A sorte ditou que se dedicasse à música e deixasse os estudos para trás. Aos 20 anos inicia um percurso notável que lhe viria a dar o estatuto de um dos mais aclamados artistas nacionais. Com as suas canções românticas derreteu o coração das fãs, fechou ruas, fez parar o trânsito e viveu histórias memoráveis que agora recorda em entrevista ao Notícias ao Minuto.

Foi o primeiro músico a representar Portugal no festival da Eurovisão, subiu aos palcos do teatro para ser cabeça de cartaz na revista à portuguesa e primeira figura no cinema nacional.

No circo ou no casino, foi a cantar que ultrapassou os momentos mais difíceis de uma carreira que foi sempre a sua maior prioridade.

O António Calvário faz do mundo artístico a sua vida há mais de 60 anos. Como nasce esta sua paixão?

A minha paixão pelas artes começa de miúdo. A minha grande loucura era o piano, nunca pensei que um dia viria a cantar. Nasci em África, sou de Lourenço Marques, e com sete anos convenci os meus pais a pagarem-me um professor de piano. Os meus pais não queriam muito que eu enveredasse por aí, tinham medo que depois deixasse de estudar.

Além do piano, sabemos que chegou a pensar em ser padre. Porquê?

Fiz a comunhão em África e lá existia um padre, que era quem nos ensinava e nos dava a catequese. Era já um senhor velhote, mas muito carinhoso para com as crianças. Eu achava-o de uma enorme ternura e como estando lá [em África] nunca conheci os meus avós, aquele velhote e a sua doçura significava para mim um avô. Eu dizia que queria ser padre porque gostaria de ser como ele: bom, ternurento, amigo das crianças.

Sendo que os seus pais não achavam piada à ideia de ser pianista, como é que os convenceu a ter aulas de piano?

Não dava muita atenção aos estudos, fui sempre um aluno médio. Como as coisas não estavam a correr muito bem, eu pedia que em vez de me oferecerem qualquer coisa pelo facto de passar de ano me pagassem um professor de piano.

E o canto, como nasce esta paixão?

O canto acontece numa das festas do colégio onde eu andava e o diretor do colégio disse-me que eu ia cantar. Contei à minha professora de piano e pedi-lhe que me ajudasse. Depois de fazer um exercício vocal, a professora ficou muito admirada com a afinação da minha voz, sendo que eu nunca tinha cantado antes. A partir desse dia, a minha aula de piano passou a ser metade de piano e outra metade de canto e assim começou a nascer o tal gosto pelo canto.

A moeda ao ar ditou que deveria cantar e o estudo ficou para trás.

Seguiram-se depois, já em Lisboa, novas lições de canto e com uma atriz muito popular na época - Corina Freire.

Há uma altura em que eu tive de vir para Lisboa estudar, porque no Algarve só ia até ao 5º ano. Vim para o Colégio Académico e essa minha prima, que era prima direta da minha avó materna, prontificou-se a tomar conta das minhas aulas de piano. Continuávamos a dizer que era de piano para os meus pais não se zangarem, porque, para eles, canto estava fora de questão..

Quando cheguei cá [a Lisboa] fui visitar a minha prima e ela contou-me que não lecionava piano, apenas canto. Pronto, então que seja canto, respondi eu. Mais tarde, inscrevi-me na Emissora Nacional e, depois de estar muito bem preparado, passei esse concurso. Quem passava na emissora nacional estava lançado, passava a fazer parte de um grupo de artistas da Emissora Nacional e começava a ter uma divulgação grande.

A determinada altura era tratado de uma maneira que não estava habituado, foi aí que decidi que ia deixar de cantar e voltar aos estudos.

E é verdade que deixou nas mãos da sorte a decisão de deixar os estudos e dedicar-se apenas à carreira artística?

Foi mesmo uma moeda ao ar. Mas isso numa altura em que já me estava a tornar muito conhecido, estava a ter muito trabalho e já não estava a dar conta dos estudos. Tornei-me popular muito rápido, com 20 anos era uma figura super popular. A moeda ao ar ditou que deveria cantar e o estudo ficou para trás. Pronto, deixei de frequentar o Colégio Académico.

