O Laboratório Marítimo da Guia ocupa o forte de Nossa Senhora da Guia, erguido no século XVII numa falésia de onde se avista a Laje do Ramil, por onde, em 28 de julho de 1580, as tropas espanholas comandadas pelo duque de Alba entraram em solo português.

O interior das instalações é acanhado, por vezes labiríntico, ostenta mobiliário “parado no tempo”, anexos improvisados que estão a precisar de obras, sendo património da Universidade de Lisboa, à qual o forte, desativado no século XIX, foi cedido em 1941 para acolher a secção marítima do então Museu Bocage, do qual resiste uma placa à entrada.

O laboratório, que herdou muito do trabalho feito pelo biólogo marinho Luiz Saldanha, que o reativou como unidade de ensino e investigação da Faculdade de Ciências de Lisboa em 1975, é hoje um dos polos do Mare – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente. Antes, integrou o Instituto do Mar e o Centro de Oceanografia da mesma faculdade.

A Universidade de Lisboa considera que, apesar das “necessárias transformações e consequentes acrescentos algo inestéticos e descaracterizadores” que foram feitos ao longo de vários anos, o forte “mantém alguma da sua traça original e adapta-se ao funcionamento do laboratório que o ocupa”.

Rui Rosa, um dos cerca de 25 investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que trabalham no laboratório, além de estudantes de mestrado e doutoramento, não se deixa demover pelo estado das instalações, onde coordena o grupo de investigação que estuda o impacto do “trio mortal” das alterações climáticas nos oceanos – aquecimento, acidificação e perda de oxigénio – desde “as moléculas até aos ecossistemas” marinhos.

“Embora a infraestrutura do Laboratório Marítimo da Guia seja antiga, e haja vários problemas logísticos, é um privilégio trabalhar num sítio único e com uma história ímpar, que vem desde 1642”, data de construção do forte, afirmou à Lusa o investigador, ex-aluno de Luiz Saldanha, que morreu em 1997.

Do tempo do professor da Faculdade de Ciências de Lisboa que se destacou no estudo da fauna marinha do Atlântico Nordeste, e que começou a sua carreira como naturalista do Museu Bocage, há fotos num quadro ao lado de uma escada de pedra em forma de caracol por onde se desce, depois de atravessar a sala de arquivo que serve também para convívio e refeições, aos espaços exíguos onde estão os tanques e aquários com água bombada diretamente do mar que permitem realizar as diversas experiências científicas, entre um emaranhado de tubos, cabos e fios ligados a tomadas.

Um dos aquários tem embriões de tubarão pata-roxa (Scyliorhinus canicula) com os quais Rui Rosa e restante equipa se propõem estudar o impacto da desoxigenação dos oceanos.

“Simulamos a diminuição dos níveis de oxigénio no oceano previstos para o futuro nos nossos sistemas aquáticos de suporte de vida e avaliamos parâmetros neurofisiológicos, imunológicos e comportamentais”, explicou, acrescentando que os embriões serão depois eutanasiados para que “análises moleculares e fisiológicas” possam ser feitas.

“Todo este tipo de experimentação animal exige autorizações e certificados específicos emitidos pelos órgãos competentes”, ressalvou, assinalando que o seu grupo de investigação usa preferencialmente como modelo espécies em estados iniciais de vida “porque são mais vulneráveis aos efeitos da mudança global” do clima.

Experiências que simularam a acidificação do mar (aumento da acidez causada pelo aumento de dióxido de carbono, CO2) revelaram impactos distintos em algas e bivalves.

“As macroalgas parecem beneficiar do aumento de CO2 no oceano porque o utilizam para a fotossíntese, enquanto espécies que precisam do carbonato de cálcio para produzir os seus exoesqueletos e conchas, como os bivalves, têm mais problemas quando temos um ambiente mais ácido”, salientou Rui Rosa.

Num espaço esconso com prateleiras cheias de frascos, Vanessa Lopes trabalha com culturas de microalgas que produzem toxinas com efeitos paralisantes. A especialista em toxicologia marinha quer aferir como as ondas de calor ou a acidificação afetam as microalgas e depois a restante cadeia alimentar, como bivalves e douradas. Espera ter os primeiros resultados ainda este ano.

A poucos passos, num espaço mais amplo, Tiago Repolho trabalha com ouriços-do-mar numa experiência de aquacultura de gónadas, mais conhecidas como ovas e consideradas uma iguaria ‘gourmet’ com alto valor comercial.

O investigador pega com mestria nos ouriços-do-mar cuja adaptação ao ambiente laboratorial é feita em tanques que mais parecem caldeirões, de cor preta para mimetizar as rochas onde vivem, e onde são alimentados com milho, fonte de hidratos de carbono.

Numa fase seguinte, e após um jejum forçado, os invertebrados irão ser alimentados com diferentes rações, feitas de compostos naturais ou artificiais, para que possa ser verificado o seu efeito na formação das gónadas.

No final, num teste de degustação às cegas, um grupo de pessoas será chamado “a provar as gónadas e a dar a opinião sobre a textura, o gosto, o cheiro e a forma”, esclareceu Tiago Repolho.

Ao contrário dos colegas, Catarina Frazão Santos não trabalha no meio de tanques e aquários, apesar de ser bióloga marinha, mas num gabinete com um computador onde estuda planos e leis.

Especialista em ordenamento do espaço marítimo, a investigadora pretende perceber como é que este ordenamento, que define os diferentes usos do mar, como transportes, pesca, turismo ou aquacultura, pode ser afetado pelas alterações climáticas e depois encontrar soluções, que podem passar por proteger certas áreas ou promover outras para a utilização de energias renováveis ou de transportes com combustíveis mais ecológicos.

Portugal tem um plano de ordenamento do espaço marítimo, mas, como “a maior parte” dos planos no mundo, “não incorpora as alterações climáticas”, denunciou Catarina Frazão Santos, cujo “próximo passo” da sua investigação é estudar o caso português.

Rui Rosa, Vanessa Lopes, Tiago Repolho e Catarina Frazão Santos esperam que a Conferência dos Oceanos da ONU de Lisboa, que se realiza de 27 de junho a 01 de julho, sirva para aumentar a consciencialização para o uso sustentável dos oceanos, a bem de todos.

A investigadora Marta Pimentel, que está a estudar os efeitos das ondas de calor e da falta de oxigénio nos cavalos-marinhos, avaliando o seu metabolismo e comportamento, acrescenta outro tópico: o dar “voz aos cientistas” para que as ações, que têm falhado por parte dos decisores políticos, avancem em concreto.

No Laboratório Marítimo da Guia, o cavalo-marinho não é só objeto de estudo e uma atração para o público escolar, mas é também a “face” de uma peculiaridade: é este animal que dá forma ao batente da porta que anuncia quem quer entrar… num espaço que outrora foi uma fortificação militar.

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