Dizem os especialistas que, no futuro, não só os dispositivos electrónicos estarão todos interligados, como também as nossas casas serão inteligentes. Isto mais parece conversa de quem passa muito tempo a ver filmes de ficção científica ou até mesmo num laboratório, como é o caso de algumas das personagens masculinas da série «A teoria do Big Bang», «The Big Bang theory» no original. Mas não é, assegura Vasco Portugal, um empreendedor português que acaba de inaugurar o espaço de coworking LINNK, em Lisboa.

Doutorando do MIT, onde esteve envolvido num grupo de trabalho relacionado com a cidade do futuro, este especialista ajuda-nos a esclarecer o que está mais perto da realidade, e o que podemos esperar num futuro próximo. Com a população mundial a aumentar de ano para ano, e a migração crescente para os centros urbanos, as formas de habitar estão a atravessar um momento de mudança. O fenómeno é global, mas é em países como a Índia e a China, e cidades como Nova Iorque, onde se regista a maior procura por soluções mais funcionais e intuitivas para casas pequenas.

Esta tendência exige que o espaço em que vivemos seja otimizado, em conformidade com as nossas necessidades, no sentido de maximizar o tempo de utilização dessa mesma área. Assim, a arquitetura, a engenharia e a decoração de interiores devem trabalhar em simbiose, porque todas contribuem ativamente para a forma como usufruímos da nossa casa. Do mesmo modo, os residentes terão cada vez mais poder no design do apartamento ou casa em que querem viver.

App que antecipa gostos e necessidades

No grupo Changing Places do MIT, em que Vasco Portugal trabalhou, está a ser desenvolvida uma aplicação chamada City Home que simula uma reunião entre um arquiteto e um potencial residente. De acordo com o perfil dos possíveis compradores, os seus gostos pessoais e estilos de vida (que são obtidos através de redes sociais e questionários), a aplicação sugere soluções para as suas necessidades. E também permite que a pessoa personalize desde os acabamentos, à iluminação aos equipamentos eléctricos e funções de cada móvel.

No fundo, é a aplicação do conceito de arquitetura modular ao interior da casa só que com um funcionamento mais futurista. Por outro lado, já existem casas pré-fabricadas (em aço-corten ou madeira) que são divididas em módulos, permitindo desfrutar de um espaço pequeno de forma mais eficaz, sem sacrificar a funcionalidade. E também é uma maneira de ter várias opções sempre que quer mudar a decoração, ou quando a família dá as boas-vindas a um novo membro.

Com paredes amovíveis e mobiliário integrado o processo ainda é mais facilitado, tornando a vivência do espaço mais flexível. E mais! No futuro, a iluminação e os móveis serão controlados com gestos, e as paredes deverão reconfigurar-se de acordo com as necessidades do indivíduo automaticamente. «Chamamos a isto o robot wall, uma parede que podemos controlar através de botões que lhe indicam em que divisão se deve transformar», clarifica Vasco, e acrescenta que «é a parte humana que faz o projeto de difícil resolução, porque as pessoas são imprevisíveis», refere.

Rede inteligente

O nosso futuro está prestes a ficar ainda mais conectado, com os carros a avisarem os termostatos quando estamos a chegar a casa, e as luzes a passarem a vermelho sempre que é detetado monóxido de carbono. Nesse futuro (que está mais próximo do que pensamos), as casas vão ser inteligentes graças a uma rede que vai interligar desde os móveis, aos equipamentos, à parte sensorial. «A complexidade está em ligar isso tudo, porque agora os cabos que temos em casa não passam informação, nem dados», explica Vasco Portugal.

Inclusivamente, alguns dispositivos só agora é que começam a trabalhar bem. O Wi-Fi é um bom exemplo disso, e será a chave para a casa inteligente trabalhar bem. Em 2013, apenas 62% da população portuguesa tinha ligação à internet em casa. E quando a ligação à internet sem fios não funciona bem ainda é complicado e moroso de resolver, o que não poderá acontecer nas casas inteligentes.

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Outros desafios para a(s) casa(s) do futuro

Para apoiar o futuro interconectado, esta tecnologia terá de ser mais rápida e confiável. A banda larga deverá funcionar tão bem como o serviço de eletricidade hoje em dia, e os modems terão de ser mais fáceis de instalar e de manter. No fundo, para poderem ser considerados inteligentes os aparelhos terão de poder identificar o que está a correr mal e ajudar a corrigir o problema, se não o futuro será frustrante e, possivelmente, perigoso. Como diz Vasco Portugal, «com uma solução nasce sempre um problema».