E os seus pais, como reagiram a essa decisão?

Eles não sabiam que eu tinha tomado esta decisão, quando souberam já era tarde demais. Houve uma altura, depois dos grandes sucessos, em que eu comecei a sentir-me um pouco desmotivado. As figuras públicas na época estavam sujeitas a insultos, existiam aqueles grupos que insultavam e não gostavam do artista. A determinada altura era tratado de uma maneira que não estava habituado, foi aí que decidi que ia deixar de cantar e voltar aos estudos. Fui ao Algarve ter com os meus pais e disse-lhes: vocês têm razão, eu vou continuar a estudar e vou deixar de cantar. O meu pai e a minha mãe disseram-me assim: ‘não, agora é tarde. Vais continuar porque estás numa fase em que seria um disparate deixares de cantar e parares a tua vida artística, ela está lançada’. E foi graças a eles que tudo continuou e que tudo foi acontecendo. O cinema, o teatro, as digressões mundiais…

De facto, o António fez sucesso no canto, no teatro de revista e também no cinema, em qual destas vertentes lhe deu mais gosto trabalhar?

Todas elas são distintas, eu gostei de todas essas áreas. Gostei muito do teatro de revista, o cinema encanta-me particularmente, mas não me posso esquecer que não há amor como o primeiro. O meu primeiro amor foi o canto, foi aquilo que me tornou conhecido.

Insultavam-me do pior e mais ordinário que me podiam chamar, foi aí que eu decidi que queria voltar ao anonimato e fui falar com os meus pais

Consegue apontar o momento em ditou o início do enorme sucesso que marca a sua carreira?

Sim, precisamente em 1960. Tinha eu 20 anos quando tive a sorte de ir cantar num festival da Emissora Nacional. A canção que me foi dada, curiosamente, tinha sido rejeitada por nomes já lançados na época. Ninguém queria aquela canção, não gostavam dela, e então foi a grande oportunidade que eu tive. Para minha sorte, essa foi a canção vencedora do festival e a que me lançou. Por regras do festival era obrigatório gravar as canções, aí surge o meu primeiro contrato com a Valentim de Carvalho. Claro, como foi um êxito, a rádio tocava aquela música chamada ‘O Regresso’, de manhã à noite. Ainda hoje é muito conhecida e continuo a cantá-la, faz parte do meu repertório.

Eu antigamente nem podia sair à rua, era uma coisa impressionante.

Seguiu-se depois uma enorme euforia à sua volta. O António transformou-se num artista de sucesso, como foi lidar com esse catapultar para a fama?

Tal como disse há pouco, eu não estava preparado para esse impacto tão grande e quando surgiram as cartas anónimas e os grupos que iam para patear pensei desistir. Alguns até atiravam ovos e isso enfurecia ainda mais os que me apoiavam, os clubes de fãs. Insultavam-me do pior e mais ordinário que me podiam chamar. Foi aí que eu decidi que queria voltar ao anonimato e fui falar com os meus pais, tal como contei há pouco.

E com a euforia dos fãs, daqueles que o admiravam, não teve dificuldades em lidar?

Habituei-me e acabou por ser fácil. É evidente que nunca me aborreci, isso eram manifestações de apoio daqueles que gostavam muito de mim e eu não os podia dececionar, não os podia magoar. Na verdade, eu só me sentia um pouco mais livre à noite e depois da meia-noite. Era evidente que encontrava alguém conhecido, mas era diferente. Porque, realmente, eu antigamente nem podia sair à rua, era uma coisa impressionante.

Houve camisas rasgadas, ruas cortadas... O que mais lhe aconteceu?

Rebentaram-me os pneus do carro no Porto, estava eu a dar autógrafos. Quando me quis ir embora tinha os pneus todos abertos. Lembro-me também que num teatro estava um aglomerado de fãs a gritar e uma delas caiu do balcão cá para baixo. Não teve graça nenhuma, mas isto aconteceu. Bem, como caiu por cima das outras pessoas é provável que essas pessoas tenham ficado pior que ela. Uma vez também, o carro que me transportava, devido ao aglomerado de fãs, passou por cima do pé de uma dessas pessoas.

