A apneia do sono é uma doença em que as pessoas param de respirar por pequenos períodos durante o sono. Nalguns casos, os mais comuns, o diafragma e os músculos respiratórios deixam de funcionar por falta do estímulo cerebral que controla a respiração. É a chamada apneia de sono central. No entanto, em mais de 80% dos casos, a respiração é interrompida devido a uma obstrução das vias respiratórias, falando-se em Apneia Obstrutiva do Sono (AOS).

A apneia na infância

Se o seu filho ressona, não é certo que ele tenha apneia do sono, mas essa é, sem dúvida, uma possibilidade. Segundo dados divulgados pela American Academy of Family Physicians (AAFP), estima-se que 3% a 12% das crianças ressonem e que um a dez por cento tenha AOS.

Em Inglaterra, esta probabilidade é de um a três por cento para as crianças que frequentam a escola primária, de acordo com dados do Royal College of Paediatrics and Child Health (RCPCH). A boa notícia é que a maioria destas crianças tem sintomas moderados e que muitas superam a doença.

Um aspirador danificado

A principal causa da AOS nas crianças é, segundo um estudo publicado pela AAFP, «uma interacção complexa entre o aumento dos adenóides (localizados por detrás do nariz) e a perda de tonicidade neuromuscular». Anselmo Pinto, otorrinolaringologista especialista em sono, ilustra a situação comparando o sistema respiratório a um aspirador.

«A nossa traqueia tem anéis rígidos como o tubo de um aspirador e, ao inspirarmos o ar, o nosso pulmão cria uma pressão negativa. Os músculos ligados à parede da traqueia mantêm a via aérea aberta durante o dia mas, quando dormimos, temos uma traqueia com paredes mais relaxadas, logo maior tendência a sofrer lesões».

Este cenário, próprio de um aparelho respiratório saudável, agrava-se quando há uma obstrução da via aérea. «A obstrução pode ser parcial (hipoapneia) ou total (apneia), e pode ser no nariz, na sua parte lateral, no espaço posterior nasal (a parte de trás do palato), na faringe (onde estão a língua e as amígdalas) ou antes das cordas vocais. É o correspondente a taparmos a ponta do tubo do aspirador, impedindo o fluxo do ar e fazendo com que colapse mais facilmente», explica.

As consequências

O ar que circula pelo sistema respiratório tem uma característica que o distingue inequivocamente de um aparelho de limpeza que é o oxigénio, essencial para o funcionamento saudável do organismo. Assim, a consequência mais imediata da AOS é a falta de oxigenação, que tem inúmeros riscos associados.

«Há consequências ao nível da libertação de hormonas de crescimento, instabilidade e agitação da criança, problemas de memória, comportamento, mau aproveitamento escolar, hipertensão, problemas pulmonares, entre outros», esclarece Anselmo Pinto.

Efeitos a longo prazo

Bastam cinco segundos de interrupção na respiração de uma criança para se considerar que existe AOS, mas os efeitos podem afetá-la toda a vida. «Está provado e doseado que a somotoprofina, uma hormona do crescimento, é libertada principalmente na fase 3 do sono e que é muitíssimo reduzida se houver fragmentação do sono. Se a criança não oxigenar bem ao longo de todo o  processo de crescimento, é a plenitude do seu desenvolvimento físico e intelectual que está em causa», alerta o especialista.

Nos casos mais graves, a AOS pode conduzir a hipertensão pulmonar ou cor pulmonale (uma forma de insuficiência cardíaca). Segundo a APA, muitas das crianças com hiperatividade ou défice de atenção têm problemas respiratórios e deveriam receber tratamento adequado.

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Os sinais de alarme a que deve estar atento

Cerca de 90 por sento dos casos de AOS são detetados graças aos relatos de pais que identificam sinais suspeitos no comportamento dos filhos, durante o sono ou na rotina diurna, como sonolência, hiperatividade, problemas de concentração. De acordo com a AAFP, em crianças com menos de cinco anos, o ressonar é a queixa mais comum, mas também a respiração pela boca, transpiração e agitação nocturna.