Entre esses desafios estão os hackers, «que se sentirão atraídos pelo conceito de casa inteligente, passando a ser os assaltantes do futuro. E, além disso, os vírus que trazemos nos computadores também irão causar alguns problemas, já que afetarão o funcionamento correto da casa inteligente», vaticina o especialista. Todos os dispositivos serão alvos de ataques que, agora, não conseguimos prever. Contudo, «essa nunca será a parte limitativa», garante o doutorando do MIT.

A segurança tecnológica terá de ser melhorada, sim, tal como o funcionamento de todos os dispositivos também terá de ser mais intuitivo. Neste sentido, quer a Google quer a Apple já estão a desenvolver plataformas destinadas a interligarem os equipamentos elétricos e de entretenimento das casas.  Em junho de 2014, a Apple anunciou o software HomeKit, que liga os dispositivos caseiros aos dispositivos da marca.

Também o Nest, que no início do ano foi comprado pela Google, por 3,2 mil milhões de euros, tem lançado aparelhos que podem ser controlados remotamente, como o Learning Thermostat, à venda por 193 €. Este termostato ajusta as definições de acordo com o uso que lhe damos e ajuda a poupar cerca de 132 € em gastos energéticos anualmente.

Todavia, o facto de as duas empresas estarem a lutar pelo monopólio deste mercado levanta outra preocupação. A compatibilidade entre dispositivos e softwares de fabricantes diferentes. Ambas terão de garantir a privacidade dos seus clientes para conseguirem a sua confiança, visto que o que as pessoas mais valorizam em casa é a segurança.

Casas 3D

Em apenas 24 horas, a empresa chinesa WinSun Decoration Design Engeneering produziu dez casas, cada uma com 230 m2, através do inovador método de construção contour crafting. Assinada por Behrokh Khoshnevis, professor da Universidade do Sul da Califórnia, nos EUA, a tecnologia não só irá revolucionar a engenharia civil, como também permitirá brincar com a arquitetura a preços mais acessíveis. A casa é moldada por um padrão feito0 em computador e depois é reproduzida por uma impressora 3D gigante.

Cimento e outros materiais desperdiçados são utilizados para fazer a estrutura, reduzindo o custo das comuns centenas de milhares de euros para cerca de 3.600 €. Brevemente, o método contour crafting será testado na construção de prédios com vários andares. E, com o intuito de vir a ser aplicado na lua e em Marte, o projeto está a ser financiado pela NASA e pelo Cal-Earth Institute. Mas, para já, esta solução ainda não será comercializada com vista à habitação, podendo vir a ser utilizada como alojamento de refugiados ou em campanhas humanitárias após catástrofes naturais.

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Habitações compactas

Gary Chang, um arquitecto de Hong Kong, ainda habita o mesmo apartamento onde cresceu, só já não partilha os 32 m2 com os pais e as duas irmãs. E, de uma, passou a ter vinte e quatro divisões. Para o arquiteto, a utilização do espaço, do tempo e dos materiais tem de ser inteligente. Além da tipologia tradicional (quarto, casa de banho, cozinha), Gary Chang ainda consegue ter outras divisões, como uma biblioteca, uma sala de cinema e um spa, graças às paredes amovíveis. Num futuro próximo, a conectividade das casas e a possibilidade de mudar os interiores serão uma realidade na maioria das habitações compactas nos centros urbanos.

Em Portugal

Conheça algumas das empresas que oferecem soluções modulares (pré-fabricadas), de domótica e de mobiliário integrado no nosso país:

- Casas modulares

As construções pré-fabricadas modulares não devem ser encaradas como tendo menos qualidade do que as tradicionais. Embora algumas estejam prontas num mês, estas casas normalmente demoram cerca de seis meses até serem colocadas no terreno (por causa das aprovações) e estão disponíveis em aço-corten (desde 40.000 €) ou madeira (a partir de 30.000 €). Se está interessado numa solução destas, recomendamos que consulte as empresas Mima Lab, Modiko, Lemcor, Novo Habitat ou Pinho Casa.

- Mobiliário integrado

Já chegaram a Portugal os móveis transformáveis, capazes de alterar a sua forma e função em poucos segundos com o mínimo de esforço e sem ruído, graças à sua tecnologia hidráulica. A Space It é a distribuidora nacional das marcas italianas Clei e Ozzio, líderes do mercado saving space, disponibilizando soluções modernas e criativas (em diferentes acabamentos), a partir de 1.000€.

- Soluções de domótica

Há mais de 20 anos que a premiada empresa portuguesa ISA desenvolve soluções inovadoras, como o software Cloogy. Este é um portal web que, por cerca de 99 €, permite controlar remotamente os equipamentos elétricos que tem em casa e ainda produz relatórios dos seus consumos para poder comparar com a tarifa energética.

Texto: Filipa Basílio da Silva