A vida de uma vaca leiteira

Não olhamos para as vacas da mesma forma que olhamos, por exemplo, para uma gata ou cadela. Porém, estudos demonstram que são tão inteligentes como os animais domésticos. A vaca, tal como qualquer outro mamífero do sexo feminino, só vai produzir leite após o período de gestação - em alguns casos é possível extrair pouco antes da cria nascer. E é só desta forma que este animal consegue produzir leite.

Na produção industrial de lacticínios, a vaca está 'pronta' para ser fecundada com um ano de idade, recorrendo a um aparelho de contenção ao qual lhe chamam rape rack [algo como compartimento de estupro].

Este é o início do curto e sofrido ciclo de vida de uma vaca na indústria leiteira. A inseminação artificial pode ser dolorosa e traumática para o animal que, após uma gravidez de nove meses, dará  à luz e em poucos dias - ou mesmo horas - a sua cria será afastada. Este ação é fundamental para que o bezerro não beba o leite da mãe - uma vez que este irá para consumo humano - e o animal será alimentado com fórmula à base de soja.

Se esse mesmo bezerro for fêmea então será alimentada até que tenha um ano de vida e depois imitar o destino da sua mãe. Quanto aos machos, são considerados 'subprodutos' inúteis nesta indústria. Alguns são mortos pouco depois de nascerem, outros têm o direito de viver mais uns meses para depois serem vendidos como vitela para o consumo humano.

Voltando à vaca mãe, ela será fecundada novamente ainda no período de extração de leite, o que significa que por pelo menos sete meses do ano ela estará grávida durante a ordenha. Os métodos intensivos têm sido usados ​​para aumentar a produção média de leite de 10 litros por dia na década de 1970 para 22 litros por dia em 2020. Esta enorme tensão é insustentável para o corpo do animal, levando a um colapso físico.

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Um terço das vacas leiteiras tem mastite, uma infecção dolorosa do úbere. A claudicação é comum e esta lesão nervosa permanente, causada por partos sucessivos, pode afetar a capacidade de controlar as patas traseiras. Para o evitar, os funcionários algemam as patas traseiras. Devido a este intenso ciclo de vida, a vaca acaba por sofrer de infertilidade e a produção de leite começa a baixar. O que acontece a seguir? O animal será sacrificado para uso de carne de baixa qualidade.

Para a maioria das vacas da indústria leiteira a vida termina aos seis anos, quando elas podem viver naturalmente 20 anos.

O feminismo e o paradoxo do consumo de leite

De acordo com o dicionário, o feminismo é um movimento político, social ou cultural que advoga a defesa dos direitos das mulheres, com base no princípio da igualdade de direitos e de oportunidades entre os sexos.

Algumas feministas  começam a levantar questões morais nesta dissonância cognitiva. Será normal os humanos controlarem violentamente o sistema reprodutivo de um animal enquanto pedem tratamento semelhante às mulheres?

Atribuir diferentes valores morais ou direitos aos indivíduos com base na espécie a que pertencem é chamado de especismo.

“Eu sou uma feminista vegana. Sou um animal entre muitos e eu não quero impor uma hierarquia de consumo a essa relação”, diz a escritora, ativista e defensora dos direitos dos animais, Carol J. Adams, ao site Vegan Food & Living.

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Um dos pilares que sustenta o movimento feminista é o direito da mulher escolher o que faz com o seu corpo. Em Portugal, só em 1995 é que a violação dentro do casamento se tornou um crime. Antes, a lei implicava que as mulheres eram propriedade dos maridos.

Atos deliberados de abuso contra animais revoltam a maioria das pessoas, então porque são tantos os que ignoram esse abuso sistemático das vacas? Adams diz: “Gostaria de ver liberdade reprodutiva para todas as fêmeas, não apenas para as fêmeas humanas”.

O movimento #MeToo desvendou um série de agressões e assédios sexuais de mulheres, especialmente no local de trabalho. Alguns defensores dos direitos dos animais usaram a mesma hashtag em prol dos direitos de animais, uma vez que o sofrimento dos animais era comparável ao das mulheres. Uma semelhança que causou forte consternação.

O recente uso da palavra #MooToo, popularizada por Peter Lovenheim no jornal Los Angeles Times, não pretende diminuir o movimento original, mas enfatizar o facto preocupante de que a exploração de mulheres é tão sistemática como o dos animais.

Um ciclo de tormento físico e emocional é imposto à vaca leiteira até ela morrer. O leite para consumo humano vem de uma mãe em luto.

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