Dirigir um filme ou interpretar um texto de José Saramago são dois dos principais desejos de Leona Cavalli no que diz respeito ao lado profissional. A atriz brasileira esteve a desfrutar de alguns dias de descanso em Portugal, destino que já foi escolhido várias vezes para passear e também trabalhar. No entanto, nunca colaborou com uma produção portuguesa.

Em entrevista ao Fama ao Minuto, Leona Cavalli explicou que esta recente viagem ao país serviu para "passear" de novo pelo país e aproveitar para "descansar".

"Quis conhecer a Casa-Museu Amália Rodrigues. Sou apaixonada por Fernando Pessoa, por isso também quis conhecer a Casa Fernando Pessoa", destaca também, frisando de seguida a sua admiração a José Saramago. "Amo muito. Quando o Saramago foi ao Brasil lançar o livro ‘As Intermitências da Morte’, chamaram-me para fazer uma leitura. E fiz na presença dele, há alguns anos, antes de ele falecer. Foi muito especial", recorda com carinho.

"Conheço muitos lugares aqui, tenho amigos em Cascais... Já vim cá várias vezes e todas as vezes sinto-me muito bem, e muito bem recebida", afirma ainda. Mas a conversa não se centrou apenas na sua admiração por Portugal, pois também falou sobre a carreira, o estilo de vida saudável e recordou a infância.

Recordando a sua visita a Portugal 2016, quando viveu um episódio menos bom em Lisboa… Como foi o desfecho dessa história?

Quando tive o furto? Eu fui a um café que estava muito cheio e fiquei a conversar com alguns amigos, lembro-me até que estava a procurar na Internet alguma poesia bonita de Fernando Pessoa e quando vi a minha mala não estava ali. As pessoas foram muito atenciosas e disseram que isso às vezes acontecia porque estava muito cheio, tinha muita gente, infelizmente. Mas, ainda assim, fui muito bem atendida, não tenho nada a reclamar.

Se lhe desse a escolher cinco coisas que mais gosta em Portugal o que seria?

Gosto do clima, tem as estações muito bem definidas. Sou brasileira, mas nasci no Rio Grande do Sul que é no sul do Brasil, e temos também estas estações. O meu pai é Pereira, então tenho descendência portuguesa. E gosto muito da cultura daqui, das pessoas, da literatura. Como atriz, tenho uma pesquisa grande da nossa língua. Gosto muito da culinária, esses doces maravilhosos que só encontramos aqui. Nas existe pastel de nata como os daqui. Por incrível que parece, quando as pessoas falam de Portugal não costumam falar da natureza. Eu gosto muito da natureza daqui, dos campos, o clima, a região...

Todas as personagens ensinam-me muito

Já esteve várias vezes em Portugal, inclusive a apresentar trabalhos seus, mas nunca fez nenhum produção portuguesa?

Não. Tenho muita vontade de fazer. Gostava [de receber um convite]. Há muitos atores aqui neste momento, há muitos brasileiros aqui como também há muitos portugueses lá.

E imaginava-se a mudar-se para Portugal para viver?

Talvez. Por um tempo, quem sabe.

Já interpretou várias personagens, mas de todas as que fez até aqui, qual foi a mais desafiante?

São várias, mas para falar de alguma que tenha sido exibida aqui, por exemplo, recentemente fiz uma novela que se chama ‘Totalmente Demais’, e foi com o Paulo Rocha, que é um ator português. É excelente, gosto muito dele como pessoa e como ator. E foi uma personagem bem desafiante porque a personagem do Paulo era um vilão e eu fazia de mulher dele, mãe de uma menina que sofria violência doméstica por baixo do marido (personagem do Paulo). Então eles enfrentavam uma situação muito delicada. É um tema muito delicado, infelizmente é um tema muito comum. Na época, pouco tempo antes da pandemia, a produção fez uma pesquisa e, infelizmente, deu um resultado muito grande de famílias que sofrem de violência doméstica, e parece que agora com a pandemia esse número aumentou.

Depois dessa novela, fiz ‘Órfãos da Terra’ que ganhou um Emmy Internacional, que fala sobre os refugiados. É uma outra realidade que vemos no mundo inteiro. Foi uma novela bem marcante também para mim e com uma personagem muito desafiante.

No teatro fiz recentemente a personagem da Frida Kahlo. Ela viveu uma vida de muitos desafios. Ela inventou, praticamente, a pintura, o auto-retrato, os traços geniais que ela tinha únicos no mundo inteiro até hoje e que sofreu mais de 30 operações. Tinha um problema na coluna, na perna… Ela ensinou-me muito essa coisa de valorizar o momento, o instante, com felicidade. Lembro-me de nos ensaios dizer: Se a Frida não reclamava, por que é que eu vou reclamar? Essa coisa de não reclamarmos à toa. Situações que podem parecer muito difíceis, com certeza que são passageiras e há pessoas que vivem situações muito piores. Todas as personagens ensinam-me muito.

Ainda tenho muitos desejos a conquistar, sonhos… Um deles seria escrever um livro sobre os desafios da representação. Quem sabe também trabalhar aqui em Portugal

E qual das personagens acaba por ser mais parecida com a própria Leona?

É delicado porque como atriz acho que sou muito diferente das minhas personagens. Por outro lado, tenho um pouco de cada, com certeza, porque se não fosse assim não poderia interpretá-las. Para citar algumas, no caso que dei agora da Frida, acho que é a paixão pela arte. No teatro já fiz Medeia, Blanche Dubois, de Tennessee Williams, já fiz Ofélia, de William Shakespeare… Acho que nestas personagens todas existiu uma intensidade do amor por algo, por alguém, nas grandes paixões, nas grandes tragédias, ou por um ofício. E aí acho que consigo identificar alguma coisa minha porque sou atriz por uma grande paixão.