Eu tenho tantas histórias que um dia resolvi escrever um livro que se chama ‘Histórias da minha História'.

Era realmente difícil sair à rua nessa altura?

Era, era. E quando ia às estreias dos meus filmes parecia o Presidente da República da época, que saía sempre guardado com motorizadas de polícias até chegar aos sítios. Era um bocado complicado.

O facto das fãs estarem dispostas a comprar a água do banho do António Calvário mostrava bem a loucura que havia por si.

Sim, sim! Eu tenho tantas histórias que um dia resolvi escrever um livro que se chama ‘Histórias da minha História’, que tem uma série de histórias engraçadas e verídicas e onde vem essa também. Eu estava no Porto e estava com uma companhia de teatro de revista. Fiquei instalado no hotel com alguns elementos da companhia, entre eles o Francisco Nicholson e a Henriqueta Maya. Um grupo de fãs juntou-se diante do hotel onde estávamos para falar comigo. Como não os deixavam subir, o Nicholson decidiu descer, porque eu não podia, e disse-lhes: 'vocês se quiserem passem por cá amanhã´, eu prometo arranjar uma garrafinhas com a água do banho do António Calvário'. Antigamente, os banhos eram de imersão e então era aquela água turva do banho. Claro que não houve água nenhuma do banho… fez-se uma sabonária no lavatório. Eram tudo ideias do Francisco Nicholson, eu não queria nada disso. ‘Lava aí as mãos e vamos encher os frasquinhos’, dizia ele. Depois escreveu um rótulo que dizia: ‘Água do banho de António Calvário’.

As admiradoras que não conseguiam estar comigo colocavam ameaças do género: ‘Se não estiver comigo às tantas horas é porque, de facto, você é maricas’.

E a verdade é que as fãs compraram, certo?

Sim, aquilo tinha um preço simbólico. Outras pessoas também bastava agarrarem-se à minha mão ou eu dar um beijinho e quando chegavam a casa lavavam as mãos e depois colocavam num frasquinho a água, só porque tinham tido aquele contacto da minha mão na mão delas.

Disse-me há pouco que chegou a receber cartas com insultos, mas sabemos que recebia também inúmeras mensagens de fãs e admiradores. Conseguia ter tempo para ler essas cartas?

Lia, claro. Muitas ficaram por ler, porque eram centenas de cartas por dia. A grande maioria pedia fotografias, outras eram declarações de amor e depois lá vinha uma ou outra com os tais insultos. Ah, depois havia também as ameaças. As admiradoras que não conseguiam estar comigo colocavam ameaças do género: ‘Se não estiver comigo às tantas horas é porque, de facto, você é maricas’. Não faltava mais nada ter de provar uma coisa dessas. A essas eu nem sequer respondia.

Ainda tem algumas dessas cartas guardadas?

Tenho várias, as melhores claro. Tenho muitas guardadas porque o meu pai fazia questão de as guardar, então tenho um caixote cheio de cartas. Passado muito tempo, quando abri algumas delas, percebi que cheguei a perder muito trabalho. Muitas dessas cartas eram propostas de trabalho, contratos.

O facto de o seu pai ter guardado essas cartas mostra que, apesar de ter seguido a carreira artística contra a vontade deles, os seus pais ficaram orgulhosos do seu percurso.

Sim, e acompanharam-me sempre a tudo o que eram estreias, os teatros, as revistas, os concursos e até ao estrangeiro me acompanharam. Foram sempre um grande apoio. Os meus pais foram fantásticos comigo em todos os aspetos, desde a minha meninice até eles desaparecerem.

Como é que eu poderia não dar atenção a uma pessoa que foi uma vida inteira admiradora do meu trabalho?

Falou há pouco no clube de fãs, ele ainda existe?

