A sociedade atual alcançou um grau de bem-estar muito elevado, atingindo níveis seguramente impensáveis para gerações que viveram apenas trinta anos antes

 

No seio da família mudaram também muitas coisas e recolocaram-se questões como a disciplina, o papel dos pais, as vivências dos filhos, as diretrizes educacionais, etc., e, ainda que pareça paradoxal, atualmente é possível falar de carências dos pais, dentro de uma sociedade onde se tem mais do que nunca. Carências que são responsáveis por mudanças para pior, no que diz respeito à convivência em família e que incide diretamente no desenvolvimento evolutivo dos filhos, que terão experiências também muito diferentes das que tiveram os seu pais e, evidentemente, os seus avós. Menos tempo e tranquilidade para os filhos É um facto que, regra geral, os pais de hoje passam menos tempo com os filhos. As jornadas de trabalho encarregam-se de reter os pais até horas em que muitos casos chegam a entrar pela noite dentro, pelo que o tempo diário de dedicação se resume muitas vezes ao imprescindível para preparar a ida para a cama e estarem prontos para o dia seguinte.

 

Como consequência, muitas famílias experimentam a sensação de fazer tudo à pressa, inclusivamente dentro de casa. Pais que vivem a um ritmo frenético, levando e trazendo os filhos de umas atividades para as outras, encarregando-se da gestão para a semana ou realizando qualquer outra tarefa que, por ser necessária, obriga a que se realiza o mais depressa possível. Desta maneira, não apenas é escasso o tempo diário de convivência, como a qualidade do mesmo é a tónica dominante.

 

Menos controlo

Como consequência do mencionado anteriormente, o controlo sobre as atividades que os filhos realizam diminuiu. Vemos casos de crianças que desde muito novas passam horas a jogar videojogos – muitas vezes jogos inadequados para a sua idade pelo seu elevado conteúdo violento ou complexidade para os compreender – ou diante da televisão sem nenhum tipo de controlo.

 

Isto corresponde a níveis de estímulo nas crianças que antes não se alcançavam até idades mais avançadas. Por isso, as crianças atuais dispõem, regra geral, de muito mais informação em idades mais precoces, mas isso não significa que esses níveis de informação correspondam a uma maturidade que permita fazer um uso razoável dela. Daí os elevados níveis de vício nos telemóveis, videojogos ou Internet, que até há pouco tempo eram inimagináveis.

 

Ideia-chave:

Um bom controlo externo efetuado inicialmente pelos pais envolve um bom controlo interno, que permitirá progressivamente aos filhos conjugar autonomia e responsabilidade, e ao chegar à adolescência ser-lhes-á muito útil na hora de tomar decisões, permitindo-lhes fazê-lo com um critério mais responsável.


Menos segurança

Hoje em dia os pais sentem-se menos seguros na educação dos filhos, mais indefesos em relação a um ambiente que consideram mais difícil e, ocasionalmente, mais perigoso. A sensação de falta de controlo leva-os muitas vezes, paradoxalmente, a quere fazer o contrário, ou seja, a superproteger os seus filhos, a pretender ter um controlo exaustivo da situação.

 

No entanto, isto provoca um efeito negativo nos filhos relacionado com o controlo externo anteriormente mencionado e que, de maneira extrema, proporciona à criança um ambiente excessivamente supervisionado. Esta questão pode produzir efeitos a curto prazo, como angústias e conflitos muito frequentes, e, a longo prazo, originar que os filhos não desenvolvam por si próprios os recursos necessários para se movimentarem adequadamente sem ajuda externa.

 

Há que ter em consciência que este desenvolvimento dos filhos é necessário e imprescindível para que se preparem adequadamente para o dia de amanhã. E se questionam estes níveis de segurança em casa, quando temos jovens que ainda vivem com os pais apesar de já terem ultrapassado a idade que há poucos anos se considerava ideal para a emancipação, e se existem diversas razões conjunturais e sociais que não facilitam a saída de casa, este aspeto é uma grande condicionante para que não o façam.

 

É necessário que os pais adquiram segurança na hora de educar os filhos por outras vias que não a de estar constantemente em cima deles. Se caem na superproteção, eles próprios vão alcançando a segurança através do controlo e torna-se cada vez mais difícil deixar de o fazer porque, com o tempo, vão assumindo que não podem renunciar ao controlo, uma vez que então surgiriam problemas.

