Lisboa tem os seus rituais. Há quem diga que é o pôr-do-sol visto da Graça, outros falam do primeiro café da manhã. Mas há também quem procure mais do que vistas ou rotinas e prefira conhecer espaços na cidade e viver experiências. No Chiado, entre fachadas com história e ruelas onde a cidade parece sussurrar segredos, há um edifício que não se limita a existir — impõe-se. Podemos dizer que o Palácio Chiado é mais do que um espaço de restauração. É um convite para viver Lisboa com outra intensidade, num encontro entre o passado e o presente, aliando sabor com memória, sob tetos que já ouviram confidências de condes e sonhos de barões.

Erguido em 1781 para acolher a nobreza lisboeta, este palacete setecentista é hoje um dos cenários mais emblemáticos da capital, onde a arquitetura clássica e a estética contemporânea convivem com naturalidade. A escadaria, numa pedra polida pelo tempo, leva-nos até salas onde a arte da mesa e a arte do convívio se entrelaçam, e onde cada refeição se pode transformar num capítulo de algo maior. Ali, sob tetos pintados à mão e candelabros que parecem flutuar entre passado e presente, a experiência começa antes sequer de se escolher um prato.

Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura
Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura Bar do primeiro piso do Palácio Chiado. créditos: Francisco Nogueira

Mas o Palácio não é lugar para se ficar apenas à mesa e antes da refeição, o convite é sentar no bar do primeiro piso para conhecer a mais recente carta de cocktails de assinatura. Da responsabilidade do chefe de bar Hudisson Santos, este guia-nos pelas novas opções entre propostas que rompem com o convencional, sem perder a elegância, e explicando a inspiração por detrás de alguns deles, apesar do nervosismo em estar perante um pequeno grupo de provadores. Afinal, criar cocktails será mais fácil do que apresentá-los a uma plateia.

Tirando o clássico que nunca sai da carta e que dá nome ao espaço, o Palácio Chiado, nos restantes, a abordagem é inovadora, tanto nos ingredientes como na construção dos sabores e dos seus respetivos nomes. Hudisson conduz a prova como quem conta uma história, onde cada cocktail é um capítulo da sua visão enquanto criativo.

Secret Garden, um enigma floral no copo

Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura
Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura créditos: Daniela Costa

Há lugares que não se anunciam, descobrem-se. E foi a descoberta que deu arranque a esta prova. O Secret Garden, um dos novos cocktails do Palácio Chiado, é assim mesmo: delicadamente misterioso, como um jardim escondido atrás de uma porta.

Na base, o Mezcal San Cosme, com a sua nota fumada, abre o caminho como quem pisa um solo especial. É o primeiro impacto: inesperado, envolvente, quase um ritual. Como a entrada num jardim secreto, não se entra de rompante, mas com respeito.

Depois, surge o St. Germain, licor feito a partir de flor de sabugueiro, que acrescenta uma doçura perfumada, subtil. Ao seu lado, o bitter violet dá uma nota floral mais densa, como violetas escondidas. Há uma beleza nostálgica aqui, um toque de romantismo, que se nota na apresentação.

O xarope de elderflower reforça esta paleta botânica. O sumo de limão traz acidez e rasga suavemente o conjunto. E a clara de ovo, batida até formar espuma, transforma o cocktail numa poção suave e aveludada.

Não é um cocktail para ser bebido com pressa. Tal como um jardim secreto, é para ser descoberto aos poucos. Há um tempo certo para cada nota, um ritmo quase contemplativo que se impõe a quem o prova. É floral, sim, mas nunca óbvio. Doce, mas longe do previsível. O amargor e o fumo trazem profundidade, a frescura equilibra, como num ecossistema sensorial onde cada elemento tem lugar.

No fundo, é um convite à introspeção e à surpresa. Porque por detrás da leveza há sempre camadas. E todo o jardim secreto guarda segredos que só se revelam a quem fica tempo suficiente para os ouvir.