O clube de fãs não existe, mas existem algumas pessoas que fizeram parte desse grupo de fãs e que hoje são distintas avós e que muitas vezes, sempre que possível, continuam a ir aos meus espetáculos, as avós, as filhas e os netos. Algumas dessas pessoas com que eu estabeleci uma ligação maior, às vezes, fazem jantares em casa onde fazem questão de que eu esteja presente, eu vou sempre que posso.

Sempre tive muitas namoradas, mas nada de estar preso.

Ainda que hoje seja mais fácil para si andar na rua, quando sai ainda sente o carinho dos seus fãs?

Sim, no dia-a-dia. Nos supermercados onde vou vêm sempre ter comigo. Às vezes tenho pressa, mas não deixo de atender as pessoas para não as dececionar. Na grande maioria das vezes são pessoas que já têm alguma idade e que nunca me viram, como é que eu poderia não dar atenção a uma pessoa que foi uma vida inteira admiradora do meu trabalho? Seria uma deceção.

Foi também pelo fanatismo das fãs, de que falávamos há pouco, que nunca chegou a casar?

Sim! Naquela altura não era bem visto um cantor casado, perdia-se popularidade com isso. Tive colegas que eram casados e quando iam para os espetáculos tiravam a aliança do dedo. Depois, havia os colegas do teatro que casavam e o matrimónio durava pouco. Eu disse sempre que não cultivo a infelicidade. Não ia casar por casar, para três meses depois estar separado, não tinha tempo para esses problemas. Eu dizia na altura que era muito novo e que tinha tempo, entretanto tinha namoradas. Sempre tive muitas namoradas, mas nada de estar preso.

Não se arrepende de ter tomado essa decisão?

A minha carreira preencheu-me de tal maneira que não tive tempo de me arrepender. Entretanto tinha os meus sobrinhos, dediquei-me tanto que foram eles a preencher essa parte de não ter filhos. Os meus sobrinhos são, de facto, como se fossem meus filhos.

O seu enorme número de fãs do sexo feminino é facilmente justificável pelo facto de cantar músicas românticas. Assume-se como um cantor romântico?

Sim, acima de tudo eu sou um cantor romântico, embora cantasse um bocadinho de todos os géneros. Os meus espetáculos sempre foram variados e continuam a ser. Ainda hoje faço o mesmo que fazia antigamente, incluindo canções de grande sucesso da época e algumas mais recentes.

Qual a canção mais especial para si de todo o seu repertório?

É complicado responder, existiram muitas canções de que eu gostei e que nunca fizeram sucesso. Mas como o sucesso não aconteceu com as minhas preferidas, vou falar naquelas que se tornaram conhecidas. Não posso esquecer a primeira, ‘O Regresso’, que foi aquela que me lançou. Depois aconteceram outros sucessos pelos meio como a ‘Chorona’ ou o ‘Sabor a Sal’. Já depois do 25 de Abril surge um grande sucesso que perdura até hoje, o ‘Mocidade, Mocidade’. E ainda antes disso, claro, a minha participação no festival Eurovisão com o tema ‘Oração’.

Foi o primeiro representante de Portugal no Festival da Eurovisão onde, tal como disse, cantou o tema ‘Oração’, em 1964, como é que correu a sua experiência na Dinamarca?

Quando vou ao festival era uma figura intocável de popularidade. A experiência foi fantástica, um privilégio. Ainda hoje tenho muito reflexos na minha vida artística. É uma canção inesquecível, não saiu da memória dos portugueses.

Depois de eu ter cantado, entrou um individuo com um cartaz que dizia: abaixo Franco e Salazar, depois entrou a polícia e foi só batatada.

E a música ‘Oração’ fez sucesso mesmo internacionalmente.

Fez, sim. Ela agradou bastante, eu trouxe os jornais de vários países da Europa, incluindo da Dinamarca, onde as críticas eram fantásticas. Tive a sorte de que as coisas saíram bem, estava muito nervoso. Ia sozinho, nem sequer maestro levava, tudo isso podia ter uma influência negativa. Senti-me um bocadinho desprotegido, mas prevaleceu a vontade de vencer e que tudo corresse bem.