 

Ideia-chave:

As crianças necessitam da segurança do ambiente envolvente, uma segurança que elas ainda não elaboraram, e graças a esse ambiente seguro, que lhes serve de guia e lhes proporciona limites claros para os seus comportamentos e normas pelas quais se irão reger, aprendem pouco a pouco a elaborar elas próprias os seus limites.

 

Tanto as crianças que não tiveram quase controlo, como as crianças que crescem num ambiente de superproteção, são as mais inseguras nos seus comportamentos.

 

Menos autoridade

Passámos de uma família onde a disciplina estava assegurada, na maioria dos casos sem demasiado esforço por parte dos pais, para uma família na qual muitas vezes é complicado manter um nível de ordem e disciplina, imprescindíveis para o bom funcionamento familiar. Os pais têm-se afastado de modelos mais flexíveis que, ocasionalmente, se aproximam de uma totalidade falta de autoridade.

 

Por seu turno, as crianças conseguiram monopolizar a atenção num grau extremamente elevado, chegando a ser o centro em torno do qual gira uma boa parte da dinâmica familiar. Atualmente é muito frequente que os filhos decidam onde ir de férias, que atividades realizar ou outras questões que antes eram impostas.

 

São bastantes os pais preocupados com os seus filhos ainda antes da pré-adolescência, por não conseguirem «fazer nada com eles», por não serem capazes de os convencer inclusivamente sobre as questões mais simples e quotidianas. É fácil imaginar o que sucederá em situações que previsivelmente se desenvolverão na adolescência, quando os filhos quiserem sair sozinhos, chegar mais tarde e frequentar ambientes mais adequados para jovens mais velhos. Então será mais complicado estabelecer limites e normas, que não aceitarão de bom grado.

 

O objetivo prioritário com estes pais é o de lhes devolver essa autoridade, necessária para questões de importância vital. Devem trabalhar com os filhos, centrando-se na sua capacidade para diferenciar entre as condutas com as quais ganham e as com as quais perdem, uma vez que costumam empenhar-se em piorar as coisas.

 

E isto será levado a cabo fugindo de extremos e fornecendo aos pais as orientações precisas e as estratégias adequadas para que, segundo, a idade dos seus filhos, possam exercer uma autoridade mais do tipo democrático, onde aprendam a conjugar a necessidade de serem flexíveis em certos aspetos com a necessidade de estabelecer normas claras e adequadas ao momento evolutivo que estejam a viver com os seus filhos.

 

Falsas vantagens e excessos

 Mais poder de compra

É fácil ver esta falsa vantagem e, para isso, não é necessário mais do que refletir sobre o que aconteceu na última década. Por um lado, e em termos gerais, ocorreu uma melhoria substancial nos ordenados médios, o que se traduz num poder de compra muito maior por parte dos jovens. Mas, por outro lado, os problemas que ocorrem no ambiente familiar relacionados com os filhos dão-se com uma intensidade e com uma frequência cada vez maiores, chegando em demasiados casos a extremos que antes só se alcançavam em contextos familiares destruturados e que agora podem ser observados em ambientes menos previsíveis.

 

O aumento do poder de compra é geralmente associado à possibilidade de se ter mais bens, mais lazer, mais elementos para a diversão, mais comodidades, etc. Mas, se analisarmos cada um destes termos, não encontraremos nenhuma relação direta com ter mais e melhor formação, mais motivação, maior responsabilidade ou de ter menos problemas.

 

Por exemplo, ter mais possibilidades de lazer nem sempre combina com ter tempo e disponibilidade para desfrutar dele, mas, ainda que assim seja, desfrutar mais do lazer ou levar uma vida mais cómoda também não é necessariamente equivalente a estudar mais ou a esforçar-se mais para conseguir algum objetivo.

 

O que hoje se pode observar são gerações de jovens nas quais aparecem relações claras entre ter quase tudo o que se pode desejar em determinada idade e não sentir nenhuma necessidade de fazer algo para mudar, nem sequer para manter esse estatuto, e assim encontram-se com frequência jovens que não querem estudar nem querem trabalhar. Isto, anos antes, era impensável.

 

Portanto, pode dizer-se com alguma segurança que ter mais pode levar muitos adolescentes a não valorizar o esforço que implica tê-lo conseguido, um esforço que, na maioria dos casos, eles não tiveram de fazer porque provavelmente tudo lhes foi oferecido através do trabalho contínuo dos seus pais.