Nasci numa cidade pequena que não tinha atores. Tive que me reinventar, viajar muito e muito atrás do meu desejo de me tornar uma atriz profissional e de alimentar a paixão que tenho pela arte, constantemente, para poder ser atriz e renovar-me o tempo todo. Esse alimento da paixão pela arte eu identifico em algumas personagens, mesmo que não seja pela arte no caso das personagens, mas é o que me faz ter força para interpretar diferentes personagens.

Por volta dos 14 anos viajou para o Rio de Janeiro para ver uma peça de teatro. O que recorda desse momento e o que idealizava?

Fui assistir a um espetáculo de uma grande atriz brasileira, a Tônia Carrero. Ela estava a fazer um espetáculo onde interpretava a grande atriz francesa Sarah Bernhardt. Naquele momento, encantei-me com a Sarah Bernhardt e com a interpretação da Tônia. Desejei naquele momento ser uma atriz profissional e poder fazer grandes personagens, grandes papéis.

Com a Graça de Deus e com a sorte de encontrar muitos amigos e profissionais extremamente talentosos, tenho conseguido. Agora neste momento estou muito feliz também porque em São Paulo vão colocar o meu nome num teatro. Isso para uma atriz é uma realização muito grande, estou muito feliz. Mas ainda tenho muitos desejos a conquistar, sonhos… Um deles seria escrever um livro sobre a representação, os desafios da representação. Quem sabe também trabalhar aqui em Portugal.

Uma grande pedra no caminho, não só do ator mas nosso como ser humano, é o preconceito

E quais são os desafios que gostava de partilhar com o mundo?

Tem alguns desafios. Chamo de caminho das pedras porque considerei alguns desafios como pedras no sentido em que tanto podem impedir um caminho como se trabalhadas elas podem fortalecer o caminho. Uma grande pedra no caminho, não só do ator mas nosso como ser humano, é o preconceito. Tanto nos deixa presos ao passado como também impede o crescimento. Por exemplo, para um ator, ter preconceito significa limitar a possibilidade de interpretar diversos papéis.

Eu como atriz não posso ter preconceito com determinados aspetos humanos. Se for fazer uma vilã terrível, uma pessoa que seja moralmente condenável, se eu tiver preconceito com a personagem, não a consigo interpretar. Por exemplo, fiz uma novela, ‘Amor à Vida’, e interpretei uma médica que cometia um grave erro médico propositadamente, uma coisa absurda, completamente condenado, mas quando vou interpretar não posso condenar, porque se condeno, não consigo colocar-me no lugar daquela personagem. Não posso julgar.

Esse não julgar como atriz trago para a minha vida, porque se julgo primeiro não consigo interpretar com a entrega suficiente para dar vida àquela personagem. Toda a personagem tem um lado negativo e um lado bom também, um lado desafiante, independentemente de ser vilão ou boazinha. E também na vida, se coloco um julgamento antes, não consigo usufruir de pessoas e lugares diferentes, de coisas novas. O julgamento é uma grande pedra tanto no sentido do desafio, de ser trabalhado, como também no positivo porque quando não julgo torno-me aberta a possibilidades diferentes.

No início da sua conversa falou muito sobre a literatura portuguesa… Tendo um pai que gosta de escrever, acabou por influenciar esse seu gosto pela literatura?

Acho que sim. O meu pai gosta muito de escrever, de poesia. Acho que tem dele esse gosto pela escrita, pela poesia, pela língua portuguesa. Eu realmente sou muito apaixonada.

Uma coisa que a mim me preocupa muito, e acredito que à maioria dos brasileiros e no mundo inteiro, é a situação da Amazónia

Quais os melhores momentos que recorda da infância?

Tive uma infância numa cidade muito agrícola, muito próxima de campos e fazenda. Recordo-me muito desse contacto com a natureza, de andar a cavalo, de subir árvores, de comer fruta diretamente da árvore… E também das peças de teatro que via porque foi em criança que me encantei com a representação e que decidi ser atriz. Decidi ser atriz porque vi algumas peças infantis, e é muito importante esse gosto da criança. Agora também lancei um livro infantil no Brasil, uma história infantil de uma personagem, uma palhacinha. Acho que é muito importante esse desenvolver a educação, o olhar da criança para a cultura, que foi assim que eu me encantei.

Aos 51 anos, quais são os truques para manter a boa forma física e um estilo de vida saudável?

Sou vegetariana há muito tempo, não que seja por isso porque não significa, necessariamente, que tenha saúde. Mas pelo facto de ser vegetariana, cuida da alimentação, bebo muita água, não tenho hábito de beber bebidas alcoólicas e nem fumo... Acho que isso, com certeza, ajuda. E adoro praticar exercício… Acho que uma boa alimentação, saudável, muita água e exercício ajuda.

Dos artistas portugueses tem algum que seja uma inspiração para si?

A Maria De Medeiros é muito amada no Brasil e eu sou muito fã dela.

O Brasil é muitas vezes notícia, também em Portugal, no que à política diz respeito… Como vê o estado atual do Brasil?

Acho que neste momento está com muita esperança de melhorar. Temos novas eleições em breve… Agora, a situação é muito difícil. Estamos todos a viver uma situação muito difícil de necessidade de renovação. Uma coisa que a mim me preocupa muito, e acredito que à maioria dos brasileiros e no mundo inteiro, é a situação da Amazónia. Da preservação dos povos indígenas e da nossa floresta. Infelizmente, essa é uma das grandes questões do governo Bolsonaro porque eles não só não valorizam como apoiam a depredação. Essa é uma grande questão mas, por outro lado, como temos as eleições próximas, existe um sentido de esperança e renovação que espero que se concretize.

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