Se é para passar um par de horas a degustar cozinha de travo português, fora ou dentro de portas - na esplanada ou na sala interior - então que se faça com alguma informação sobre a praça que alberga esta restaurante Delfina. Ou melhor, a Cantina, embora dissemelhante na feição e nos comeres do conceito de cantina a que nos habituámos. É aqui, num cantinho da Praça do Município lisboeta (para o preciosista, na ala noroeste), que se acomoda o restaurante do Hotel AlmaLusa. Atenção, o restaurante está integrado no hotel, mas funciona com acesso independente a este.

Peguemos, então, no mote dado a esta peça porque a Praça do Município tem uma história anterior aos festejos sazonais das conquistas futebolísticas e ao hastear da bandeira pelo 5 de Outubro. A praça que alberga os Paços do Concelho, sucedeu ao Largo do Patriarcal, também chamado Largo do Pelourinho (ele lá continua na placa central). Um largo com a feição marcada pelo edifício da Câmara Municipal de Lisboa, alterado várias vezes nas últimas centenas de anos e onde, em 1910, a partir da varanda, José Relvas fez o discurso da implantação da República.

É provável que milhares de Delfinas tenham passado pela Praça do Municipio nestas últimas décadas. Por certo temos que há uma Delfina residente no lugar. Não, não pertence às hordas de audazes novos povoadores da capital. Esta Delfina é utópica. Não por ser uma sonhadora inveterada, mas porque significa uma Delfina avó, uma Delfina cozinheira, a Delfina que todos gostaríamos de ter na cozinha, a preparar comida de conforto.

É este conceito que sustenta o novo cantinho lisboeta dedicado aos comeres da nossa memória, e também da nossa matriz cultural. Curto e grosso, a cozinha portuguesa, embora com aquilo que a nossa mesa sempre fez, miscigenar. Nasceu assim a Cantina Delfina, pela mão de António Oliveira e Silva, homem com historial na restauração lisboeta (restaurantes pasta non basta, Este Oeste, Mano a Mano, mais recentemente o Memória).

delfina
créditos: AlmaLusa

Apesar de não termos a Delfina a receber-nos, acolhe-nos uma esplanada luminosa, em plena Praça do Município e uma sala bem decorada, quanto baste de rusticidade, outro tanto de industrial e uma boa dose de conforto, nomeadamente no que interessa, os cadeirões onde nos sentamos para passar umas quantas horas (se a visita se fizer com tempo, a carta também permite uma ´rapidinha´).

É com a promessa de “Hospitalidade” e “Consistência” que partimos a carta deste Delfina. Porque não há decoração por mais estimada que seja que resista a uma desilusão sobre o prato.

Não é o caso, esta mesa do Delfina chega-nos bem tratada, antes mesmo da cozinha. O produto é bom. O Bacalhau à Delfina – é peça de boa altura, a lascar a preceito-, onde não falta uma maionese de alcaparras (16,00 euros); as amêijoas à boleia de um Bulhão Pato são de porte generoso e não morrem no sabor cítrico do limão, antes sabendo a mar; o Pastel com o fiel amigo não pesa, massudo, à mastigação (2,50 euros); a Sopa de Bacalhau (12,00 euros) sabe ao que lhe é devido, traz bom pão de Mafra e um ovo escalfado que se desfaz em gema ao encontro das lascas do peixe e dos coentros; a peça de Novilho que nos é presente, faz-se tenra, de sucos, a faca e garfo (24,00 euros) e o Bacalhau à Brás (15,00 euros), cremoso como manda a regra, com a batata em palha (fininha) a cebola também assim (bem fina) e o ovo a cair só no final. Daí, vai logo para a travessa fria.

Delfina
créditos: AlmaLusa

Nos vinhos, a casa faz uma parceria com a Sogrape o que nos garante transversalidade nas propostas, com referências de Norte a Sul do país.

Cantina Delfina

Praça do Município, 21, Lisboa

 Horários:

Fora de horas (22h00|07h30) - Para quem sai muito cedo ou chega tarde.

Madrugador (07h30|10h30) – No restaurante ou no quarto | Pequeno-almoço;

Meio-dia (10h30|15h30) – No restaurante | Snacks & Almoço

Fim-do-dia (15h30|23h00) – No restaurante | Snacks & Jantar

Contacto: Tel. 212 697 445

Ainda à mesa, apenas a melhorar um dos incontornáveis das cantinas portuguesas, o nosso Peixinho da Horta que, não obstante no ponto certo de cozedura – escaldão e pouco mais - poderia vir com um polme mais estaladiço. “Mas um dia não são dias”, como diria a nossa avó Delfina que se redime no Bolo de chocolate sem farinha e com 70% de cacau e numa generosa Mousse de chocolate e menta.

Não provámos, mas pede um bis o Mexilhão à marinheiro (9,00 euros), as Gambas ao alho (12,00 euros) e a Tiborna de carapau da ribeira (8,00 euros), nas entradas; assim como o tão português Lombo de bacalhau na grelha, com batata a murro e grelos salteados (18,00 euros), ou o Frango – do campo - à Delfina estufado, com cogumelos, alho francês e arroz Basmati, aqui a dar-nos prova de que esta nossa avó, personagem criada  à medida do restaurante, também se fez ao mar e aos céus e é viajada, não negando sabores de outras latitudes. Tanto nos dá uma saladinha de bacalhau (14,00 euros), como um Fettuccini   alla pescatores (18,00 euros). Mas fá-lo sempre com amor.

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