O número pode ser conservador. A violência armada em Cabo Delgado, desde 2017, tem separado as crianças das suas famílias, disse, em entrevista à Lusa, Cláudio Julaia, especialista em emergência do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em Moçambique.

“As necessidades destas crianças são imensas, elas precisam de assistência alimentar e abrigo”, além de apoio psicológico, declarou, a propósito da celebração do Dia Internacional da Criança.

A maior parte das duas mil crianças estão abrigadas em casas de famílias deslocadas solidárias nos centros de acolhimento, mas, segundo o Unicef, não é um “processo fácil”.

“O que nós temos feito é identificar, em centros de acolhimento ou nos bairros, famílias que estejam dispostas a acolher estas crianças. Dá-se um treino a estas famílias e uma assistência adicional”, declarou.

No total, segundo Cláudio Julaia, há, pelo menos, 364 mil crianças entre os cerca de 700 mil deslocados devido ao conflito, menores que estão distribuídos por cinco províncias, nomeadamente Cabo Delgado, Niassa, Nampula, Zambézia e Sofala, num dado descrito pelo Unicef como “preocupante”.

“Quase 90% das crianças deslocadas está em Cabo Delgado e muitas destas crianças vivem em casas de familiares. É preocupante perceber que o número tem estado a aumentar”, frisou.

Além da assistência alimentar, o Unicef tem apostado no apoio psicológico dos menores, abalados com violência.

“Neste momento, cerca de 1.700 crianças foram assistidas em termos de apoio psicossocial, através de uma iniciativa designada `amigos das crianças´. São espaços onde as crianças têm oportunidade de brincar e ter acesso a recriação para ajudar a ultrapassar o trauma”, acrescentou.

O aumento do número das crianças que precisam de ajuda em Cabo Delgado preocupa a organização, num momento em que o Unicef alerta para um défice orçamental de 31 milhões de dólares (25 milhões de euros) para a sua operação.

“A situação de financiamento não está boa”, declarou Cláudio Julaia, acrescentando que o aumento do número de deslocados nos últimos meses deixa a situação “mais complexa”.

“Nesta altura temos alguns recursos para continuar a fazer a assistência em Cabo Delgado, mas, naturalmente, se não recebemos recursos adicionais vamos chegar a um ponto em que não teremos capacidade de continuar a apoiar as crianças”, alertou.

Grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, com alguns ataques reclamados pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.500 mortes segundo o projeto de registo de conflitos ACLED e 714.000 deslocados de acordo com o Governo moçambicano.

O número de deslocados aumentou com o ataque contra a vila de Palma em 24 de março, uma incursão que provocou dezenas de mortos e feridos, sem balanço oficial anunciado.

As autoridades moçambicanas anunciaram controlar a vila, mas aquele ataque levou a petrolífera Total a abandonar por tempo indeterminado o recinto do empreendimento que tinha início de produção previsto para 2024 e no qual estão ancoradas muitas das expectativas de crescimento económico na próxima década.

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