mãos dos leitores “Viagens Pelo Mundo: Um Guia Irreverente” (Casa das Letras), obra assinada por Bourdain, embora concluída pela assistente de longa data, a jornalista Laurie Woolever, a quem o chefe de cozinha chamava “meu tenente” e com quem trabalhava desde 2006 (antes, em 2002, Laurie ajudou Bourdain a rever e testar as receitas do primeiro livro: “Cozinha Confidencial - Aventuras no Submundo da Restauração”).

O mundo tal como o viu Anthony Bourdain no seu livro póstumo
créditos: Casa das Letras/Michal Kuzmierkiewcz

“É duro e solitário ser coautora de um livro sobre as maravilhas das viagens pelo mundo, quando o colega de escrita, esse mesmo viajante, já não viaja por este mundo”, escreve Laurie Woolever, na introdução do guia que foi preparado numa única reunião com o chefe norte-americano a quem chamava Tony.

“Será que o mundo precisava de mais um guia de viagens e que nós precisávamos de o escrever? Em março de 2017, quando o Tony e eu começámos a debater a ideia para este livro – um atlas do mundo visto através dos olhos dele (e da objetiva da televisão) - eu não me sentia inteiramente convencida”, admite Laurie também na introdução do livro. Uma hora de conversa no apartamento do chefe de cozinha em Nova Iorque convenceu a jornalista a avançar com o livro: “tínhamos delineado um plano para o livro, uma janela aberta para o que formara a sua compreensão e apreciação de alguns dos lugares mais interessantes do mundo enquanto ele os explorava e documentava infatigavelmente”.

É duro e solitário ser coautora de um livro sobre as maravilhas das viagens pelo mundo, quando o colega de escrita, esse mesmo viajante, já não viaja por este mundo.

No presente título, a experiência de uma vida é compilada em forma de guia de viagens, a três tempos divertido, irreverente e prático. As mais de 500 páginas da obra fazem périplo por geografias tão díspares como a Austrália, Marrocos, Nigéria, Reino Unido, Vietname, Gana, Índia, Estados Unidos da América, Trinidad e Tobago, sem esquecer Portugal, com visitas a Lisboa e ao Porto. Mais de 40 paragens que compilam centenas de milhares de quilómetros percorridos, sem nunca dispensarem o olhar crítico do autor, mas também informações sobre o país, conselhos essenciais, como chegar, o que comer, onde ficar e, nalguns casos, o que evitar.

O mundo tal como o viu Anthony Bourdain no seu livro póstumo
Ilustração de Wesley Allsbrook. créditos: Casa das Letras

Ao longo da obra, as intervenções de Bourdain - retiradas de entrevistas e dos programas televisivos que fez - são complementadas com textos escritos por amigos, colegas e familiares, que relatam inúmeras histórias, de lugares que conheceram com ele, como é o caso das recordações de visitas a França, Uruguai e à costa da Nova Jérsia do irmão, Christopher Bourdain. Histórias enriquecidas pelas ilustrações de Wesley Allsbrook.

Vou aos sítios, volto. Conto-vos como esses sítios me fizeram sentir. Recorrendo a poderosas ferramentas como fotografias fantásticas, uma edição impecável, a mistura de som, a correção das cores, a música.

A abrir “Viagens Pelo Mundo: Um Guia Irreverente”, as palavras de Anthony Bourdain servem como uma afirmação de intenções do autor e mensagem aos leitores: “nunca foi minha intenção ser repórter, crítico, defensor. Também nunca foi minha intenção providenciar às pessoas ‘tudo’ o que elas precisavam de saber sobre um determinado lugar — ou mesmo uma visão imparcial ou abrangente. Sou um contador de histórias. Vou aos sítios, volto. Conto-vos como esses sítios me fizeram sentir. Recorrendo a poderosas ferramentas como fotografias fantásticas, uma edição impecável, a mistura de som, a correção das cores, a música (que é com frequência composta especificamente para o efeito) e produtores brilhantes, consigo — no melhor dos casos — fazer com que se sintam um pouco como eu me senti na altura. Pelo menos espero que sim. É um processo de manipulação. É também um processo que me dá uma satisfação profunda”.

“Viagens Pelo Mundo: Um Guia Irreverente” é prefaciado por Ljubomir Stanisic, admirador confesso de Bourdain: “percebo agora que me sentia (sinto!) zangado com o teu desaparecimento. Não podias. Não podias mesmo! Tudo o que me deste, tudo o que deste aos cozinheiros, à gastronomia, ao Mundo... Abriste as portas por nós. Abriste-nos os olhos. Escancaraste-nos as mentalidades. Derrubaste barreiras, acabaste com ‘fronteiras’, destruíste preconceitos. Não sabes, mas ajudaste-me tanto...! Neste ‘Atlas do Mundo’ que se segue, mais do que dicas de viagem, estão as tuas entranhas, os teus nasty e nada-nasty bits. É bom voltar a eles”, escreve Ljubomir Stanisic, lembrando que Bourdain, que conheceu em Lisboa em 2011, morreu no dia em que completava 40 anos.

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