No dia 9 de maio de 2019 a internet e as televisões foram inundadas com vários vídeos realizados no Queimódromo da Queima das Fitas do Porto os quais deixaram muitas pessoas perplexas como aquilo poderia ter acontecido num meio estudantil de jovens adultos universitários. Por outras palavras, sendo os jovens universitários os futuros líderes deste país, como seria possível serem praticados aqueles comportamentos por alguns destes jovens?

Ao ver os diversos vídeos e lendo as notícias que se seguiram, recordei-me sempre das palavras proferidas por Ghandi, em 1936, as quais estão reproduzidas nos seus livros “Towards new Education” e “To students”, nos quais ele defende que um sistema de ensino para formar verdadeiros cidadãos não pode abdicar nem do ensino religioso ou sobre a moralidade e ética, nem de uma verdadeira educação sexual, orientada não apenas para os aspetos técnicos e científicos mas também para o autocontrolo da própria sexualidade.

Os jovens reproduzem os comportamentos que a sociedade lhes incute e aquilo que é reproduzido pelo resto da sociedade

Ora este tipo de educação contrasta completamente com aquilo que é ouvido comummente no nosso país/sociedade, de frases como por exemplo, “a mulher é que tem que se dar ao respeito”. Ou quando abrimos uma revista feminina ou masculina e os temas mais lidos são em torno das relações amorosas e de sexo, e onde assuntos como orgias, swings e vibradores não são assunto tabu, assim como outros tantos conceitos que hoje até são aceites como corriqueiros e retratados nas nossas novelas – assistidas por toda a família. Ou ainda quando é perfeitamente normal entre grupos de homens circularem vídeos de mulheres e de cenas de cariz sexual, e todos acharem isso normal, divertido e ridicularizarem as mulheres que neles aparecem, muitas vezes destruindo a sua imagem junto da comunidade “dos homens”.

Quando falamos de crianças e jovens, a literatura diz-nos que existem duas formas que a criança tem de adquirir conhecimentos, os designados modos de aprendizagem da criança. Por vezes a criança aprende determinados conceitos por via do seu desenvolvimento cognitivo, motor, etc; enquanto que, outras vezes, a sua aprendizagem resulta da sua interação social; sendo na maioria das vezes a aprendizagem feita de forma mista, por ambos os processos.

No desenvolvimento da criança temos um muito importante, que é o desenvolvimento da função executiva que ocorre na adolescência e que permite o autocontrolo. Por esse motivo é normal os adolescentes terem uma atração pelos comportamentos desviantes já que estão a testar os seus próprios limites. Nesta idade também o jovem aprende as capacidades de socialização com os seus pares, de desenvolver a sua autoestima, e de se integrar na sociedade. Se essa integração for feita com base no uso de substâncias como álcool, tabaco, drogas ou outros comportamentos desviantes, será assim que o jovem irá estabelecer a sua socialização como adulto. Assim, se aprende que com o álcool se desinibe e consegue falar com todas as pessoas, essa será a sua muleta numa vida adulta para socializar e usará sempre o álcool em ambientes sociais. Se uma adolescente entende que tendo um comportamento mais sexualizado se torna popular entre os seus pares, de forma inconsciente interiorizará que essa pode ser a sua forma como adulta de se integrar nos grupos e de obter a aprovação dos pares.

Em termos de aprendizagem social, os jovens reproduzem os comportamentos que a sociedade lhes incute e aquilo que é reproduzido pelo resto da sociedade. Hoje assistimos a uma sociedade que retrata como normais situações em que as relações amorosas se iniciam através da sexualidade, em que uma das partes avalia os atributos físicos da outra parte, ou pode “experimentar” duas pessoas e escolher uma delas, como vemos em programas como “Naked Atraction” na SIC Radical ou “Quem quer namorar com um agricultor” na SIC. Ora quando os jovens veem em todo o lado reproduzidos estes comportamentos, estes tornam-se o novo normal, o jovem aceita que essa deve ser a forma normal de socializar e de se relacionar.

A literatura também já identificou aquelas que são as fontes de socialização das crianças e dos jovens, como sendo os pais, os pares, a escola e os media, tendo cada um deles importância distinta consoante a idade das crianças e jovens.

Começando pelos pais, eles são a primeira e principal fonte de socialização da criança de tenra idade. São eles que mostram os padrões de comportamento e de relacionamento à criança e que ficam como a primeira referência daquilo que é normal. Se a criança observa os pais numa relação desigual, do tipo patriarcal, e entende que a mãe se sente obrigada a se produzir e embonecar para agradar ao pai, enquanto que este mostra pouco respeito pelo lar, esta será a relação tida como normal para o jovem. Felizmente vemos muitas mudanças na sociedade, e as novas gerações estarão mais igualitárias, mas Portugal continua a ser um dos países com as maiores desigualdades de género, e provavelmente os pais destes jovens que hoje têm cerca de 20 anos, ainda reproduzem esse estereótipo. 

