Com os seus quadros pretende dar mais emoção às pessoas.

Descobriu tarde o gosto pela pintura. Tinha acabado de se reformar e sentia-se perdida sem saber o que fazer. Um dia entrou numa loja da especialidade e comprou tudo o que era preciso para dar início àquilo que hoje é a sua maior paixão.

Verdadeira autodidata, Delfina Mendonça pinta todos os dias e já não consegue viver sem as telas e os pincéis à sua volta. Os seus quadros estão espalhados em coleções particulares de todo o mundo e a sua técnica é elogiada pelos maiores mestres da pintura.

Nasceu em Braga há 64 anos. Estudou lá ou em Lisboa?

Estudei em Braga e em Lisboa e quando acabei os estudos fui trabalhar para a Cetel, uma empresa onde gostei muito de trabalhar e onde conheci as pessoas que me ensinaram mais na vida.

Entretanto adoeceu?

Diagnosticaram-me uma doença terrível, o Crohn. E como não podia ter uma vida de stresse devido à minha doença, fui trabalhar para o Estado que me permitia uma vida mais calma com horas e com regras. Na outra empresa não tinha regras, deitava-me muitas vezes às cinco ou seis da manhã a trabalhar.

Durante quantos anos foi funcionária pública?

Cerca de 30 anos, a maioria dos quais no Secretariado para a Juventude e mais tarde no FAOJ como técnica de ar livre, hoje denominados animadores socioculturais. Para isso tirei vários cursos em França e também gostei muito desta experiência.

Sai porquê?

Mais tarde tirei uma licença sem vencimento para tratar do meu marido que estava na fase terminal de um cancro, do qual viria a morrer seis meses depois. Depois da morte dele fiquei com uma depressão horrível, mas ainda voltei ao Estado durante mais quatro ou cinco anos e aí o meu Crohn não me deixou trabalhar mais.

Reformou-se nessa altura?

Sim. E senti-me um pouco perdida sem saber o que fazer. Como fui sempre dada ao misticismo, e depois da grave depressão que tive, da qual só me tratei 12 anos depois de o meu marido ter morrido, uma amiga minha, que é médica, desafiou-me a ir com ela tirar um curso de reiki e acabei por fazer os três níveis.

Correu-lhe bem?

Gostei muito, foi uma experiencia fantástica, e, curiosamente, a minha mestra dizia-me repetidas vezes que eu tinha qualquer coisa dentro de mim que ainda não se tinha revelado e quando isso acontecesse ia ser um grande sucesso.

O reiki trouxe-lhe tranquilidade?

E uma paz tão grande que aconselho a toda a gente. O reiki ajuda-nos a controlar os nossos próprios males assim como os dos outros. Quando acabei o curso fiz reiki ao meu primeiro patrão, na altura com 87 anos, que já não andava, e, ao fim de 15 dias, pu-lo a andar. Foi inacreditável! Para além do Dr. Rodrigo Jorge Motsuma, uma pessoa que eu adoro e com quem ainda falo muitas vezes ao telefone, fiz reiki a muitas outras pessoas, a mim, à minha cadela, a toda a gente…

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E onde entra a pintura na sua vida?

Foi coisa que nunca me tinha passado pela cabeça. O meu marido era professor universitário e muito ligado à pré-história, já que ele era investigador de pré-história africana, e adorava museus e tudo o que fosse arte. Nós íamos para qualquer lado, ele ia visitar os museus e eu ficava cá fora a fumar…

Até que um dia se dá um clique?

Eu morava na Avenida EUA e passava no Centro Comercial Roma várias vezes por semana mas nunca tinha reparado numa loja de pintura que já lá estava há anos, e resolvi entrar. Cheguei ao balcão e disse que queria pintar.

E perguntou ao dono da loja o que precisava para ser pintora?

Exatamente. Ele aconselhou-me tudo o que eu precisava para ser uma grande pintora, desde as telas, aos pincéis e às tintas. Comprei tantas coisas que o dono da loja teve que me ajudar a levá-las a casa.

Isso foi há quanto tempo?

Há nove anos. Comprei os primeiros materiais em Setembro e comecei logo a pintar para mim, para a minha filha, para os meus amigos, para os meus irmãos, e pintava tanto que já não tinha sítio para guardar tantas telas.

Nunca foi aprender a pintar?

Não. Sou completamente autodidata. Limitei-me a seguir as indicações do homem que me vendeu as tintas e depois foi muita observação e sobretudo muita experimentação. Não há dúvida nenhuma que o grande conhecimento vem da experiência. E orgulho-me de ter uma técnica que nunca vi ninguém usar. E até os próprios mestres com quem me relaciono, me perguntam como consigo esta técnica.

As suas obras são lindas. Nunca vi tanto brilho num quadro a óleo.

É uma técnica só minha que não revelo a mais ninguém.

E começa a expor como?

Logo depois de começar a pintar, um casal amigo foi jantar à minha casa e a mulher do meu amigo é dona da galeria 55 em Santarém, e gostou tanto dos meus quadros que me desafiou a colocar lá meia dúzia de quadros numa exposição coletiva que ela se preparava para organizar no Natal.

Correu bem a sua primeira exposição?

Fiquei orgulhosíssima. Nessa exposição ninguém vendeu nada e os meus quadros venderam-se todos. Entretanto, através dessa minha amiga conheci o dono do Funil e passei a colocar lá com regularidade os meus quadros. Vendi o primeiro quadro à cozinheira do Funil e isso foi das coisas que me deram mais prazer.

Como conheceu os mestres da pintura de que falava há pouco?

Como sou muito atrevida, mandei os meus curricula e as fotografias para as galerias de todo o mundo e para todos os sites de arte que encontrei na Internet. Neste momento já estou em todos os sites do mundo. E quando muitos desses mestres vêm a Portugal, ficam em minha casa.

Pinta todos os dias?

Todos os dias. Acalma-me muito.

Os seus quadros já estão em vários países?

Sim. Tenho quadros na casa real espanhola, nas Nações Unidas em Viena de Áustria, no Rotary Club de Miami, no Brasil, no Texas, e em muitos outros países. Já expus em várias partes do mundo e cheguei a ter 47 quadros em Dülsseldorf. Neste momento estou em Málaga.

Nunca mais se sentiu sozinha?

Nunca mais. Deixei de sentir solidão. Ainda mais já fui entrevistada por todos os canais de televisão, e até já fizeram um filme em minha casa para a memória futura da Cinemateca Nacional.

Tem horas para pintar?

Pinto sempre de noite. A noite é a minha melhor conselheira. E mesmo sem precisar da pintura para sobreviver, pinto para viver! Não conseguiria viver sem pintar.

O que é melhor nessa experiência solitária da pintura?

Com os meus quadros pretendo dar mais emoção às pessoas através de ofertas estéticas com o intuito de proporcionar mais facilmente encontros culturais. Quero facilitar vivências às pessoas colorindo-as com cores mais humanas.

Texto: Palmira Correia

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