Trata-se de um projeto já antigo, que a editora Ponto de Fuga alimentava há mais de um ano e que agora, finalmente, chegou às livrarias, com as palavras “ternas e mágicas” da escritora Hélia Correia e com o “traço sensível” da ilustradora Rachel Caiano, segundo o editor, Vladimiro Nunes, que descreve este como “um livro infantil maravilhoso”.

Nunca antes editados em português, estes “Contos de Encantar” constituem a única incursão conhecida de E.E. Cummings na literatura para a infância, e só foram publicados originalmente três anos após a morte do poeta, portanto, há mais de 50 anos.

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Nesta primeira edição portuguesa, Hélia Correia, que também assina o prefácio, descreve estas histórias como “textos jubilosos sobre o amor, o nascimento e o desfazer da solidão”.

“Sendo Cummings quem é, há a tendência para ler mais do que lá está escrito e cada um fará como quiser. A alegria da linguagem, as tentativas e os avanços rituais, próprios da literatura de encantar, são, porém, um valor absoluto que dispensa outras interpretações”, diz a escritora.

E “sendo Cummings quem é”, como escreve Hélia Correia, pode referir-se à pessoa e ao escritor, ambos os aspetos igualmente relevantes para contar a história destas quatro histórias.

Os textos aqui vertidos já têm na origem “uma história de vida encantadora, com um mistério e um final feliz”, sobre um Cummings que “não foi bom pai” e teve uma filha – Nancy - que andou até à idade adulta a julgar que era filha de outra pessoa: Scofield Thayer, o primeiro marido da mãe, que era simultaneamente amigo, editor e financiador do poeta.

Quando estava já casada, Nancy tornou-se amiga de Cummings sem alimentar sombra de suspeita de que se tratava do seu verdadeiro pai.

Numa tarde em que estavam juntos e sozinhos, e em que ele se entretinha a pintar-lhe o retrato – pois também desenhava – “houve a revelação desse segredo” e imediatamente se reconheceram como pai e filha, tendo ocorrido uma “mudança no ambiente” que a própria mãe notou quando se lhes juntou, conta Hélia Correia.

Os contos aqui apresentados, publicados três anos após a morte do poeta, terão sido escritos para Nancy quando ela era ainda uma criança, e Cummings ter-lhos-á entregado depois para que ela os desse a conhecer aos filhos.

Quanto ao Cummings escritor, impõe uma tradução que exige tudo aquilo que Hélia Correia confessa não ter: conhecimento, disciplina e método.

“Mas nestes contos pode entrar-se de outro modo, levando à letra o jogo e acreditando na delícia das tartes de mosquito”, considera a escritora, aludindo a um conto intitulado “A casa que comeu tarte de mosquito”, sobre uma casa que ficava isolada no cimo de um monte e que, certo dia, se apaixonou por um pássaro.

Hélia Correia garante que procurou ser o mais literal que conseguiu, mesmo em aspetos de especial importância na escrita do poeta norte-americano, como a pontuação, os espaços e o estilo gráfico.

Contudo, há sempre alguns aspetos “intransponíveis”, como sucedeu com o conto “A menina chamada Eu”, em que o autor joga com o facto de, em inglês, os verbos no pretérito perfeito serem iguais na primeira (eu) ou na terceira pessoa (ela), o que não se passa em português, salvo raras exceções, como o verbo “disse”, um dos poucos que se presta ao trocadilho com que o autor brincou: “Eu disse” ou “ela, chamada Eu, disse”.

O mais difícil de tudo, para a tradutora, foi encontrar um equivalente para a personagem da primeira história - “O velho que perguntava ‘porquê’” – que é uma criatura masculina do universo das Fadas.

O problema é que escasseia este tipo de vocábulos: nas culturas do sul só existem “anões e, ainda assim, de importação”, ou, graças à influência mitológica, “Elfos” e “Duendes”, mas que por serem “seres muito pequenos que habitam sobre a terra e só esvoaçam a pequena altura”, não servem a personagem deste conto.

Hélia Correia optou então por “Silfo”, que não vem do mesmo mundo e é um termo atribuído a Paracelso, médico e alquimista suíço-alemão do século XVI, mas que cumpre “três características indispensáveis ao protagonista: vive nos ares, tem muita idade, embora nunca chegue a envelhecer, e é habitualmente muito amável”.

O outro conto é sobre o nascimento da amizade entre um elefante que “não fazia coisa alguma o dia todo”, e uma borboleta que vivia numa casa, no final de um “caminho caracoleante”, que também dava para a casa do elefante.

Com capa dura e 88 páginas, o livro “Contos de Encantar” é todo ilustrado, com recurso apenas aos tons de preto, branco, azul e vermelho, por Rachel Caiano, por duas vezes premiada em obras anteriores.

Poeta, ensaísta, romancista e dramaturgo, Edward Estlin Cummings, nascido no Massachusetts, Estados Unidos, celebrizou-se como uma das vozes mais marcantes e inventivas da poesia americana do século XX, tendo sido também pintor.

Até à data da sua morte – morreu aos 67 anos –, escreveu perto de três milhares de poemas, dois livros em prosa de caráter autobiográfico, peças de teatro e diversos ensaios.

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