Em crianças mais velhas, além do ressonar, a enurese (perda de urina durante a noite), problemas de comportamento, défice de atenção e insucesso escolar são as principais queixas. O Royal College of Paediatrics and Child Health organiza da seguinte forma os sintomas da AOS:

Durante o sono

- Ressonar ou bufar

- Arfar ou respiração difícil

- Pausas na respiração

- Posições estranhas a dormir

- Transpiração

- Enurese

Durante o dia

- Problemas de comportamento

- Falta de concentração

- Cansaço excessivo

- Défice de desenvolvimento

- Respiração pela boca e discurso nasalado

- Deformação do peito

Ressonar não é normal

Na verdade, o que conta para detetar a doença é a combinação de sintomas, já que muitos são comuns em crianças que não têm qualquer problema de respiração durante o sono. Há, no entanto, um sinal que se destaca. «Ressonar não é normal, seja numa criança ou num adulto. O ressonar é um barulho que resulta de uma vibração, o que significa que há qualquer coisa que fecha a via aérea, por isso é um sinal de alarme que deve ser investigado», assegura Anselmo Pinto.

Causas possíveis

90 por cento dos casos de apneia obstrutiva em crianças de sete a oito anos devem-se a hipertrofia das amígdalas ou dos adenóides. No entanto, a obstrução pode dever-se também ao tamanho exagerado da língua ou dos pólipos nasais, bem como a uma malformação da laringe ou do maxilar, entre outros. Numa minoria de casos, a AOS está associada a doenças como Síndrome de Down, doença neuromuscular, anomalias crânio-faciais, acondroplasia, mucopolissacaridose e Síndrome de Prader-Willi.

Veja na página seguinte: É possível prevenir a apneia?

É possível prevenir a apneia?

Uma vez que as causas da apneia são muito diversas, não se pode falar em prevenção em termos absolutos. Por exemplo, se a obstrução que causa a apneia tiver origem num problema anatómico, como o tamanho excessivo das amígdalas, não será possível  prevenir essa situação. Existem, no entanto, hábitos de vida que podem fazer a diferença, nomeadamente ao nível da higiene do sono, alimentação e exercício físico.

O fator peso

O excesso de peso e a obesidade são considerados fatores de risco da apneia do sono. Esta associação explica-se, segundo Anselmo Pinto, pelo facto de a gordura acumulada a nível abdominal e do pescoço originar uma obstrução que pode causar ou agravar a apneia. Contudo, o aumento de peso também pode ser uma consequência a longo prazo da apneia. «O facto de existir apneia vai causar uma variação na querilina, uma das substâncias responsáveis pelo apetite», refere Anselmo Pinto.

Além disso, «a falta desta substância faz com que uma criança com apneia não só tenha mais apetite, como sinta também menos saciedade. Como resultado, tem tendência para comer mais», afirma o especialista. Desta forma, os cuidados com a alimentação são essenciais. Até porque, sublinha Anselmo Pinto, quando a sensação de saciedade diminui, há tendência para se comer pior, privilegiando alimentos muito calóricos e com substâncias energéticas que prejudicam o sono.

E agora o que fazer?

Se o seu filho tem mais do que um dos sintomas referidos, deverá levá-lo a um pediatra. Um médico familiarizado com as questões do sono fará uma observação da boca para identificar as possíveis origens da obstrução, ou encaminhará a criança para um otorrinolaringologista ou um pneumologista que se dedique a questões do sono.

A objetividade das informações que fornecer em relação aos sintomas  assume um papel central no diagnóstico. Por exemplo, não diga «o meu filho mexe-se muito», saiba indicar com que frequência ele acorda ou pára de respirar. Se necessário, coloque um gravador no quarto para documentar o seu sono.

Meios de diagnóstico  

Perante uma suspeita de apneia e a possibilidade de haver um problema anatómico, a observação da boca pode não ser suficientemente esclarecedora. Neste caso, é comum realizar-se uma fibroscopia, isto é, um exame em que um aparelho de fibra óptica é introduzido pelo nariz para verificar o que pode estar na origem da obstrução.

Este exame pode chegar para complementar a suspeita dada pelos sintomas e conduzir a um diagnóstico de apneia e respetivo tratamento. No entanto, a única forma de se poder afirmar com certeza que existe ou não apneia obstrutiva do sono é a realização de um estudo polissonográfico do sono ou polissoniografia.

Segundo Anselmo Pires, o teste da pressão esofágica pode ser útil para evitar possíveis diagnósticos errados, nomeadamente o diagnóstico de apneia central quando o que está em causa é, na verdade, uma apneia obstrutiva. Este exame envolve a introdução de uma cânula no esófago através do nariz durante uma noite, mas só é aplicado em crianças em casos muito excepionais.

Texto: Rita Miguel

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