Não fez parte das Doce mas acompanhou de (muito) perto o reboliço que era a vida da popular banda feminina no início da década de 1980. "Quando vim para a faculdade, tinha uma bolsa de estudo de 3.250 escudos, vivia numa residência universitária e, por causa de receber aquele dinheiro não podia aceitar trabalhos que dessem muito nas vistas", recorda Mila Ferreira, cantora, compositora, apresentadora, advogada, atriz e preparadora física. Na altura, a música, uma paixão, ainda não era uma prioridade.

"Eu queria, essencialmente, concluir aquele capítulo da minha vida, que era o meu curso", assume, em declarações exclusivas, ao Modern Life/SAPO Lifestyle. "Rejeitei muitas propostas profissionais, mas tudo o que eu fazia na altura não poderia ter muito destaque", justifica a artista. Fez coros em êxitos intemporais como "Ali Babá" e "Bem bom". "Gravei com elas ainda antes de vencerem [o Festival da Canção da RTP] e, depois, estive com elas em Inglaterra. Foi muito giro", recorda a cantora de 58 anos.

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"Bem bom", o filme da realizadora Patrícia Sequeira, que acaba de estrear nas salas portuguesas, recorda o período que antecede a participação das Doce no Festival Eurovisão da Canção de 1982, em Harrogate, no Reino Unido. A girlband portuguesa foi a primeira a subir ao palco, na noite de 24 de abril de 1982. E Mila Ferreira estava lá. "Não devo aparecer no filme e, se eventualmente aparecesse, aparecia um bocadinho gordinha, porque eu tinha deixado de fumar e tinha engordado 14 quilos. Mas, se aparecer, terei muito gosto em me ver lá", confidenciou ao Modern Life/SAPO Lifestyle numa das últimas entrevistas que deu antes da pandemia.

"Eu não tive muita importância, era a voz grave daquilo", justifica a intérprete de "Ruas de fogo" e "Agora eu sei". "Qualquer pessoa faria o meu papel muito bem. Eu só cantava. Era uma pessoa sem importância nenhuma. Era prescindível, qualquer pessoa podia fazer aquele papel", afirma a irmã da cantora, compositora e atriz Adelaide Ferreira. "Mas, sim, convivi com elas. Elas eram muito engraçadas. Vestiam-se muito bem, cuidavam muito da imagem e tinham grandes músicas", elogia ainda Mila Ferreira.

"Tinham uma grande performance em termos de palco e, depois, tinham efetivamente muito cuidado com a imagem. Às vezes, é preciso passares a ser artista para perceberes que aquilo podia parecer um bocadinho exagerado ao público mas aquilo era o negócio do espetáculo a funcionar. E, hoje em dia, como vemos a nível internacional, o visual é muito importante. Lembro-me que, pelo menos, a Laura Diogo mudava de roupa três vezes por dia", revela Mila Ferreira. Na altura, aquele frenesim não era habitual no meio.

"Havia muitos encontros com várias comunidades musicais ao longo do dia e, para cada local, elas levavam uma roupa. Na altura, eu era uma pessoa muito humilde e ficava surpreendida mas hoje, a esta distância, isso faz-me muito sentido. Foi um convívio muito são. Gostei imenso de participar nas Doce como coralista", desabafa Mila Ferreira. Apesar de serem comuns as rivalidades entre mulheres, a artista desvaloriza. Laura Diogo, conhecida pela personalidade forte, nunca a intimidou. Muito pelo contrário.

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"Não, elas eram sobretudo muito profissionais. O convívio que havia era estritamente profissional mas, mais tarde, até cheguei a ter uma parceria com a Laura Diogo no meu primeiro disco. Eu achei sempre que ela era uma mulher muito rigorosa e muito profissional. Dizia aquilo que tinha que dizer às pessoas. Na altura, eu tive um problema que me fez tomar uma injeção de cortisona e aquilo fez-me um efeito desgraçado. Até me cresceu o bigode", desabafa entre risos. "Eu tinha que tirar as fotografias para a capa do álbum e ela disse-me, com toda a frontalidade que lhe era característica, que tinha de o tirar", revela.

"Eu só naquele momento é que me apercebi de que tinha bigode. Entretanto, aquilo caiu", esclarece. "Mas ela era uma pessoa muito direta e muito profissional. Uma mulher que talha a direito. Simpática e amável. Não tenho qualquer razão de queixa. Achava muita graça à Helena Coelho. A Laura era muito bonita, mas a Helena Coelho era lindíssima. A Fátima [Padinha] era uma maravilha de pessoa e a Teresa [Miguel] uma pessoa muito amiga do seu amigo. Guardo grandes recordações daquela época", admite.

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