Passando para os pares, a partir da adolescência eles são a referência principal e o jovem vive com a preocupação de se integrar no seu grupo de pares. Dependendo da estrutura que o jovem tiver, quer em termos de estrutura familiar, quer em termos da sua autoestima e confiança em si próprio, o jovem pode estar mais ou menos suscetível à influência dos pares. Infelizmente muitas vezes assistimos à inércia dos pares, isto é, ainda que os jovens vejam os seus colegas e amigos a terem comportamentos que não consideram adequados, não lhes chamam a atenção, não os fazem ver que estão errados. Ainda é vigente em Portugal a cultura do “não se intrometer”, ou “cada um sabe de si”. E quando um jovem não tem qualquer estrutura, esta ausência de chamada de atenção ainda agudiza mais o problema. Mais facilmente se fala nas costas das pessoas do que se chama a atenção na frente. Num jovem é importante chamar a atenção, mostrar que existem outras formas de comportamento. Sobretudo vindo dos adultos que não os pais, uma palavra dita na hora certa pode fazer toda a diferença. Muitas vezes os próprios jovens têm dúvidas sobre se estão a agir de forma correta, mas se ninguém interferir nesse processo, o jovem convence-se que é normal, que é assim que se faz.

Temos depois a escola, onde as crianças e jovens passam grande parte dos seus dias, e onde se convencionou que toda a aprendizagem deve passar. Hoje em dia a escola veicula conhecimentos técnicos como português, matemática, entre outras matérias, cuida ainda da formação cívica das crianças, e tem agora como obrigatória a educação sexual das mesmas. Sendo um assunto tabu e bastante controverso numa sociedade tão conservadora, e estando essa responsabilidade muitas vezes em cima dos diretores de turma, algumas escolas optam por terem esses conteúdos ministrados por pessoas da área da saúde, reduzindo a educação sexual a meros conhecimentos técnicos.

Muitos destes vídeos são apanhados por redes de pornografia que os utilizam fazendo negócio com os mesmos

E por fim vêm os media, que como já vimos são os que mais reproduzem e normalizam estes comportamentos. Se há vinte anos atrás a MTV era um canal de música, hoje é um canal de reality shows tão absurdos como o “Ex on the beach” que já vai na temporada 9!!! Vários estudos já demonstraram que o sexo vende e por isso desde os programas dos canais, passando pela publicidade (toda a gente assistiu por exemplo à famosa campanha do detergente Surf promovido por um homem todo plastificado mas com o famoso 6-pack), e terminando nos nossos programas e shows humorísticos onde as piadas mais famosas são regra geral deste teor (como a posição à franguinho que ficou tão famosa pelos Gatos Fedorentos).

Vivemos hoje ainda por cima numa sociedade em que predominam os media digitais, os quais vieram amplificar todos estes fenómenos, e fazendo de cada um de nós um repórter. Nos media digitais falamos hoje de conteúdos gerados pelos utilizadores, falamos do imediatismo da comunicação e falamos também inevitavelmente de riscos de propagação desses conteúdos via redes sociais, Instastories e outras Stories. Hoje, sem qualquer filtro os jovens colocam fotos de vídeos de si mesmos e dos colegas nas redes sociais e a sua imagem e reputação depende dessas imagens e desses vídeos. Num dos vídeos desta semana via-se uma jovem com a cara destapada, seminua, com a barriga e os seios todos escritos com assinaturas e mensagens, e que se ria enquanto lhe colocavam álcool no umbigo e um colega seu bebia, e ao mesmo tempo outro lhe acariciava as suas partes íntimas. Tudo isto filmado por outro(a) jovem, sem qualquer pudor, com imensa assistência em volta que se ria de toda a cena, jovem esse que fez circular o mesmo vídeo, e que ainda estava disponível no Vimeo quando escrevi este artigo. Milhares de pessoas podem hoje reconhecer essa jovem, incluindo os seus próprios pais.

Além do risco social, conforme referiu esta semana à TVI24 o especialista em segurança na internet de crianças, Tito de Morais, muitos destes vídeos são apanhados por redes de pornografia que os utilizam fazendo negócio com os mesmos.

Ao mesmo tempo, assistimos hoje a um maior cuidado com certos temas, e a um avolumar de informação. Existe por exemplo hoje um maior cuidado com a violência sexual e no namoro, visível até pela existência do Ponto Lilás, o qual, segundo o Observador é um "espaço localizado no interior do queimódromo que tem como objetivo “ações de sensibilização para uma maior responsabilidade social”". Numa época em que existe mais informação, em que há mais debate sobre questões como igualdade de género, educação para a sexualidade, parece um paradoxo que no mesmo espaço coexistam o movimento de prevenção da violência sexual, e estes comportamentos nas barraquinhas da Queima das Fitas. Dizer que o problema está circunscrito a três barracas da Queima das Fitas do Porto, as quais foram sancionadas com uma noite de encerramento e obrigadas a retirar os filmes dos seus perfis de Instagram, é ignorar o real problema que está por trás disto tudo, que é o facto de estarmos a educar as nossas crianças e jovens numa sociedade onde a sexualidade é pública e tida como normal, e onde a moralidade é algo do século passado e que ninguém tem o direito de se meter na vida de ninguém. Falsa liberdade esta!

NOTA: em todo o artigo utilizei na sua maioria exemplos de relações ditas tradicionais do tipo pai, mãe e relações heterossexuais apenas como casos ilustrativos já que as cenas que foram filmadas na queima das fitas do Porto representavam o estereótipo de uma sociedade heterossexual. Em caso algum pretendi excluir as relações homossexuais ou considera-las como “não normais” e peço desculpa se dessa forma este artigo não representa toda a sociedade.

Luísa Agante é professora de marketing na Faculdade de Economia do Porto e especialista em comportamento do consumidor infantil e juvenil. Tem uma página no Facebook chamada "Agante & Kids" na qual publica e partilha regularmente conteúdos informativos sobre comportamento infantil para pais e educadores.

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