 

Falsas vantagens e excessos

Mais dedicação exclusiva

Na atualidade, nem todos os elementos que se podem identificar ao falar de dedicação aos filhos vão no mesmo sentido. Por exemplo, regra geral, o tempo de que se dispõe para estar com eles diminuiu bastante. Muitas vezes, o primeiro e único momento diário de contacto com os filhos em casa é durante o jantar. Este aspeto não pode ser considerado como uma vantagem, mas precisamente o contrário.

 

Mas há também a assinalar que os filhos são tidos em conta desde muito cedo para muitas questões para as quais anos antes não tinham qualquer opinião; assim, são eles que decidem onde ir nas férias, o que se vê na televisão, o que se come em casa e inclusivamente em que escola querem estudar. O protagonismo que alcançaram agora antes só acontecia quase na juventude e muitos pré-adolescentes gozam deste estatuto há já muito tempo.

 

Isto pode parecer uma vantagem e está associado à maior dedicação, maior atenção às suas exigências, algo como uma maior capacidade de lhes dar atenção e de os ter em consideração, mas a realidade é que os filhos o assumiram muitas vezes como uma maior capacidade para decidir por eles próprios sobre quase tudo, provocando muitos conflitos quando as suas decisões parecem pouco menos que inadequadas, como pretender impor a si próprios as suas normas, não aceitando as dos pais, ou fazendo com que os pais os sirvam, utilizando para isso um certo autoritarismo e exigências, que consideram como algo normal e inquestionável.

 

Ideia-chave:

Dedicar aos filhos toda a capacidade de atenção pode significar criar-lhes a expetativa de que vai ser sempre assim, e não de outra maneira, e podem por isso não entender que os pais dividam a atenção com outros filhos, com amigos, ou que, se desejam algo, não lhos seja proporcionado imediatamente.


Falsas vantagens e excessos

Proporcionar-lhes todas as facilidades

Possivelmente não existe nada mais natural do que facilitar a um filho a vida em tudo o que for possível. Ouvir ou ler isto parece muito certo e soa muito bem, como tudo o que é correto por natureza. Mas temos de ter em consideração que se uma pessoa dispõe de fácil acesso a tudo o que acredita ser necessário para ela, não podemos esperar que desenvolva uma capacidade de esforço, uma vez que não necessita de o fazer.

 

E não nos podemos esquecer que o esforço não é cómodo nem bem-vindo; portanto, o esforço é algo que apenas observaremos na medida em que a pessoa veja nele um certo interesse e lhes sirva para alguma coisa.

 

Nós esforçamo-nos para procurar alimentos, mas apenas quando temos fome e não dispomos deles; se um jovem tem fome e para a saciar apenas tem de abrir o frigorífico e tirar um pedaço de comida preparada, é difícil que aprenda a cozinhar; por pura lógica, não o tentará fazer na maior parte das ocasiões.

 

Nós esforçamo-nos por cuidar das coisas da casa mas apenas quando temos de as arranjar quando se estragam ou limpá-las quando se sujam. Se os filhos veem que podem dispor de tudo o que hoje há em casa, e não precisam de contribuir de maneira responsável, fá-lo-ão comodamente e custar-lhes-á entender que se tenham de esforçar sem nenhuma razão aparente.

 

Ideia-chave:

Facilitar-lhes as saídas, a mesada, o tempo que passam a ver televisão, o acesso à Internet, as melhores escolas, até a empresa familiar, é o certo, mas em troca de quê? Em troca de nada? O que é verdadeiramente significativo neste assunto é que não se lhes peça como contrapartida um esforço mínimo como condição indispensável para lhes conceder esses direitos e que, simplesmente, se lhes proporcione essa honra apenas porque lhes calhou viver numa época repleta de facilidades que, em muitos casos, os pais não puderam desfrutar.


Falsas vantagens e excessos

Mais conhecimentos sobre educação

Ninguém duvida de que hoje se investe mais em educação do que nunca, mas acha-se sempre que não é suficiente, e parece uma queixa razoável se tivermos em conta que as possibilidades de a melhorar deveriam aumentar de forma diretamente proporcional ao já conseguido, ou seja, a um nível maior pode-se planear e pensar na sua otimização mais e melhor.

