“Sempre tive uma relação boa com o guia, neste momento não quero entrar em polémicas. Vou aguardar uma resposta formal, neste momento sei que o restaurante tem a estrela até novembro”. Henrique Leis, chefe de cozinha e proprietário do restaurante de nome homónimo em Almancil, no Algarve, contactado pelo SAPO Lifestyle, reage desta forma ao anúncio do guia Michelin que não aceita o pedido de renuncia à estrela Michelin que o estabelecimento ostenta há 19 anos sucessivos, desde 2000.

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Recorde-se que a 12 de julho, Henrique Leis, brasileiro a viver em Portugal há 25 anos, enviou aos responsáveis do referido guia, uma carta em que declara ter sido com “grande honra e prestígio que durante 19 anos eu e a minha equipa fizemos parte deste guia, no entanto, gostaríamos a prestar o mesmo serviço mas sem a pressão da manutenção da estrela”.

Agora, e em declarações ao Boa Cama Boa Mesa, Ángel Prado, diretor de relações exteriores do Guia Michelin, afirmou que “faz parte das regras do guia não poder renunciar à estrela”. Em termos concretos, os critérios que levam à atribuição das estrelas não passam “pela vontade dos chefes, mas pelas avaliações feitas anualmente pelos inspetores” do guia.

henrique leis
Varanda do restaurante Henrique Leis, em Almancil.

Henrique Leis terá de aguardar até 20 de novembro de 2019, momento em que se realizará em Sevilha a gala de atribuição das estrelas para o ano de 2020, para saber se o seu restaurante perde, ou não, a estrela Michelin. Face ao cenário de ver corroborada a estrela, o proprietário do restaurante Henrique Leis confessa que “ainda não pensei nesse cenário. Neste momento estou concentrado a fazer aquilo que mais gosto, a minha cozinha, com a mesma exigência que tenho colocado em todos estes anos no que apresento”.

Leis assume que desde que remeteu a carta de renuncia à estrela se sente “um homem aliviado, sem a pressão de sentir que cada cliente que entra no restaurante é um inspetor do Guia Michelin. Porque toda a gente está à espera de encontrar a estrela em cada prato que sirvo. Isso causa uma enorme pressão”.

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Face ao cenário de receber novamente a estrela em novembro de 2019, Henrique Leis, afirma que “ainda não pensei nessa questão. Neste momento tomei esta decisão, sinto-me aliviado. Tenho um enorme respeito pelo guia e pelos inspetores, mas esta foi uma decisão ponderada com as minhas filhas. No dia em que sentir que não estou a corresponder aos meus critérios de exigência, deixo o comando do restaurante”, concluí.

Recorde-se que já este mês de julho Marc Veyrat, um dos chefes de cozinha mais mediáticos de França e que este ano perdeu a sua terceira estrela Michelin, anunciou a sua saída do guia, alegando uma "profunda incompetência". No entanto, tal como agora, os responsáveis do guia recusaram-se a aceitar a solicitação Marc Veyrat de retirar da lista o seu restaurante La Maison des Bois, localizado em Manigod, no leste de França.

Famoso chef francês anuncia saída do guia Michelin mas direção não aceita o pedido
Marc Veyrat, um dos chefes mais mediáticos de França que este ano perdeu a sua terceira estrela Michelin. Também ele pediu a renuncia do galardão. créditos: Jean-Pierre CLATOT / AFP

Pressão mediática, custos, pouca liberdade criativa, ansiedade, são alguns dos argumentos que nos últimos anos têm levado chefes de cozinha a abdicarem das estrelas Michelin conquistadas, ou mesmo a recusá-las à partida.

Um dos casos mais recentes de recusa das estrelas Michelin, prende-se com o temido e intempestivo chefe de cozinha britânico Marco Pierre White ao recusar a visita dos inspetores do Guia ao seu restaurante asiático The English House. Um “não” perentório do homem que, ainda na casa dos 30 anos, devolveu à procedência as três estrelas do seu restaurante. Corria 1999 e White considerava que o galardão não tinha grande significado.

No feminino, Karen Keygnaert, chefe de cozinha do norte da Bélgica, na região da Flandres e a única mulher daquele país a deter uma estrela Michelin (Restaurant A'Qi) recusou-a quando, em 2016, decidiu abrir um restaurante com uma equipa constituída somente por mulheres, a Cantine Copine.

Henrique Leis, nasceu no Maranhão. Em 1982 começou a trabalhar como chefe de cozinha no seu restaurante Bem Feito, no Rio de Janeiro. Desde então teve a oportunidade de trabalhar com chefes europeus, como Paul Bocuse, Pierre Troisgros, Guy Savoy, Gaston Lenôtre e Pierre Gagnaíre. Passou por Itália, Alemanha, entre outros países. Foi em Portugal, no Algarve, que Henrique Leis realizou “o seu grande sonho”, como sublinha na apresentação que faz na sua página na internet, “o de abrir o próprio restaurante, em 1993”.

Em 2000, o restaurante foi agraciado com uma estrela no guia Michelin. Estrela que mantém até ao presente, entre os 26 restaurantes nacionais com o referido galardão.

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