
Lisboa tem os seus rituais. Há quem diga que é o pôr-do-sol visto da Graça, outros falam do primeiro café da manhã. Mas há também quem procure mais do que vistas ou rotinas e prefira conhecer espaços na cidade e viver experiências. No Chiado, entre fachadas com história e ruelas onde a cidade parece sussurrar segredos, há um edifício que não se limita a existir — impõe-se. Podemos dizer que o Palácio Chiado é mais do que um espaço de restauração. É um convite para viver Lisboa com outra intensidade, num encontro entre o passado e o presente, aliando sabor com memória, sob tetos que já ouviram confidências de condes e sonhos de barões.
Erguido em 1781 para acolher a nobreza lisboeta, este palacete setecentista é hoje um dos cenários mais emblemáticos da capital, onde a arquitetura clássica e a estética contemporânea convivem com naturalidade. A escadaria, numa pedra polida pelo tempo, leva-nos até salas onde a arte da mesa e a arte do convívio se entrelaçam, e onde cada refeição se pode transformar num capítulo de algo maior. Ali, sob tetos pintados à mão e candelabros que parecem flutuar entre passado e presente, a experiência começa antes sequer de se escolher um prato.

Mas o Palácio não é lugar para se ficar apenas à mesa e antes da refeição, o convite é sentar no bar do primeiro piso para conhecer a mais recente carta de cocktails de assinatura. Da responsabilidade do chefe de bar Hudisson Santos, este guia-nos pelas novas opções entre propostas que rompem com o convencional, sem perder a elegância, e explicando a inspiração por detrás de alguns deles, apesar do nervosismo em estar perante um pequeno grupo de provadores. Afinal, criar cocktails será mais fácil do que apresentá-los a uma plateia.
Tirando o clássico que nunca sai da carta e que dá nome ao espaço, o Palácio Chiado, nos restantes, a abordagem é inovadora, tanto nos ingredientes como na construção dos sabores e dos seus respetivos nomes. Hudisson conduz a prova como quem conta uma história, onde cada cocktail é um capítulo da sua visão enquanto criativo.
Secret Garden, um enigma floral no copo

Há lugares que não se anunciam, descobrem-se. E foi a descoberta que deu arranque a esta prova. O Secret Garden, um dos novos cocktails do Palácio Chiado, é assim mesmo: delicadamente misterioso, como um jardim escondido atrás de uma porta.
Na base, o Mezcal San Cosme, com a sua nota fumada, abre o caminho como quem pisa um solo especial. É o primeiro impacto: inesperado, envolvente, quase um ritual. Como a entrada num jardim secreto, não se entra de rompante, mas com respeito.
Depois, surge o St. Germain, licor feito a partir de flor de sabugueiro, que acrescenta uma doçura perfumada, subtil. Ao seu lado, o bitter violet dá uma nota floral mais densa, como violetas escondidas. Há uma beleza nostálgica aqui, um toque de romantismo, que se nota na apresentação.
O xarope de elderflower reforça esta paleta botânica. O sumo de limão traz acidez e rasga suavemente o conjunto. E a clara de ovo, batida até formar espuma, transforma o cocktail numa poção suave e aveludada.
Não é um cocktail para ser bebido com pressa. Tal como um jardim secreto, é para ser descoberto aos poucos. Há um tempo certo para cada nota, um ritmo quase contemplativo que se impõe a quem o prova. É floral, sim, mas nunca óbvio. Doce, mas longe do previsível. O amargor e o fumo trazem profundidade, a frescura equilibra, como num ecossistema sensorial onde cada elemento tem lugar.
No fundo, é um convite à introspeção e à surpresa. Porque por detrás da leveza há sempre camadas. E todo o jardim secreto guarda segredos que só se revelam a quem fica tempo suficiente para os ouvir.
Hell Storm, a tempestade que se acende por dentro

Provavelmente não é um cocktail para principiantes. O Hell Storm chega como um trovão que se ouve ao longe, antes de se sentir a descarga elétrica na boca. Uma mistura provocadora que agita.
A base é o Johnnie Walker Black Label, um whisky de perfil robusto, com notas de fumo e especiaria. Se calhar, a tempestade começa aqui. Junta-se sumo de laranja e sumo de limão, que rompem a rigidez com acidez cítrica. Talvez como os relâmpagos num céu carregado de eletricidade.
O xarope de mel e malagueta começa doce no início, picante no fim. Um jogo de contrastes que vibra no palato. A clara de ovo dá-lhe textura, como a calmaria passageira entre dois trovões. E depois, os detalhes que elevam tudo com uma fatia de toranja fresca, cuidadosamente colocada sobre o copo, salpicada com sal de Tajin. Um toque visual e aromático, um cítrico salgado que encena o primeiro impacto de um trovão.
O Hell Storm não quer agradar, quer marcar. Arriscamos dizer que é feito para aqueles que vivem intensamente — ou para quem precisa lembrar-se de como isso era.
Thomas Shelby, um cocktail com a densidade de um império