Nem o boicote à participação portuguesa, que aconteceu devido a questões políticas, conseguiu impedir o António de brilhar.

Não, felizmente isso aconteceu depois de eu ter cantado. Já existiam ameaças antes, mas a mim não me disseram nada. Havia uma ameaça de que iriam colocar uma bomba na sala de espetáculos, caso não retirassem a presença de Portugal e Espanha, por culpa dos regimes de [Francisco] Franco e [António de Oliveira] Salazar. Depois de eu ter cantado, entrou um individuo com um cartaz que dizia: abaixo Franco e Salazar, depois entrou a polícia e foi só batatada. Levaram o homem preso, mas só o público é que viu porque as câmaras não filmaram. Se acontecesse antes eu não sei se cantaria, porque eu tremia que nem varas verdes.

A sua participação no festival fê-lo nutrir um carinho especial pela Eurovisão?

Sim, é indiscutível. É uma marca muito importante na minha carreira.

De que forma viveu a vitória do Salvador Sobral, o primeiro português a ganhar o Festival da Eurovisão?

Achei maravilhoso, fiquei muito feliz. Finalmente Portugal ganhou, foi uma vitória merecida e eu senti que também ganhei com isso.

Foi complicado, deixei de ter trabalho, mas depois as coisas foram-se compondo. Foi uma fase, deixou-se de ouvir o que eu cantava.

Já depois do 25 de abril foi, tal como muitos outros artistas, associado ao regime Salazarista. Foi uma altura especialmente difícil para si?

Ao regime todos foram associados. Todas as pessoas que viveram nessa época estavam associadas, incluindo os militares que fizeram a revolução, se não tivessem servido o regime não teriam conseguido adquirir patentes. Podem não concordar, mas a verdade é que estiveram lá.

De que forma viveu essa fase mais conturbada?

Foi complicado, deixei de ter trabalho, mas depois as coisas foram-se compondo. Foi uma fase, deixou-se de ouvir o que eu cantava. Estavam na moda as canções revolucionárias, que nada tinham a ver com aquilo que eu cantava. A minha maneira de cantar não tinha nada a ver com política, eu cantei sempre aquilo que nos outros países cantavam os artistas locais, como por exemplo Charles Aznavour, Gilbert Bécaud, Édith Piaf, Frank Sinatra. Alguma vez o Frank Sinatra cantou uma canção revolucionária? Nunca. Por que é que Portugal havia de ser diferente?

Foi, de facto, uma fase passageira, mas ainda assim difícil e conturbada. O que é que o António fez para conseguir ultrapassá-la?

Pensando assim: Isto não pode ser, eu não fiz mal a ninguém. Continuei a trabalhar, sujeitei-me a que me pagassem aquilo que me quisessem dar. Eu tinha de trabalhar, porque nunca fiz mais nada na minha vida a não ser cantar. Ia às casas pedir para cantar e aceitava o que me quisessem dar.

Nessa altura, chegou também a cantar em circos.

Sim, mas eu também já cantava em circos antes.

É algo de que se orgulha?

Sim, Sim. Também fui criticado por cantar nos circos, apareceram as criticas nos jornais: ‘António Calvário trocou os tablados dos casinos pelos tablados do circo'. É ridículo, eu não poderia cantar só nos casinos. Curiosamente, nesse ano em que apareceu a crítica, saiu uma notícia sobre o Johnny Hallyday a anunciar que ele estava a fazer uma digressão por toda a França como atração do circo. É fácil percebermos a diferença de mentalidades vendo a forma como o trataram a ele, em França, e a forma como me trataram a mim, em Portugal. Como se fosse uma coisa muito reles cantar no circo.

Já falámos sobre vários momentos em que teve de lidar com as críticas, seja por parte do púbico ou da imprensa. Aprendeu ao longo da sua carreira a lidar com esses comentários menos bons?