 

Também é fácil constatar que os pais dispõem de maior acesso a temas relacionados com a educação dos seus filhos, a grande número de recursos para utilizar, não apenas em material impresso, mas também através de associações de mãe e pais que, através de cursos especializados, lhes ensinam estratégias para dialogar com os filhos, a estabelecer normas, etc., mas muitos pais consideram que a teoria é muito boa e que já a sabem perfeitamente, mas que necessitam de soluções para saber o que fazer no dia a dia.

 

Uma vez mais, pensamos que certos avanços equivalem a verdadeiras vantagens até comprovarmos que não têm ligação, e no caso de aparecerem juntas, provavelmente estarão a ocorre outras variáveis muito mais básicas e diretamente ligadas à verdadeira educação.

 

Os filhos têm menos responsabilidades

Ao refletir sobre tudo o que hoje rodeia os adolescentes, observa-se como mudaram as diferentes estruturas nas quais se desenvolvem habitualmente e nas quais percorrem uma das etapas da vida que mais incerteza produzem, tanto para eles próprios, como para as pessoas que os rodeiam, em especial os progenitores. Noutros períodos da vida é em certa medida previsível a direção que a pessoa pode tomar. A isso ajuda a estabilidade do contexto social, que se produz graças à consolidação da família, do trabalho, do grupo de amigos, e a estabilidade das características físicas e psicológicas, que sofreram as mudanças mais significativas durante a etapa anterior.

 

Hoje em dia, os pais e outras pessoas que estão próximas dos filhos nestas idades queixam-se com frequência da falta de responsabilidade dos jovens, dos seus comportamentos e de muitos outros aspetos. Encontramos habitualmente um crescente desespero de muitos pais que veem que os seus filhos, embora já tenham alcançado a idade adulta, não dispõem da autonomia necessária para se desenvolver, nem dentro nem fora de casa.

 

Já vai muito longe o tempo em que o jovem aspirava a trabalhar para sair de casa o mais depressa possível. Atualmente, salvo exceções não muito numerosas, ocorre o contrário, ou seja, os jovens não querem nem ouvir falar de sair de casa e viver longe do abrigo dos pais, onde podem dispor da comodidade de uma casa mantida e dirigida por eles, que se converte ocasionalmente numa espécie de confortável hotel.

 

Ideia-chave:

São frequentes os casos em que os filhos começam numa idade precoce a dizer que, quando fizerem 18 anos, vão sair de casa. Mas eu recomendo sempre aos pais que não se preocupem, porque se trata de um falso alarme e que nunca o fazem; além disso, quando se aproxima o momento procuram não abordar o tema, por via das dúvidas. Estes casos são precisamente os piores, e em muitas ocasiões são os que mais tardam a sair de casa.

 

Há que ter em conta, certamente, que a estabilidade social que favorece a independência dos jovens se consegue em idades mais tardias do que antes, por questões claras de estudo, trabalho, habitação…, ainda que por trás dessa problemática se esconda essa responsabilidade ainda não assumida.

 

Pode-se começar a tornar os filhos responsáveis pelos seus atos desde pequenos e ajudá-los a que, através da sua autonomia progressiva, vão descobrindo o mundo e aprendendo diretamente dessas experiências.

 

Ideia-chave:

O excesso de controlo, bem como a superproteção dos filhos, longe de conseguir uma proteção real, torna-os mais vulneráveis e incapacita-os para enfrentar a evolução da vida. Apenas adia esse momento que, sem dúvida alguma, terá de chegar, e quando isso acontecer, surpreendê-los-á sem os recursos necessários.

 

Quando uma criança assume uma responsabilidade sente-se muito bem, considera-se mais crescida e os seus comportamentos vão-se ajustando ao que se espera dela. Mas não podemos pretender que um adolescente que não experimentou isto se sinta da mesma maneira; pelo contrário, rejeita-o e, pior ainda, não o assumirá com a mesma facilidade.

 

Ainda assim, seja qual for a sua idade, a ordem será expor a maneira de o ajudar a assumir responsabilidades cada vez maiores. É conveniente começar o quanto antes, mas sem restrições e com a convicção de que nunca é tarde para melhorar.

 

 

Adaptado por Maria João Pratt de O Adolescente Indomável, de Ángel Peralbo (2012), ed. A Esfera dos Livros.

 

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