Há cocktails que refrescam. Outros que surpreendem. E depois há os que contam histórias. O Thomas Shelby é mais do que uma bebida: é um retrato líquido de um homem que vive entre sombras e glória.
À semelhança da personagem que lhe dá nome, este cocktail assenta num equilíbrio entre intensidade, elegância e uma certa melancolia. A base é o Rum Captain Morgan Dark, encorpado, profundo, com notas de especiarias e caramelo escuro. Um espírito com passado, marcado por envelhecimento e resistência, tal como Thomas: endurecido pela guerra, movido pela ambição e sempre atento à próxima jogada.
Ao rum junta-se o Vinho do Porto Vallado 20 anos, um dos mais nobres do Douro. Aveludado, complexo, com camadas de fruta seca, mel e madeira antiga, este Porto envelhecido simboliza a faceta mais sofisticada e cerebral de Shelby, o estratega que sabe ouvir o silêncio e esperar pelo momento certo. Há um luxo discreto nesta escolha, mas nunca de forma ostensiva: é o luxo de quem já viu demasiado para precisar de impressionar.
A fechar, o Angostura Bitter — concentrado, amargo, com um travo herbal que perdura no palato. Um toque de sombra que evoca os fantasmas de Thomas, sempre presentes, mesmo quando tudo parece sob controlo. É esse amargor subtil que dá profundidade ao conjunto, como o peso que o protagonista carrega com aparente leveza.
O resultado é um cocktail que não grita, impõe-se. Tal como Thomas Shelby, não precisa levantar a voz para se fazer ouvir. Cada gole é uma declaração: densa, sofisticada, com um final prolongado. Ideal para quem aprecia mais do que sabor, é para quem procura personalidade num copo. Porque, no fim, há homens que se lembram. E há cocktails que se contam.
Além do Thomas Shelby existe ainda o Peaky Blinders, composto por Whisky Bulleit Bourbon, amendoim, bier de chocolate e xarope de açúcar de baunilha denunciando o favoristimo de Hudisson Santos pela série mundialmente conhecida. Mas este fica para outra visita.
Feeling Hot, um brinde ao calor da alma portuguesa

Ao contrário dos antecessores, Feeling Hot não foi desenvolvido pelo chefe de bar, mas sim por outro elemento da equipa. É um cocktail que não esconde o que é: uma celebração da alma portuguesa, feita com produtos 100% nacionais.
A Ginja de Óbidos abre a dança, com a sua doçura densa e frutada. O Licor Beirão, com as suas notas herbais e de especiarias, traz o coração da tradição beirã, quente e reconfortante. Mas não se fica pela nostalgia. O sumo de limão traz frescura e ritmo, enquanto o manjericão empresta cor e surpresa, como um jardim urbano num terraço de Alfama. E depois, o toque final, o tabasco, num ardor que desperta os sentidos e não pede licença.
Este é o cocktail mais lusitano da carta. Despretensioso, mas cheio de identidade, afável, mas com garra. Uma homenagem à portugalidade que se reinventa, entre o doce e o picante, entre o fado e o improviso.
Bubble Gum, o delírio pop das memórias de infância

À primeira vista, o nome Bubble Gum pode enganar. Parece inocente, quase infantil. Mas este cocktail é tudo menos superficial. É uma provocação lúdica, onde a irreverência e a técnica se encontram para criar algo inesperadamente cativante. Antes da prova, o primeiro convite é sentir o aroma da espuma que se forma por cima do cocktail como bolas de sabão. É com o cheiro a mentol, a lembrar as pastilhas Gorila que se comiam na infância, que arrancamos para aquele que será o último cocktail da noite – na realidade, já um extra.
A base é Tequila Don Julio Blanco, que chega com autoridade. A suavidade das framboesas e o sumo de lima contrabalançam com frescura e acidez, enquanto o Aperol acrescenta uma dimensão amarga, e adulta, num cocktail cujo nome nos remete para uma certa infantilidade. O xarope de bubble gum é a estrela excêntrica, doce, quase artificial, mas habilmente dosado. E depois, o golpe final: ar de pastilha elástica. Uma nuvem leve, que evoca infância, parques de diversões, tardes sem pressa. Mas também provoca o palato, desafiando o preconceito de que o prazer é coisa séria.
O Bubble Gum é isso mesmo: uma memória travessa, transformada em arte. Uma piscadela de olho à cultura pop, mas servida com técnica e respeito. Talvez um cocktail para quem gosta de brincar com as expectativas, e sair surpreendido no final.
Os cocktails assinatura têm todos o mesmo valor, 16€, mas não são as únicas opções. Há ainda lugar para os clássicos (14€), mocktails de assinatura (as opções sem álcool, 10€), várias opções de gin (a partir de 10€), assim como aperitivos, digestivos ou cervejas e sidras.
A carta de inverno do chef Manuel Bóia
Terminado o workshop, é hora de sentarmos à mesa. A carta de inverno, ainda em vigor, mas que mudará em breve, assinada pelo chef executivo Manuel Bóia, é uma espécie de viagem sensorial. Fiel às suas raízes transmontanas, o chef reinventa a cozinha portuguesa com uma abordagem contemporânea e internacional, respeitando a sazonalidade dos produtos. Ceviche de peixe branco com guacamole e tinta de choco (16€), barriga de porco crocante com rosti de batata (15€), risoto de cogumelos com caldo miso (25€) ou um carré de vitela branca com molho trufado (42€), são algumas das propostas.

Há espaço para bestsellers que já conquistaram o público como os taquitos de lagosta (22€, duas unidades), o lombo de novilho à Barão (36€) ou o crème brûlée de pistácio (11€), que se mantêm como clássicos da casa.
Depois do jantar, o convite é para descer. A Salla é o palco onde a noite troca os talheres pelo copo, e a conversa pela música. À sexta e sábado, os DJs ocupam o seu lugar e transformam o espaço num salão moderno, onde dançar não é um gesto fútil, mas sim um ritual que se impõe. Mas nesta noite em particular, tratando-se de uma quarta-feira, não foi ocasião para tal.
O SAPO Lifestyle esteve no Palácio Chiado a convite.
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