Que remédio, mas magoas sentem-se sempre. Quando eu sinto que é injusto, é evidente que me sinto magoado, mas é necessário ultrapassar. Cada um tem a sua opinião. Só me aborrece é quando as pessoas têm uma opinião pessoal e generalizam, querem falar em nome de todos os portugueses. Acho mal que, por exemplo os jornalistas, falem em nome de uma sociedade.

Costumam dizer ainda hoje que eu era muito avançado para a época.

Uma das suas imagens de marca é o seu cabelo pintado de loiro.

Eu era loiro quando era miúdo, depois o cabelo começou a escurecer e eu resolvi manter a cor.

Na época em que a sua carreira começou, como é que era visto o facto de ter um grande cuidado com a imagem e de ter arriscado pintar o cabelo?

Costumam dizer ainda hoje que eu era muito avançado para a época. Gostava de me cuidar quando aparecia publicamente, não aparecia de qualquer maneira e especialmente o palco para mim era sagrado. Não é como hoje, a maioria dos meus colegas, eu tenho a impressão de que se vestem de manhã, andam durante o dia a fazer a sua vida e à noite estão vestidos da mesma maneira como saíram de manhã para ir para o palco cantar. Acho que não deveria ser assim, prefiro como se fazia antigamente: Existia um guarda roupa especial para o palco. Naquela altura até usava camisas cor-de-rosa.

E chegou também a ser criticado por isso.

Por isso e por usar folhos nas camisas. Uma vez trouxe de Espanha uma camisa de toureiro e adaptei a um smoking e, mesmo assim, fui insultado por causa disso. Mas hoje, olhando para trás aquilo estava perfeito.

Ainda tem esse cuidado com a imagem nos dias de hoje?

Hoje mais do que nunca, é muito importante ter cuidado com a imagem. Não tendo nada que fazer, normalmente, eu levanto-me às 7h30 da manhã e gosto de me arranjar, ir para a rua e tomar o pequeno almoço no café. Gosto da vida, gosto de conviver e de ver pessoas.

Não iria organizar um espetáculo de homenagem a mim próprio.

Referiu numa entrevista que em jovem bebia, fumava muito e gostava de sair à noite. Isso fazia parte da vida de quem era uma estrela ou era um gosto pessoal seu?

Houve alturas em que comecei a trabalhar muito em ‘nightclubs’, aí acaba por ter um grande contacto com pessoas que fumavam e que bebiam. O convívio fez de mim uma pessoa igual, mas eu deixei de fumar há cerca de 30 anos. Não deixei por imposição médica, mas porque eu quis. Tive medo que isso me viesse a fazer mal e então aos 50 anos pensei: antes que me faça mal, vou eu mesmo desistir de fumar e passar a ter uma vida mais regrada.

Ainda antes de completar os seus 60 anos de carreira manifestou vontade de que lhe fosse feita uma homenagem com um grande espetáculo.

Sim, tive sempre pena que à medida que vou fazendo esses anos de carreira isso nunca tivesse acontecido, mas eu também disse sempre que para isso acontecer não poderia ser eu a organizar. Não iria organizar um espetáculo de homenagem a mim próprio. Penso que isso deveria partir de uma canal televisivo ou de um grupo de empresários.

No meu curriculum só me faltou fazer isso, de resto fiz tudo o que era possível fazer em Portugal

Ainda espera por essa homenagem?

Agora já estou mais desmotivado, o tempo vai passando, os 60 anos de carreira estão a acontecer este ano. Costumo dizer: o que eu quero para comemorar os meus 60 anos de carreira é saúde para continuar a trabalhar. Neste momento tenho 80 anos, sinto-me bem e quero poder continuar a sentir-me assim.

Disse também, em tempos, que tinha o sonho de fazer uma novela. Mantém esse desejo?

Já me desmotivei também. Falei tanto nisso numa altura que isso podia acontecer, mas nunca aconteceu. No meu curriculum só me faltou fazer isso, de resto fiz tudo o que era possível fazer em Portugal: rádio, cinema , teatro, fiz digressões mundiais, corri uma parte do mundo. Sinto-me agradado e feliz com tudo o que fiz. Para mim, tem sido uma carreira fantástica.. É uma carreira longa e cheia de coisas para contar.