Hell Storm, a tempestade que se acende por dentro

Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura
Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura créditos: Daniela Costa

Provavelmente não é um cocktail para principiantes. O Hell Storm chega como um trovão que se ouve ao longe, antes de se sentir a descarga elétrica na boca. Uma mistura provocadora que agita.

A base é o Johnnie Walker Black Label, um whisky de perfil robusto, com notas de fumo e especiaria. Se calhar, a tempestade começa aqui. Junta-se sumo de laranja e sumo de limão, que rompem a rigidez com acidez cítrica. Talvez como os relâmpagos num céu carregado de eletricidade.

O xarope de mel e malagueta começa doce no início, picante no fim. Um jogo de contrastes que vibra no palato. A clara de ovo dá-lhe textura, como a calmaria passageira entre dois trovões. E depois, os detalhes que elevam tudo com uma fatia de toranja fresca, cuidadosamente colocada sobre o copo, salpicada com sal de Tajin. Um toque visual e aromático, um cítrico salgado que encena o primeiro impacto de um trovão.

O Hell Storm não quer agradar, quer marcar. Arriscamos dizer que é feito para aqueles que vivem intensamente — ou para quem precisa lembrar-se de como isso era.

Thomas Shelby, um cocktail com a densidade de um império

Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura
Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura créditos: Daniela Costa

Há cocktails que refrescam. Outros que surpreendem. E depois há os que contam histórias. O Thomas Shelby é mais do que uma bebida: é um retrato líquido de um homem que vive entre sombras e glória.

À semelhança da personagem que lhe dá nome, este cocktail assenta num equilíbrio entre intensidade, elegância e uma certa melancolia. A base é o Rum Captain Morgan Dark, encorpado, profundo, com notas de especiarias e caramelo escuro. Um espírito com passado, marcado por envelhecimento e resistência, tal como Thomas: endurecido pela guerra, movido pela ambição e sempre atento à próxima jogada.

Ao rum junta-se o Vinho do Porto Vallado 20 anos, um dos mais nobres do Douro. Aveludado, complexo, com camadas de fruta seca, mel e madeira antiga, este Porto envelhecido simboliza a faceta mais sofisticada e cerebral de Shelby, o estratega que sabe ouvir o silêncio e esperar pelo momento certo. Há um luxo discreto nesta escolha, mas nunca de forma ostensiva: é o luxo de quem já viu demasiado para precisar de impressionar.

A fechar, o Angostura Bitter — concentrado, amargo, com um travo herbal que perdura no palato. Um toque de sombra que evoca os fantasmas de Thomas, sempre presentes, mesmo quando tudo parece sob controlo. É esse amargor subtil que dá profundidade ao conjunto, como o peso que o protagonista carrega com aparente leveza.

O resultado é um cocktail que não grita, impõe-se. Tal como Thomas Shelby, não precisa levantar a voz para se fazer ouvir. Cada gole é uma declaração: densa, sofisticada, com um final prolongado. Ideal para quem aprecia mais do que sabor, é para quem procura personalidade num copo. Porque, no fim, há homens que se lembram. E há cocktails que se contam.

Além do Thomas Shelby existe ainda o Peaky Blinders, composto por Whisky Bulleit Bourbon, amendoim, bi­er de chocolate e xarope de açúcar de baunilha denunciando o favoristimo de Hudisson Santos pela série mundialmente conhecida. Mas este fica para outra visita.

Feeling Hot, um brinde ao calor da alma portuguesa

Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura
Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura créditos: Daniela Costa

Ao contrário dos antecessores, Feeling Hot não foi desenvolvido pelo chefe de bar, mas sim por outro elemento da equipa. É um cocktail que não esconde o que é: uma celebração da alma portuguesa, feita com produtos 100% nacionais.

