Habituei-me e habituei-os ‘mal’. Quando a minha primeira filha nasceu, decidi despedir-me do emprego que me exigia uma dedicação plena e embarquei numa aventura que me ofereceu o melhor dos dois mundos: ser mãe e profissional, numa conjugação perfeitamente equilibrada. E assim foi durante 13 anos. Estive sempre lá para os meus filhos, em todas as ocasiões e necessidades, habituando-os a ter a mãe sempre presente em reuniões, festas, estudos, visitas e afins. Até que tudo mudou.

Acredito que as mudanças são sempre para melhor – mesmo que, na altura da tempestade, os relâmpagos nos impeçam de ver imediatamente as vantagens. E também acredito que, muitas vezes, basta que demos um primeiro passo para que uma série de outros logo se avizinhem, sem muitas vezes estarmos sequer preparados para eles. Eu, pelo menos, não estava preparada para o que se adivinhava nesta minha mais recente mudança.

No final do ano passado, resolvi mudar uma série de coisas na minha vida. Aquelas coisas que o comodismo, a cegueira e a estupidez muitas vezes nos impedem de alterar, mas que são óbvias necessidades nos nossos dias. E, ao primeiro passo que dei, surgiram logo uma série de muitos outros. A nível profissional, tive um aumento exponencial de sobrecarga de tarefas e responsabilidades, o que depressa me fez ter maior dificuldade na conjugação da minha agenda diária. Agarrei os desafios e vi-me, de repente, a perder tempo para aquilo que habitualmente fazia com os miúdos. Virei-me do avesso para estar presente nas reuniões trimestrais. Achei muitas vezes que ia dar em louca quando, ainda agarrada ao trabalho que se acumulava na secretária, eles me pediam para esclarecer dúvidas, brincar ao monopólio ou ajudar a acabar um desenho. Tudo aquilo que sempre fiz, com (quase) todo o tempo do mundo.

Um dia, depois de ter passado semanas a trabalhar do nascer ao por-do-sol, senti um inconfessável peso na consciência. Eu continuava a ir buscar as crianças à escola, a conversar alegremente durante o jantar, a garantir tudo aquilo que é suposto, mas, na verdade, a minha cabeça estava quase permanentemente noutro local. A minha cabeça e eu, que tantas vezes lhes pedi silêncio para me concentrar no meio das palavras e dos documentos, enquanto sentia que devia era estar sentada com eles, naquele sofá em que nos encaixamos desde sempre, a comentar ironicamente as parvoíces que passam na televisão. E pedi-lhes desculpa pelo tempo que lhes estava a roubar. Por os deixar ver programas estúpidos só para poder ter mais 20 minutos de trabalho. Por estar tantas vezes apressada de manhã, sabendo que as reuniões me esperavam a quilómetros de distância. Por, no fundo, estar a ser menos mãe do que aquilo que queria ser.

Eles não compreenderam. Disseram-me que não sentiam qualquer diferença em mim. Que sim, eu passava mais tempo ao computador e ao telefone, mas que continuava a estar ativamente presente nas suas vidas.

- Além do mais, mãe, é preciso ganhar dinheiro.

E se não fosse? E se ganhar dinheiro não fosse realmente uma prioridade e a minha conta bancária me permitisse ter todo o tempo do mundo para os miúdos?

Se calhar não seria tão feliz. Se calhar, não acordaria como desperto de há cinco meses para cá – a sentir que, apesar das dificuldades e dos percalços, a vida é maravilhosa. A saber que cada passo dorido é uma conquista que, hoje sim, me faz valorizar as pequenas coisas dos dias.

Acho que todas nós, mães, temos momentos em que nos sentimos as piores progenitoras do mundo. Em que nos condenamos pelo tempo que não lhes damos, pela paciência que não temos, pelos momentos em que preferíamos trocar os banhos e os TPCs por uma caipirinha bebida no final do dia numa qualquer esplanada em frente à praia.

Tirando algumas graves exceções, não acredito em más mães. E tenho a certeza que, dentro das limitações da vida, todas nós tentamos dar o máximo e fazer o melhor que podemos. Ou sabemos.

E, no final de contas, o que interessa é quando, ao final do dia, eles nos abraçam, limpam as lágrimas de remorso pelo que poderíamos ser e, no meio de um abraço profundo, nos dizem que somos as melhores mães do mundo. Mesmo que todos saibamos que iguais a nós existem outras tantas.

Alda Benamor

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