Ao longo do percurso feliz de que fala, alguma vez se sentiu esquecido enquanto artista?

Não, não dei por isso. Eu não me sinto esquecido na medida em que continuei sempre a trabalhar. Pode ter havido falta de notícias, mas isso já não é culpa minha.

Trabalho porque gosto e porque me sinto capaz de o continuar a fazer

Qual é a sua opinião sobre o panorama artístico atual?

É uma transição muito grande. Hoje vive-se muito na base dos grupos, das bandas e são maneiras de estar diferentes. Os rappers, por exemplo, não tem muito a ver com o tipo de canto que eu faço. Mas também ainda há bons cantores românticos.

Quando eu sentir que as pessoas já não me querem ou então quando eu já não puder mesmo vou parar.

Apesar de já ter completado 80 anos, o António continua a trabalhar em teatro e a dar concertos. Trabalha por gosto ou por necessidade como, infelizmente, muitos artistas em Portugal?

Deixei a minha vida orientada, não para que ficasse com muito mas o rendimento que tenho, mesmo que deixe de trabalhar, é o suficiente para o meu dia-a-dia, para as minhas despesas. Portanto, mesmo deixando de trabalhar não iria ficar assim muito mal. Não sou rico, evidentemente, e agora também já é tarde para isso, mas tenho o suficiente com a reforma. Trabalho porque gosto e porque me sinto capaz de o continuar a fazer, tenho tempo de deixar de cantar.

Quando se pisa o palco com 60 anos de carreira, as emoções são as mesmas do que quando tudo começou?

Sim, quando entro em cena o público aplaude-me de uma maneira que me leva a sentir que as pessoas ainda têm por mim o mesmo carinho. O aplauso do público é o que me dá ânimo para continuar,. Quando eu sentir que as pessoas já não me querem ou então quando eu já não puder mesmo vou parar, se sentir que a minha qualidade não é a mesma. É evidente que já não tenho 20 anos, mas o meu timbre mantém-se, continuo a cantar e continuo a ser um cantor afinado.

Tenho cantado em imensos lares e às vezes dou por mim a pensar: olha, este lar era bom para mim.

Pensa no momento em que terá de deixar os palcos?

Sei que isso terá de acontecer um dia e é evidente que vou ter pena, mas também estou preparado. Sei que é inevitável, como tantas outras cosias. Temos de nos preparar para tudo, tal como para o fim da vida. Eu estou mentalizado e não quero dar trabalho a pessoas de família. Um dia quando não conseguir ser independente nas coisas que faço estou preparado para ir para um lar. Há pessoas que detestam, mas nós temos de nos mentalizar que num lar, se estivermos a falar de um sitio como deve de ser, temos companhia e temos quem trate de nós. É melhor do que estar a viver sozinho. Tenho cantado em imenso lares e às vezes dou por mim a pensar: olha, este lar era bom para mim.

Portanto, a morte não é algo que o assusta?

Não, é a lei da vida. Eu vivi tanto, os meus momentos foram tão absorvidos, a minha carreira encantou-me e encanta-me tanto, o que é que eu posso querer mais? Apenas saúde para continuar a cantar.

Hoje, o António assinala os seus 80 anos de vida e 60 de carreira com o seu regresso aos palcos numa revista à portuguesa - ‘Volt’a Portugal em Revista’ - que estreia no teatro Gil Vicente, em Cascais, mas promete uma digressão nacional. Está entusiasmado com este novo projeto?

Estou muito feliz com este regresso. Nesta revista vou ter canções novas e são muito bonitas. Estou mesmo muito feliz com este trabalho.

O que nos pode desvendar para já sobre a ‘Volt’a Portugal em Revista’?

Vou estar ao lado da Natalina José, a principal figura feminina desta revista, e quem assistir vai divertir-se imenso com as representações e com a maravilha dos textos, são oportuníssimos. Todos os que virem, no final, vão chegar à conclusão de que valeu a pena este espetáculo.

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