A Ginja de Óbidos abre a dança, com a sua doçura densa e frutada. O Licor Beirão, com as suas notas herbais e de especiarias, traz o coração da tradição beirã, quente e reconfortante. Mas não se fica pela nostalgia. O sumo de limão traz frescura e ritmo, enquanto o manjericão empresta cor e surpresa, como um jardim urbano num terraço de Alfama. E depois, o toque final, o tabasco, num ardor que desperta os sentidos e não pede licença.

Este é o cocktail mais lusitano da carta. Despretensioso, mas cheio de identidade, afável, mas com garra. Uma homenagem à portugalidade que se reinventa, entre o doce e o picante, entre o fado e o improviso.

Bubble Gum, o delírio pop das memórias de infância

Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura
Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura créditos: Daniela Costa

À primeira vista, o nome Bubble Gum pode enganar. Parece inocente, quase infantil. Mas este cocktail é tudo menos superficial. É uma provocação lúdica, onde a irreverência e a técnica se encontram para criar algo inesperadamente cativante. Antes da prova, o primeiro convite é sentir o aroma da espuma que se forma por cima do cocktail como bolas de sabão. É com o cheiro a mentol, a lembrar as pastilhas Gorila que se comiam na infância, que arrancamos para aquele que será o último cocktail da noite – na realidade, já um extra.

A base é Tequila Don Julio Blanco, que chega com autoridade. A suavidade das framboesas e o sumo de lima contrabalançam com frescura e acidez, enquanto o Aperol acrescenta uma dimensão amarga, e adulta, num cocktail cujo nome nos remete para uma certa infantilidade. O xarope de bubble gum é a estrela excêntrica, doce, quase artificial, mas habilmente dosado. E depois, o golpe final: ar de pastilha elástica. Uma nuvem leve, que evoca infância, parques de diversões, tardes sem pressa. Mas também provoca o palato, desafiando o preconceito de que o prazer é coisa séria.

O Bubble Gum é isso mesmo: uma memória travessa, transformada em arte. Uma piscadela de olho à cultura pop, mas servida com técnica e respeito. Talvez um cocktail para quem gosta de brincar com as expectativas, e sair surpreendido no final.

Os cocktails assinatura têm todos o mesmo valor, 16€, mas não são as únicas opções. Há ainda lugar para os clássicos (14€), mocktails de assinatura (as opções sem álcool, 10€), várias opções de gin (a partir de 10€), assim como aperitivos, digestivos ou cervejas e sidras.

A carta de inverno do chef Manuel Bóia

Terminado o workshop, é hora de sentarmos à mesa. A carta de inverno, ainda em vigor, mas que mudará em breve, assinada pelo chef executivo Manuel Bóia, é uma espécie de viagem sensorial. Fiel às suas raízes transmontanas, o chef reinventa a cozinha portuguesa com uma abordagem contemporânea e internacional, respeitando a sazonalidade dos produtos. Ceviche de peixe branco com guacamole e tinta de choco (16€), barriga de porco crocante com rosti de batata (15€), risoto de cogumelos com caldo miso (25€) ou um carré de vitela branca com molho trufado (42€), são algumas das propostas.

Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura
Quando o copo conta a história. Palácio Chiado estreia nova carta de cocktails de assinatura Risoto de cogumelos com caldo miso (25€) créditos: LUIS FERRAZ / PALACIO CHIADO

Há espaço para bestsellers que já conquistaram o público como os taquitos de lagosta (22€, duas unidades), o lombo de novilho à Barão (36€) ou o crème brûlée de pistácio (11€), que se mantêm como clássicos da casa.

Depois do jantar, o convite é para descer. A Salla é o palco onde a noite troca os talheres pelo copo, e a conversa pela música. À sexta e sábado, os DJs ocupam o seu lugar e transformam o espaço num salão moderno, onde dançar não é um gesto fútil, mas sim um ritual que se impõe. Mas nesta noite em particular, tratando-se de uma quarta-feira, não foi ocasião para tal.

O SAPO Lifestyle esteve no Palácio Chiado a convite.